PUBLICIDADE
Topo

Demissão "a pedido" foi sugestão de Bolsonaro, disse Valeixo em depoimento

Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

11/05/2020 19h19

O ex-diretor-geral da Polícia Federal Maurício Valeixo disse que o presidente Jair Bolsonaro lhe telefonou, na noite de 23 de abril, para informar a exoneração do delegado e indagar se poderia colocar no "Diário Oficial da União" que o ato foi "a pedido", embora Valeixo não tivesse encaminhado um processo de exoneração. A declaração integra o depoimento que Valeixo prestou nesta segunda-feira (11) na superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR).

Valeixo disse que concordou com Bolsonaro sobre a expressão "a pedido". O ato saiu publicado na madrugada do dia 24 e foi a última etapa de um tenso processo que cercava sua permanência no cargo desde agosto de 2019, quando o então ministro da Justiça Sérgio Moro informou as pressões de Bolsonaro para que Valeixo substituísse o superintendente da PF no Rio, Ricardo Saadi. O telefonema de Bolsonaro ocorreu, disse Valeixo, em "um cenário envolvendo sua exoneração que se arrastava há cerca de nove meses".

O ex-diretor-geral disse que a conversa com Bolsonaro ocorreu depois que ele foi procurado pelo delegado Alexandre Ramagem, diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência). Ramagem ligou para Valeixo e pediu que ele entrasse em contato com a Presidência da República.

Valeixo ligou para o número indicado e o aparelho foi repassado para Jair Bolsonaro, segundo o delegado. "O presidente comunicou ao depoente [Valeixo] que sua exoneração do cargo de diretor-geral ocorreria". O presidente teria indagado, segundo a versão de Valeixo, "se ele concordava com a publicação [...] como 'a pedido', momento em que o depoente disse que sim", dessa forma "concordando com a publicação da exoneração como 'a pedido'".

Valeixo contou que na tarde daquele dia, 23, o ex-ministro Sérgio Moro também lhe havia perguntado se ele concordava com a publicação de uma exoneração "a pedido", pois estava sendo articulada, na direção-geral no lugar de Valeixo, a posse do número dois do órgão, o delegado Disney Rosseti. Valeixo então teria dito que aceitaria o termo "a pedido" e que "faria uma solicitação formal ao ex-ministro de exoneração 'a pedido'", mas isso não chegou a ocorrer até a ligação de Bolsonaro.

Já tarde da noite do dia 23, Valeixo recebeu uma nova ligação telefônica, agora de Sérgio Moro. O então ministro lhe informou que ele, Valeixo, seria exonerado no dia seguinte, "sem mencionar de que forma ela se seria, se a pedido ou não, ou se o dr. Roseti seria o seu substituto".

Só no dia seguinte, 24, Valeixo reportou a Moro a conversa que havia tido com Bolsonaro.

O UOL teve acesso ao depoimento de Valeixo e vai publicar novos trechos dentro de minutos.

Rubens Valente