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Covid: após protesto contra Saúde, yanomamis conseguem regressar às aldeias

Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

19/06/2020 20h29

Após passarem várias semanas retidos em uma casa de apoio do Ministério da Saúde em Boa Vista (RR), indígenas da etnia yanomami conseguiram enfim começar o regresso às suas aldeias nesta sexta-feira (19). O retorno, com apoio de aviões, só foi autorizado depois de um protesto na Casai (Casa de Saúde Indígena).

Os indígenas que poderão voltar, cerca de 23, estavam em Boa Vista ou porque foram acompanhar outros parentes em tratamento para a Covid-19 ou porque já se encontravam na cidade quando a pandemia começou. Eles ficaram mais de 14 dias de quarentena, o tempo máximo estimado de incubação do novo coronavírus, mas depois não conseguiram regressar às aldeias. Indígenas disseram que estavam em Boa Vista há "meses" à espera de uma autorização para o retorno.

O episódio revela a falta de recursos, as dúvidas sobre procedimentos básicos e a dificuldade das autoridades de saúde na hora de combater a pandemia entre os povos indígenas, situação que tende a se agravar no país com a interiorização da doença em vários estados amazônicos. Segundo o levantamento diário da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), até esta tarde já haviam sido contabilizados 315 indígenas mortos e 6,5 mil casos de contaminação em 108 povos, mais de um terço do total dos povos indígenas do país.

No último dia 9, os yanomami se reuniram no pátio interno da Casai em protesto. Empunhando um facão, o líder indígena e paciente Gerson Blene Yanomami pediu providências do Ministério da Saúde para a solução do problema. "Liberem nosso retorno para nossas comunidades. Nos mandem de volta! Liberem os aviões para nosso retorno. Não queremos ficar aqui falando à toa", disse Gerson, da comunidade Marakanã, região Toototopi, segundo a tradução feita pela articulação Rede Pró-Yanomami e Ye'kwana, formada por mais de 40 pesquisadores e apoiadores.

Gerson disse que os yanomami também estavam muito contrariados com a solução dada pelos profissionais da saúde ao corpo de um yanomami de 15 anos, Alvanei Xirixana, morto pela Covid-19 em abril, primeiro óbito registrado na etnia durante a pandemia. Seu corpo foi enterrado em Boa Vista, enquanto os indígenas queriam levá-lo para a aldeia, a fim de realizar o ritual tradicional yanomami de despedida do parente. "Se vocês nos fizerem morrer aqui nessas terras, se vocês nos enterrarem nesses cemitérios em outra terra, nós não queremos ser enterrados!", disse Gerson.

Na cidade, os indígenas acabaram ainda mais expostos ao novo coronavírus. De acordo com a articulação de pesquisadores e apoiadores, cerca de 40 indígenas foram contaminados dentro da própria Casai enquanto aguardavam o retorno à terra indígena, o que representava, até o último dia 8, quase a metade dos casos já confirmados de Covid-19 entre os yanomâmis. Na sexta-feira, os casos no distrito sanitário já chegavam a 126. "Muitos dos que se contaminaram estavam em tratamento por outros motivos de saúde", informou a Rede Pró-YY.

O Ministério da Saúde confirmou na quarta-feira (17) à coluna que 23 indígenas estavam em condições de regressar às suas aldeias, mas argumentou que a retenção não era culpa do órgão. Disse que lideranças yanomamis estavam "resistentes" à ideia do retorno dos parentes porque eles ainda poderiam transmitir o novo coronavírus nas aldeias.

Na nota, o ministério disse os 23 indígenas já eram considerados curados para Covid-19 "e, portanto, não representam risco de transmissão do vírus". O órgão disse ainda que equipes do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) estavam em contato com as lideranças e procuravam "esclarecer sobre a inexistência de riscos aos indígenas. Tão logo se resolva esse impasse, o retorno dos pacientes será realizado". O transporte começou nesta sexta-feira.

Em resposta, a Rede Pró-Yanomami e Ye'kwana disse que as lideranças sabem que a Casai "é hoje o maior foco de contaminação por Covid-19 entre os Yanomami" e, por isso, "certamente não desejam que seus parentes não infectados pela Covid-19 fiquem à mercê da sorte na Casai".

"Não por acaso, muitos indígenas que foram infectados por Covid-19 dentro da terra indígena Yanomami têm preferido ficar em suas comunidades ao invés de serem removidos para Boa Vista. Os Yanomami têm um duplo temor: o risco de não receberem tratamento e atenção adequada, agravando o seu estado de saúde, e o risco de morrerem na cidade e ali serem enterrados, impossibilitando a realização de seus rituais funerários, tão fundamentais para os Yanomami", afirmou a Rede Pró-YY.

"A Sesai deveria garantir estrutura e procedimentos adequados para a quarentena dos pacientes recuperados da Covid-19, assegurando assim seu retorno seguro. O órgão deveria criar as condições para que a quarentena dos pacientes com alta médica ocorresse na Casai e também em área indígena, nos pólos base do Distrito Sanitário Especial de Saúde Indígena Yanomami e Ye'kwana (DSEI-Y). Dessa forma, seria possível controlar o contágio nas aldeias."

Rubens Valente