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Rubens Valente

Grupos bolsonaristas miram pedofilia e põem Damares como saída, diz empresa

15.mai.2020 - Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília - GABRIELA BILó/ESTADÃO CONTEÚDO
15.mai.2020 - Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília Imagem: GABRIELA BILó/ESTADÃO CONTEÚDO
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

06/08/2020 04h02Atualizada em 06/08/2020 22h55

A Máquina Soluções, empresa que já colaborou com a CPI das Fake News no Congresso, identificou uma mudança de foco em redes bolsonaristas no WhatsApp a partir do mês passado. Os grupos passaram a dar destaque, compartilhar e desenvolver mensagens voltadas ao combate à pedofilia ao mesmo tempo em que atacam, com falsas alegações, personalidades como o youtuber Felipe Neto e a apresentadora de TV Xuxa.

A estratégia seria, de acordo com profissionais que fizeram o monitoramento, desviar o foco em conversas de redes sociais sobre as graves crises nos campos econômico e sanitário no Brasil, com mais de 96 mil mortos e a depressão gerada pela pandemia do novo coronavírus. Os autores do relatório apontam ainda uma técnica de apresentar "problema e solução", quando o problema seria a pedofilia, e a solução, a ministra Damares Alves, que comentou o caso à coluna (veja mais abaixo).

O movimento para uma pauta da época de campanha eleitoral de Bolsonaro chamou a atenção dos especialistas.

"Já há alguns dias o tema 'combate à pedofilia' aparece com mais intensidade no universo bolsonarista. Vem criando-se um espantalho de que a esquerda e a mídia liberal progressista teriam a intenção de descriminalizar a pedofilia, sob o argumento de que 'não seria um crime, mas sim uma doença que demandaria tratamento'. Nessa toada, acusam e difamam personalidades por supostamente serem favoráveis ao projeto, como o Felipe Neto, Xuxa e o deputado Marcelo Freixo [PSOL-RJ]", diz o relatório da empresa.

Na semana passada, Neto afirmou ter derrubado cerca de mil vídeos com conteúdo contra ele. Recebeu, inclusive, o apoio público de Xuxa.

A Máquina atua no Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul com consultoria para clientes privados. Ela afirma acompanhar mais de 200 grupos bolsonaristas no WhatsApp desde o primeiro semestre de 2018, ainda antes da corrida presidencial. Cada grupo pode receber até 256 membros, mas a maioria varia de cem a 200 integrantes, segundo a empresa.

Assunto conecta militância ao governo

Ao mesmo tempo em que atacam personalidades, os grupos "alavancam nomes do próprio governo como grandes combatentes contra o tema [pedofilia]: além do próprio Jair Bolsonaro, a figura mais associada ao assunto é a ministra Damares Alves", diz a empresa.

A coluna contou 18 mensagens sobre o tema do combate à exploração sexual infantil no perfil da ministra Damares (Mulher, Família e Direitos Humanos) em um espaço de nove dias do final de julho ao início de agosto. As mensagens tratavam, na sua maioria, de um evento sobre o tema e uma visita da ministra a uma delegacia que investiga um suspeito de pedofilia.

"Falo disso desde sempre", respondeu a ministra ao UOL por meio de sua assessoria, por escrito. "Lembrando que a primeira grande polêmica já na transição conta a história do pé-de-goiaba, de um caso de abuso e tentativa de suicídio que acabou se tornando a luta da minha vida."

No dia 30 de julho, a conta da Secom (Secretaria de Comunicação) da Presidência da República no Twitter ecoou as palavras da ministra: "É hora de trabalharmos todos juntos pela proteção de nossas crianças também na internet. É todo mundo cuidando de todo mundo e todo mundo cuidando das crianças do Brasil', reforçou a ministra Damares Alves".

Um dos filhos de Bolsonaro, o deputado federal Eduardo (PSL-SP), também foi na mesma linha em seu Twitter no dia 28: "O Governo Jair Bolsonaro vai intensificar a luta contra a pedofilia, através de órgãos policiais e do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado por Damares Alves. Chegou a hora de dar um basta nesta calamidade e destruir estas redes".

Empresa vê tática de exibir problema e solução

A estratégia das postagens seria, segundo A Máquina, apresentar "o problema" e, em seguida, "a solução".

"O tema da pedofilia sempre esteve na periferia do caldo cultural bolsonarista, naquela lógica do 'bandido bom é bandido morto'. Eles diziam que a pedofilia é o crime mais bárbaro. Mais recentemente, de um mês para cá, isso começou a aparecer com mais frequência nos grupos. E a figura da ministra Damares vem sendo vendida, levantada, como a grande pessoa que vai resolver isso, que vai combater, que é a 'solução'", diz Rafael Caliari, diretor de planejamento da empresa de monitoramento.

Para Damares, a sintonia apenas reflete a concordância entre a gestão de Bolsonaro e seus apoiadores. "[É] natural. As pessoas que seguem o governo, que acreditam nele, também seguem suas pautas. E além de ser o ministério da articulação pelos direitos humanos, este também é o ministério que defende valores. Valores estes que elegeram Jair Bolsonaro em 2018."

A coluna perguntou por que ela escreveu, em rede social, que "é hora de trabalharmos todos juntos", se isso significa que haverá uma nova iniciativa, um novo programa ou projeto do governo federal sobre o tema.

"Falo isso desde o início da gestão. Desde sempre estou chamando o Brasil para um grande pacto pela infância. Quis dizer que é hora de toda a sociedade se unir para interromper o ciclo da violência sexual. Nosso ministério também trabalha com essa temática, mas a rede de proteção é composta por outros atores, como a sociedade civil organizada, o Judiciário, o Ministério Público... É hora de interromper o ciclo da violência. Foi isso o que quis dizer."

A narrativa bolsonarista, segundo o monitoramento

De acordo com o relatório da empresa, a "narrativa bolsonarista" é baseada numa suposta posição "anti-sistêmica", na qual Jair Bolsonaro é retratado como "uma espécie de soldado solitário contra todo um establishment que gostaria de derrubá-lo com o intuito de impedir tanto sua luta contra a corrupção, os privilégios da velha política e a esquerda quanto sua luta a favor dos valores da família brasileira e dos bons costumes".

Os "inimigos" variam de semana a semana. "Ora é o Legislativo, na figura de Rodrigo Maia, ora o STF e seus ministros, todos teoricamente mancomunados com a Rede Globo de televisão e o petismo [alcunha utilizada para definir qualquer ator político mais à esquerda]", diz o documento.

Ao mesmo tempo, as Forças Armadas "são colocadas quase como uma instituição santa, a única capaz de ajudar Bolsonaro a depurar os problemas brasileiros".

Os grupos são formados, segundo a empresa, por exemplo, por "evangélicos, caminhoneiros, entregadores de aplicativos" e "como carro-chefe, militantes dos diversos espectros políticos, com especial ênfase nos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro".

"Pelos movimentos passados, que são muito iguais, a gente acredita que exista uma instância decisória, onde estariam os líderes dos nós que ligam as instâncias abaixo. No topo é onde as políticas são formuladas. É como uma pirâmide. No topo está quem decide o que vai ser distribuído, qual vai ser a demanda da vez", avalia Caliari.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.