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Rubens Valente

GPS e perícia contradizem deputado do PSL que se disse vítima de atentado

Fotografia do carro do deputado federal Loester Trutis (PSL-MS) com marcas de tiros e postada pelo parlamentar no Facebook - Reprodução/Página de Loester Trutis
Fotografia do carro do deputado federal Loester Trutis (PSL-MS) com marcas de tiros e postada pelo parlamentar no Facebook Imagem: Reprodução/Página de Loester Trutis
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

13/11/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Deputado federal eleito em 2018 e apoiador de Bolsonaro, Loester Trutis (PSL-MS) denunciou em fevereiro que sofreu "emboscada" a tiros numa rodovia
  • A relatora do caso no STF, ministra Rosa Weber, autorizou buscas e apreensões em endereços do parlamentar; ele foi preso e solto nesta quinta-feira
  • O GPS do carro mostrou desvios que não foram relatados pelo parlamentar; PGR e PF apontam contradições e a perícia não confirmou versão do deputado

O deputado federal Loester Carlos Gomes de Souza (PSL-MS), 38, o Tio Trutis, é um representante da auto-declarada "nova política" da direita que se projetou nas eleições de 2018: sem passagem anterior em cargos eletivos e ardoroso defensor do presidente Jair Bolsonaro, ele propõe o armamento da população, posta fotos nas redes sociais com armas de fogo, se diz "anticomunista" e é diretor do "Movimento Conservador de Mato Grosso do Sul", cujo presidente é seu assessor parlamentar na Câmara dos Deputados, Ciro Nogueira Fidelis.

Dono de uma lanchonete em Campo Grande (MS), Trutis foi eleito parlamentar com 56 mil votos. Na manhã desta quinta-feira (12), ele foi preso em flagrante por porte de arma de fogo de uso restrito - um fuzil da Taurus T4 -, quando a PF cumpria mandados de busca e apreensão expedidos pela ministra do STF Rosa Weber.

Horas depois, o deputado foi solto também por ordem da ministra, que acolheu entendimento de que mudanças recentes na legislação, já no mandato de Bolsonaro, fizeram uma distinção entre arma de fogo proibida e de uso restrito. Assim, o caso de Trutis seria afiançável - ele teve a prisão relaxada sem pagamento de fiança.

A prisão pela arma de fogo, porém, foi um fato inesperado dentro da Operação Tracker, desencadeada na quinta-feira. Na verdade o parlamentar é investigado por falsa comunicação de crime, porte ilegal de arma de fogo, disparo de arma de fogo e dano, tudo relacionado a outro assunto.

A história começou em 16 de fevereiro passado, quando Trutis ganhou o noticiário nacional ao relatar uma "emboscada", segundo o termo usado por ele, que teria sofrido na rodovia BR-060, entre Sidrolândia (MS) e Campo Grande (MS). Ele postou nas redes sociais a fotografia do carro que ocupava, um Toyota Corolla alugado pelo seu gabinete na Câmara dos Deputados, com marcas de tiros nos vidros traseiro e lateral esquerdo.

"Graças a Deus pude revidar", disse o deputado em fevereiro

O deputado Loester Trutis (PSL-MS) - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
O deputado Loester Trutis (PSL-MS)
Imagem: Reprodução/Facebook

O relato feito por Trutis era cercado de heroísmo. Ele disse à PF no dia do atentado que uma camionete modelo L-200 emparelhou com o Corolla guiado pelo assessor Fidelis. O parlamentar estava no banco traseiro, "para descansar". Da camionete partiu então "uma rajada", cerca de "três tiros", quando então Trutis "se protegeu no interior do veículo [Corolla] e revidou os disparos de arma de fogo com a sua pistola TH-380", dando "cinco ou seis tiros".

Segundo Trutis, a perseguição continuou até que Fidelis "acelerou" e então "freou bruscamente", manobra que parece ter funcionado, já que a camionete dos agressores misteriosamente foi embora sem dar mais nenhum tiro.

Quando chegou a Campo Grande, Trutis postou na sua página no Facebook: "Estamos bem. Meu pai dizia: 'Tenha fé, mas vá armado'. Graças a Deus pude revidar e aguardar chegar a polícia. Quem achou que eu ia parar ou me calar, digo que estamos apenas começando e sigo trabalhando. Obs: Não darei entrevista por não acreditar na seriedade da imprensa digital do MS".

Nos dias seguintes ao suposto atentado, Trutis seguiu dizendo nas redes sociais que o fato de andar armado é que o salvou, argumento frequentemente usado pelo bolsonarismo para defender o armamento da população. Ele não atribuiu o atentado nominalmente a ninguém, mas sim a "políticos, com a ajuda do crime organizado", que "colocam milhões na imprensa local, que por isso também não é confiável".

"Antes de fazer uma piada ou dizer que foi uma simulação, lembre-se que esse grupo está em todas as esferas do poder há mais de 30 anos, e em 2018 eu quebrei esse ciclo ficando com uma das vagas de deputado federal. E pior, não me deixei intimidar pelos políticos que tem ligação com esses grupos! Agora um consórcio de inimigos se une para acabar comigo. Graças a Deus pude reagir, antes com minha voz e agora com minha arma. Vamos viver novos tempos, não vão me parar, não vão me calar! Tenho fé e ando armado. Sigo Trabalhando", escreveu o parlamentar.

Análise do GPS do carro expôs buracos na versão do parlamentar

À PF, Trutis disse que não podia "afirmar com certeza", mas achava que o atentado "decorre de sua atuação como deputado federal, pois em razão de sua atuação acaba irritando muita gente no Mato Grosso do Sul". Na sua vida privada, disse ele, não havia motivo nenhum.

A PF começou a apurar o caso e, poucos dias depois, começou a ver que os relatos de Trutis e Fidelis não batiam com as descobertas da investigação. Em poucos meses, a PF desmontou a história contada pelo parlamentar, de acordo com o inquérito, cujo sigilo foi levantado pela ministra Rosa Weber nesta quinta-feira (12).

Primeiro, Trutis omitiu importantes movimentos do carro que ocupava nos momentos que antecederam o suposto ataque. A pedido da PF, a empresa dona do veículo locado pela Câmara apresentou os dados de GPS do automóvel e os policiais conseguiram reconstituir o que aconteceu.

Na manhã do dia 16 de fevereiro, a princípio o carro ficou na rodovia BR-060 das 6h07 às 6h17, quando então fez um retorno "para o sentido Campo Grande-MS (voltando de onde partiu)", escreveu a PF. Às 6h21, o carro entrou numa estrada vicinal bloqueada por uma cancela. Então voltou para a rodovia, em velocidade reduzida.

Às 6h26 fez um novo retorno, agora em direção a Sidrolândia. Às 6h27, entrou em um outra estrada vicinal, onde ficou até 6h29, quando então seguiu para Campo Grande. Na estrada vicinal, o carro ficou desligado por 24 segundos. Às 6h32, o carro enfim apareceu nas câmeras de um posto de inspeção da Secretara de Fazenda com "os sinais visíveis dos danos causados pelos disparos".

Nada disso havia sido relatado por Trutis e Fidelis, os dois ocupantes do carro. O deputado havia dito que o carro parara apenas três vezes naquele dia: para pegar Fidelis na sua casa, num posto de gasolina e numa farmácia.

A PF foi à segunda estradinha e encontrou oito cápsulas deflagradas de calibre 9 mm e um fragmento de vidro. "Os investigados [Trutis e Fidelis] ocultaram em seus depoimentos que haviam entrado em 2 (duas) estradas vicinais no decorrer do percurso sob apuração", escreveu, em petição ao STF, o vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, que analisou perícias e relatórios da PF.

Imagens não identificaram nenhum carro seguindo o deputado

A perícia da PF também não encontrou sinais de frenagem brusca na rodovia, o que contraria o relato de Trutis. A polícia analisou as imagens captadas por câmeras de circuito fechado na região e concluiu que "não havia indícios de que ele [Corolla] estava sendo perseguido".

No exame das câmeras do posto da Secretaria de Fazenda, foram identificados três carros na rodovia no momento do suposto atentado ao Corolla: um Renault Kangoo branco, um Ford Ka branco e um Fiat Strada. A PF localizou e ouviu os três motoristas. Dois disseram não lembrar nada de relevante na viagem. O terceiro disse ter ultrapassado um Corolla que "trafegava em velocidade muito baixa, cerca de 60 km/h".

No seu depoimento à PF, Trutis disse que, "com certeza", o final da placa da camionete que o atacou tinha o número 18. A PF localizou duas camionetes L-200 com placa de final 18 e nada encontrou, sobre os proprietários, nada de importante para a investigação.

O parlamentar, que se apresenta como conhecedor de armas, disse à PF acreditar que a arma usada pelos agressões era uma "CTT, calibre .40, [...] não se tratava de um fuzil, pois o carregador era retilíneo e não curvo". A CTT é uma carabina semi-automática da Taurus. Mas a perícia da PF concluiu que os tiros que atingiram o carro do parlamentar partiram de uma pistola Glock 9 mm, o que bate com as cápsulas encontradas na estrada vicinal. A conclusão foi que o carro nunca foi atingido por tiros de uma "CTT calibre .40".

Ao analisar imagens postadas pelo parlamentar em suas redes sociais, a PF encontrou uma foto de Trutis aparentemente exibindo uma pistola Glock. A operação deflagrada nesta quinta-feira tinha como um dos principais objetivos localizar essa arma e confrontá-la com os tiros dados no Corolla - não se sabe se a PF conseguiu o que pretendia.

Perícia apontou que o atirador estava parado

A perícia criminal da PF levantou mais problemas na versão de Trutis. De acordo com a petição da PGR enviada ao STF, "a disposição no solo dos estojos encontrados no local [estradinha] sugere que o atirador se encontrava parado no momento dos disparos (ressaltando-se que a informação não seria totalmente precisa, haja vista o local ter ficado sujeito a intempéries climáticas e ao fluxo de veículos, animais e pessoas)". Ou seja, os tiros não teriam partido de um carro em movimento, ao contrário do informado por Trutis.

Também houve divergência a respeito dos tiros que o parlamentar disse ter dado dentro do seu carro. Os peritos criminais federais apontaram em laudo, de acordo com a PGR, que "as marcas de disparos encontradas no referido veículo [Corolla], realizados de dentro para fora, não poderiam ter sido efetivamente realizados pelo deputado Loester na posição em que este afirmou estar na ocasião".

"Estendendo a película encontrada na porta traseira esquerda, com fragmentos do vidro, pode-se perceber várias perfurações irregulares que não permitem determinar a quantidade e o sentido em que foram produzidas, estando concentradas na porção posterior da película, em altura medial e próximas entre si. Dessa forma, incompatíveis com a ação descrita pelo atirador [Trutis], que indicaria que os orifícios de saída deveriam estar localizados na porção anterior do vidro e em baixa altura", diz o laudo.

PF diz que assessor fez "manobras" para dificultar investigação

Com o cerco se fechando sobre a história narrada pelo parlamentar, a PF disse que começou a enfrentar obstáculos na apuração. Ao apresentar seu e-mail para a PF vasculhar, o assessor Fidelis entregou uma senha. Contudo, segundo a PF, ela estava errada. Além disso, a PF descobriu, no celular entregue pelo assessor, que seis mensagens de áudio enviadas pelo usuário "PSL Jovani" haviam sido apagadas.

"O assessor parlamentar Ciro Nogueira Fidelis empreendeu duas manobras ardis, claramente com o desiderato [de] atabalhoar as investigações da Polícia Federal", afirmaram, em relatório de junho, os delegados da PF Glauber Fonseca de Carvalho Araújo e Fernando Schwengber Casarin.

A princípio a investigação da PF focou no assessor Fidelis, pois Trutis não poderia ser investigado sem ordem do STF, por conta do foro privilegiado. Porém, o Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul solicitou e a Justiça Federal de Campo Grande determinou o envio dos autos para o STF, onde seguiu para a relatoria de Rosa Weber. Assim, a investigação continuou agora considerando também o deputado como investigado.

PGR apontou que deputado e assessor teriam simulado atentado

Na petição à ministra do STF, o vice-procurador-geral da República Humberto Jacques escreveu que "o cenário apresentado aponta para a prática dos delitos de comunicação falsa de crime (artigo 340 do Código Penal), porte ilegal de arma de fogo de uso permitido (artigo 14 da Lei n. 10.826/03), disparo de arma de fogo (artigo 15 da Lei n. 10.826/03) e dano (artigo 163 do Código Penal), possivelmente cometidos pelo Deputado Federal Loester Carlos Gomes de Souza (B) e seu assessor Ciro Nogueira Fidelis (A)".

De acordo com o vice-procurador-geral, "apurou-se que o deputado Loester (B) e o assessor Ciro Fidelis (A), diferentemente da narrativa apresentada inicialmente, teriam simulado uma tentativa de homicídio e disparado arma de fogo de que não tinham o porte contra o veículo Toyota/Corolla, no dia 16/02/2020. Após a conduta, teriam comunicado falsamente à Polícia Federal a ocorrência de crime".

O vice-procurador-geral disse que ainda não é possível afirmar, "com certeza", o motivo da suposta armação, mas observou que "i) o porte de arma é uma pauta política defendida intensamente pelo deputado Loester Trutis (B), ii) o parlamentar, ao noticiar o episódio, atribui ao porte de arma a ausência de lesões e, até mesmo, o escape da morté; e, ainda, iii) ele aduz ter sido "vítima' em razão de embates políticos no Estado de representação, ao menos em tese pode-se vislumbrar uma conexão dos fatos apurados com a atividade parlamentar".

A coluna procurou o advogado do parlamentar, Jozacar Agnelli, em seu telefone celular na noite desta quinta-feira (12) e mandou mensagens, mas não houve um retorno até o fechamento deste texto. Localizado pelo portal de notícias "Campo Grande News", o advogado disse que "nada a declarar". O portal G1 do MS também informou que, até às 18h48 de ontem, a defesa do parlamentar não havia se manifestado.