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Rubens Valente

Ernesto recorreu a Pompeo, dos EUA, na crise em Manaus; aviões não chegaram

O ex-secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo e o chanceler Ernesto Araújo, em reunião no ano passado - Bruno Mancinelle/IOM/Pool via Reuters
O ex-secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo e o chanceler Ernesto Araújo, em reunião no ano passado Imagem: Bruno Mancinelle/IOM/Pool via Reuters
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

23/01/2021 04h01

Na quinta-feira (14), no auge da crise de oxigênio medicinal que matou pacientes hospitalizados em Manaus (AM) e que continua, o chanceler Ernesto Araújo pediu ajuda por telefone ao então secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo. Mais de uma semana depois, nenhum avião para transporte do oxigênio e nenhuma carga do produto veio dos norte-americanos. Dois países forneceram ajuda para Manaus até o momento, a Venezuela e a China.

A informação sobre o telefonema consta de um ofício enviado pela AGU (Advocacia Geral da União) à Justiça Federal em resposta a uma ação civil pública ajuizada pela Defensoria Pública do Amazonas, DPU (Defensoria Pública da União), MPF (Ministério Público Federal) e MP (Ministério Público) do Amazonas.

Segundo a AGU, a atividade do Ministério das Relações Exteriores em torno da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus em Manaus começou no dia 14 — muito embora o governo federal houvesse recebido informação sobre a crise iminente em Manaus no dia 8.

O principal problema apurado a princípio foi o "de meios de transporte para oxigênio líquido estocado em outras regiões do Brasil", diz a AGU, que transcreveu uma manifestação da área jurídica do MRE (Ministério das Relações Exteriores).

"Com a ajuda da rede de postos" diplomáticos, disse o MRE, "identificou-se que o Chile e os Estados Unidos da América possuiriam aeronaves capazes de fazer esse transporte". Os dois países foram procurados pelo Brasil. A conversa com o Chile "levou à conclusão de que, embora o Chile de fato possua aeronave capaz de transportar oxigênio, o equipamento não seria adequado para o caso, por não dispor das especificações necessárias para o tipo específico de insumo a ser carregado".

O Brasil foi falar com os EUA que, "por sua vez, manifestaram prontamente a possibilidade de colaborar e, para tanto, solicitaram receber comunicação oficial do Itamaraty [sua Embaixada em Brasília (Nota Verbal), o que foi feito no mesmo dia 14 de janeiro".

Pompeo saiu do governo com a posse de Biden

"O tema foi objeto de telefonema entre o ministro Ernesto Araújo e o Secretário de Estado, Michael Pompeo. Além disso, foi estabelecido canal de diálogo direto entre o gabinete do ministro das Relações Exteriores e a Embaixada norte-americana sobre o tema, bem como entre a Embaixada do Brasil em Washington e os Departamentos de Estado e de Defesa dos EUA", diz o texto da AGU, que transcreve o ofício do Itamaraty.

Pompeo era homem forte do ex-presidente Donald Trump e deixou o cargo no dia 20, quando o democrata Joe Biden foi empossado na Presidência dos EUA.

O ofício diz ainda que "o Itamaraty vem atualizando as solicitações recebidas dos Ministérios da Saúde e da Defesa". "Ao mesmo tempo, os Estados Unidos vêm analisando a ajuda que poderão enviar ao Brasil, conforme a necessidade manifestada e os meios disponíveis."

Brasil "permanece em contato" com os EUA

O UOL procurou o Itamaraty e Embaixada dos EUA em Brasília para saber qual a ajuda oriunda dos EUA, no que consiste e o que falta para ser concretizada. Em nota, o Itamaraty afirmou apenas: "O governo brasileiro permanece em contato com o governo dos EUA sobre a possibilidade de doação e transporte de oxigênio, com vistas a atender às urgentes necessidades do Estado do Amazonas no contexto da pandemia de Covid-19".

A coluna indagou qual foi o exato pedido feito pelo Brasil aos EUA e qual o conteúdo da conversa mantida entre Araújo e Pompeo, mas não houve resposta. Também solicitou, sem resposta, acesso aos registros da conversa entre Araújo e Pompeo.

Em nota por meio de sua assessoria, a representação diplomática dos EUA disse o seguinte: "A Embaixada dos EUA está trabalhando com o governo federal e amazonense para identificar como a assistência do governo norte-americano poder atender às necessidades mais urgentes e complementar os esforços já em progresso do governo brasileiro. Por meio dos parceiros da USAID, Mais Unidos e Plataforma de Parceiros pela Amazônia, lançamos uma campanha com o Mercado Pago para coordenar doações e até agora, já arrecadamos R$ 169 mil".

O resultado na prática nulo das negociações de Ernesto Araújo com os EUA contrasta com a pronta resposta dada pelo governo da Venezuela à crise em Manaus. O governo de Nicolás Maduro enviou cinco carretas com 197 mil m³ de oxigênio, que chegaram a Manaus há três dias.

Na noite desta sexta-feira (22), a Embaixada da China em Brasília também anunciou a doação de insumos para o Amazonas. "Sensibilizados com a situação no estado do Amazonas, empresas e associações chinesas doaram ou estão doando 1.700 cilindros + 1.900 quilos de oxigênio e grande quantidade de insumos sanitários ao estado de Amazonas no combate à pandemia", informou a Embaixada em suas redes sociais.