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Rubens Valente

Há pessoas literalmente morrendo sufocadas em casa, diz especialista no AM

5.jan.2021 - Enterro em Manaus de vítima de covid-19 - Edmar Barros/Futura Press/Estadão Conteúdo
5.jan.2021 - Enterro em Manaus de vítima de covid-19 Imagem: Edmar Barros/Futura Press/Estadão Conteúdo
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

14/01/2021 04h01

Resumo da notícia

  • Epidemiologista aponta aumento das mortes em domicílio no Amazonas em meio a colapso no sistema hospitalar causado pela pandemia do novo coronavírus
  • Levantamento de associação nacional de cartórios mostra crescimento de 38% no número de mortes em casas no Amazonas em 2020, na comparação com 2019
  • Ministério da Defesa anuncia envio, por avião, de 50 toneladas de equipamentos e mais de 300 cilindros de oxigênio para hospitais no Amazonas

O número de pessoas mortas em domicílios aumentou 38% no Amazonas no ano passado, durante a pandemia do novo coronavírus, em comparação com 2019. É o que aponta um levantamento inédito da Arpen-Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais do Brasil).

O total de mortos em residências passou de 3.201 pessoas, em 2019, para 4.418 no ano passado. O local da morte é sinal da incapacidade do sistema hospitalar de internar, intubar e tratar os pacientes com Covid-19 , de acordo com o pesquisador e epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz/Amazônia. E o colapso já se repete em 2021, de acordo com o especialista, com um crescimento anormal de mortes em domicílio nas duas primeiras semanas de janeiro em Manaus.

Levantamento da rede pública de saúde citado pelo pesquisador mostra que nos dez primeiros dias de dezembro de 2020 morreram 64 pessoas em domicílios em Manaus. Nos dez primeiros dias de janeiro, porém, o número saltou para 137 - aumento de 114%. No primeiro dia de 2021 morreram onze pessoas em residências. O número passou para 15 no dia 8, 14 no dia 9 e 27 no dia 10 de janeiro.

"Há pessoas literalmente morrendo sufocadas em suas casas", disse o especialista. "São centenas de pacientes em fila para internação em leito clínico e de UTI [Unidade de Terapia Intensiva]. Na terça-feira recebi dois chamados desesperados de conhecidos pedindo alguma dica para internar parentes deles em Manaus. É o colapso. Um parente meu, com 80% de saturação, estava praticamente sem respirar. E não tem a menor possibilidade de internar em leito. Estou revivendo o que assisti em abril de 2020. É simplesmente uma repetição, mas em uma escala maior", disse Orellana.

De acordo com o pesquisador, estão lotados os 465 leitos de UTI para casos confirmados de Covid-19 e 80 leitos para casos suspeitos, enquanto há "centenas" de pessoas aguardando a internação. Na comparação com setembro do ano passado, a ocupação de leitos clínicos por pacientes com síndrome respiratória aguda grave por Covid-19 aumentou 636%.

As mortes em domicílio ocorrem em meio à explosão dos óbitos gerais causados pela doença. Nesta quarta-feira (13), em um "alerta epidemiológico" enviado a diversos órgãos públicos do Amazonas e de Brasília, Orellana apontou que ocorreram, somente nos 12 primeiros dias de janeiro, 446 mortes por Covid-19, um aumento de 11,8% em relação à soma de todas as mortes registradas nos meses de julho, agosto e setembro do ano passado.

Outro número desnuda a crise humanitária de Manaus: em 12 de janeiro houve o recorde de sepultamentos num único dia, 166 enterros, "o maior ao longo de toda a pandemia", disse Orellana.

No "alerta", Orellana advertiu que a situação atual da epidemia em Manaus "pode, inclusive, deixar a primeira onda (março a julho de 2020) de contágio e mortalidade por Covid-19 muito próxima ou até menor do que a segunda onda em curso, caso não sejam incorporadas mais medidas sanitárias para frear a epidemia".

"Os tomadores de decisão não podem fechar os olhos para a desesperadora realidade de Manaus, pois o esgotamento de leitos clínicos e de UTI tem levado a uma desumana e perversa fila de espera para pacientes residentes não só na capital, mas no interior onde, vexativamente, ainda inexistem leitos de UTI. Outra situação igualmente dramática é a dos trabalhadores de saúde, exaustos física e psicologicamente, bem como enlutados e desmotivados pela perda de parentes/conhecidos e de dezenas de colegas de profissão, para a mesma epidemia que tentam, como podem, ajudar a debelar", disse o epidemiologista.

Orellana já havia apontado, em outro "alerta" de setembro, a necessidade de medidas mais rigorosas do poder público a fim de evitar uma segunda onda da pandemia no Estado. "Talvez o único caminho para frear a segunda onda em Manaus seja um lockdown rigoroso, de uns 14 dias, para que estado, município e a sociedade de modo mais amplo possam reavaliar os erros cometidos até então e, aos poucos, quem sabe, possamos retomar, de forma realmente segura, as atividades não essenciais e o tão desejado e necessário retorno das aulas presenciais."

O especialista disse ao UOL que o lockdown "é medida muito extrema e, para ser aplicada - essa a grande dificuldade -, não pode ser do dia para a noite, precisa ser planejado. Infelizmente temos certeza de que o lockdown, se for aplicado, será mal aplicado". Ele mencionou que há muitas festas clandestinas em Manaus e baixa participação da sociedade a fim de implementar um distanciamento social mais sério.

Comunidades indígenas tentam conter segunda onda em São Gabriel da Cachoeira

Assim como ocorreu no ano passado, o aumento vertiginoso dos casos e óbitos de Covid-19 na capital antecipa o recrudescimento da pandemia em cidades do interior do Estado. Em São Gabriel da Cachoeira, considerada a cidade com maior número de indígenas do país, o movimento indígena já passa a identificar uma segunda onda da doença. O município tem cerca de 45 mil habitantes e em 2020 atravessou uma crise humanitária com a superlotação do hospital do município e 61 mortes causadas pela Covid-19.

No último dia 7 de janeiro, o ISA (Instituto Socioambiental) relatou 100% de ocupação no único hospital da cidade. No dia 12, a prefeitura municipal informou "313 casos recentes confirmados". A dificuldade extra na região é que não há leito de UTI, mesma situação de todo o interior do Amazonas, o que obriga a remoção do paciente por avião para Manaus, que também já vive a crise da falta de leitos.

Uma das principais empresas que atua no transporte de barcos na região anunciou nesta quarta-feira a suspensão das atividades "por tempo indeterminado" por conta da pandemia.

"Praticamente ela [segunda onda] já chegou, não só no núcleo urbano mas dentro dos territórios indígenas. Está se alastrando por toda a região. A área urbana está bastante acometida com isso. Estamos vendo ações conjuntas com órgãos públicos e cobrando medidas. O Distrito Sanitário Rio Negro está também agora organizando um centro de referência na cidade para acolhimento dos indígenas com Covid e que têm que sair das comunidades para fazer um tratamento na cidade. A ideia é que possa conter isso e que não possa chegar a ter mais mortes, como já aconteceu a ter no ano passado, ou até mesmo evitar transferir paciente para a cidade, que está praticamente colapsada, está na faixa roxa, uma das piores da Covid", disse Marivelton Baré, presidente da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro).

Defesa diz que envia para Manaus 50 toneladas de equipamentos e 386 cilindros de oxigênio

Na região de São Gabriel da Cachoeira atuam no atendimento à população diversos órgãos públicos municipais, estaduais e federais e várias organizações não governamentais como o ISA, a FOIRN, o Expedicionárias da Saúde e Médicos Sem Fronteiras, entre outras. O ISA informou que em 2020 foram equipadas e instaladas 14 Unidades de Atendimento Primário aos Indígenas na região do Rio Negro e aplicados 4 mil testes rápidos sorológicos.

A gravidade da situação da pandemia no Amazonas levou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, a visitar Manaus nesta quarta-feira (13). O Ministério da Defesa também informou à imprensa que transporta entre ontem e hoje, em aviões da FAB (Força Aérea Brasileira), um total de "50 toneladas de equipamentos e materiais para a montagem de Hospital de Campanha (HCAMP) em Manaus".

"O Ministério da Defesa atende à solicitação do governador do Amazonas, Wilson Miranda Lima, que requereu apoio junto ao Comando Conjunto da Amazônia, um dos 10 comandos conjuntos estabelecidos em todo o país pela Operação Covid-19", disse o ministério, em nota à imprensa. Os aviões levam "20 barracas climatizadas, 20 climatizadores e três geradores, entre outros insumos de saúde".

A Defesa informou ainda que foram transportados na madrugada de quarta-feira, "em caráter de urgência, cilindros de oxigênio hospitalar para Manaus". "A missão, com logística de guerra, teve início na sexta-feira passada (08) e deve terminar no próximo domingo (17). No total, 386 cilindros de oxigênio deverão ser transportados por aviões C-130 (Hércules), da Força Aérea Brasileira (FAB), para o estado."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.