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Rubens Valente

Opinião: Hoje é o Dia E de Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro com Arthur Lira  - Reprodução
Jair Bolsonaro com Arthur Lira Imagem: Reprodução
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

01/02/2021 04h01

Nesta segunda-feira (1), quando os parlamentares votarem nos candidatos de Jair Bolsonaro ao comando da Câmara e do Senado após uma farta liberação de emendas parlamentares e acenos de cargos, o presidente marcará em definitivo a negação do que havia prometido na campanha eleitoral de 2018 no campo das alianças políticas. Aqui nem importa muito o resultado final, a opção de Bolsonaro é pública e dela não se descolará nunca mais.

Arthur Lira (PP-AL), o candidato à presidência da Câmara apoiado pelo Planalto, aglutina e representa aquela parte do Congresso com a qual o então candidato do PSL jurava que nunca iria se aliar.

Em um vídeo divulgado na campanha eleitoral, Bolsonaro dizia que nos últimos anos o presidente da República indicava seus ministros "de acordo com interesses político-partidários". "Por isso nós não integramos o Centrão, tampouco estamos na esquerda de sempre."

Em outro vídeo, divulgado em agosto de 2018, o candidato argumentava que "de um lado o Centrão, com essa gente que você muito conhece. De outro, a esquerda, que teima em voltar ao poder. Juntos, têm todo o tempo de televisão e de rádio, bem como quase R$ 1,7 bilhão para investir em campanha".

No seu plano de governo registrado na Justiça Eleitoral, Bolsonaro denunciou "a forma perniciosa e corrupta de se fazer política nas últimas décadas, caracterizada pelo loteamento do Estado, o popular 'toma lá-dá-cá' [sic]".

Não sabemos quantos brasileiros votaram em Bolsonaro por essa promessa, mas ela ajudou a criar a falsa impressão de que Bolsonaro era descolado do sistema político - sistema no qual ele funcionou ativamente por 27 anos como deputado federal, inclusive em partidos do Centrão, como o PP e o PTB.

Em outro trecho do seu plano de governo, Bolsonaro prometeu, em letras garrafais, que teria "tolerância ZERO com o crime, com a corrupção e com os privilégios".

Lira, seu apadrinhado, deverá depor na próxima quarta-feira (3) na condição de réu em uma ação de improbidade administrativa movida pelo Ministério Público Federal em Alagoas, que investiga um suposto esquema de "rachadinha". Em dezembro, ele foi denunciado pelo MPF como suposto "líder" do esquema.

É verdade que Lira não é condenado, mas também é verdade que zero é zero.

O ataque à corrupção representada pela política tradicional não era um detalhe na campanha de Bolsonaro. Os brasileiros se diziam indignados com as revelações da Operação Lava Jato - milhões e milhões de dólares lavados em paraísos fiscais pelo mundo afora, corrupção de parlamentares, malas de dinheiro - e o candidato do PSL surfou na onda.

Um dos símbolos máximos da corrupção na política revelada pela Lava Jato foi o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Em junho de 2016, meses antes da votação que cassaria o mandato de Cunha, um parlamentar entregou à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) um parecer que, se aprovado, salvaria Cunha. Esse parlamentar se chamava Arthur Lira. Naquela época, Cunha já havia sido afastado da presidência da Câmara por decisão do ministro do STF Teori Zavascki, o relator da Lava Jato no tribunal.

Em setembro de 2016, quando o afastamento de Cunha foi ao plenário, apenas dez parlamentares votaram a favor de Cunha, um dos quais era Arthur Lira.

É difícil esquecer o general da reserva Augusto Heleno, braço direito de Bolsonaro, cantando se "gritar pega Centrão, não fica um". Na letra original da música "Reunião de bacana", de Ary do Cavaco, Centrão era ladrão.

Mesmo num país onde a coerência não é o forte na maioria dos políticos, o que estamos a ver na relação entre Bolsonaro e o Centrão é um tapa na cara do brasileiro.

Faz lembrar a ilusão aplicada pelo ex-governador de Alagoas Fernando Collor durante a campanha presidencial de 1989. No segundo turno, em um debate na TV Globo, ele acusou seu adversário, Luiz Inácio Lula da Silva, de planejar o confisco das carteiras de poupança dos brasileiros. Uma vez eleito, Collor bloqueou as poupanças, contas bancárias e aplicações financeiras do país.

Histórica também a promessa feita pelo ex-ministro José Serra (PSDB) durante a campanha eleitoral de 2004 à Prefeitura de São Paulo, quando chegou a assinar um papel no qual afirmava que não abandonaria o cargo pela metade a fim de disputar o governo estadual. Foi o que ele fez, dois anos depois.

Bolsonaro amaldiçoou o Centrão. Agora alegremente corre de braços abertos para "essa gente". Hoje é o dia E de Jair Bolsonaro. E de estelionato eleitoral.