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Rubens Valente

NOTÍCIA

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Exibição das roupas do casal Bolsonaro na TV custou R$ 25 mil

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a primeira-dama Michelle Bolsonaro participam da abertura da exposição das roupas usadas na posse, em 2019 - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a primeira-dama Michelle Bolsonaro participam da abertura da exposição das roupas usadas na posse, em 2019 Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

22/02/2021 04h01

Resumo da notícia

  • Valor corresponde aos pagamentos feitos pela Secom à empresa estatal EBC pela transmissão por fibra óptica, espaço na programação, locução e texto
  • Em outro evento controverso em dezembro, a Secom pagou R$ 34,8 mil pela transmissão do jogo beneficente de futebol em Santos, no qual Bolsonaro atuou

Em 7 de dezembro passado, o presidente Jair Bolsonaro e a primeira-dama, Michelle, protagonizaram um evento insólito no Palácio do Planalto. Em plena pandemia do novo coronavírus, com a presença de ministros, servidores da Presidência, do alfaiate de Bolsonaro e da estilista de Michelle, o casal inaugurou uma exposição dos trajes que usou na posse presidencial de 1º de janeiro de 2019.

De acordo com documentos agora obtidos pela coluna, o ato, que durou apenas 9 minutos, custou R$ 25 mil aos cofres públicos só com a transmissão pela EBC (Empresa Brasil de Comunicação) na TV Brasil. A EBC mantém um contrato com a Secom (Secretaria Especial de Comunicação) pelo qual é remunerada pelas transmissões de eventos com a participação do presidente.

No mesmo mês, outro ato que gerou repercussão foi a participação de Bolsonaro num jogo de futebol na Vila Belmiro, em Santos (SP). A partida gerou um meme nas redes sociais porque Bolsonaro caiu de cara no gramado ao fazer um gol. A transmissão da pelada pela EBC custou mais R$ 34,8 mil aos cofres públicos, de acordo com os documentos oficiais.

Os gastos com a inauguração da exposição dos trajes correspondem a cinco ações tomadas pela EBC sobre o mesmo evento dentro do rol de serviços previstos no contrato com a Secom. O mais caro foi a transmissão em si das imagens, feita por fibra óptica, que custou ao todo R$ 21,5 mil. Esse é o valor mínimo correspondente à transmissão de uma hora, ainda que o ato tenha durado apenas 9 minutos e 13 segundos.

O segundo serviço do pacote, ao custo de R$ 1,6 mil, foi a transmissão do ato pelo canal 2 da TV Brasil ("recepção em canal adjacente da multiprogramação da TV Brasil, transmissão terrestre"). O evento entrou ao vivo no canal às 17h18 de 7 de dezembro.

O terceiro item do pacote foi a locução do evento, no valor de R$ 1,4 mil. O profissional ficou 1h09 à disposição da EBC, diz o relatório da empresa. O texto noticioso sobre a inauguração custou R$ 273,95 e a edição, R$ 60,55. Ambos foram considerados "de baixa complexidade".

Jogo beneficente na Vila Belmiro foi transmitido por 1h43min

A inauguração da exposição dos trajes foi um dos oito eventos com a participação de Bolsonaro transmitidos pela EBC por fibra óptica no mês de dezembro. O gasto total com esse serviço naquele mês foi de R$ 181 mil (aí incluído os R$ 21,5 mil com a cerimônia dos trajes).

Em 15 de janeiro, o site "Poder360" divulgou, a partir de dados coletados pela Lei de Acesso à Informação, que a exposição dos trajes custou R$ 9,2 mil. O valor é relativo à confecção das duas vitrines e à aquisição de dois manequins. Com os dados agora disponíveis sobre a transmissão, é possível concluir que o ato todo custou ao menos R$ 34,2 mil aos cofres públicos.

Um valor semelhante (ou exatos R$ 34,8 mil) foi o pago pelo contribuinte brasileiro pela transmissão da participação de Bolsonaro num jogo de futebol beneficente realizado em Santos (SP) no dia 28 de dezembro último. O jogo anual, chamado de "Natal sem fome", teve a participação de vários ex-jogadores e serve para arrecadar doações para famílias necessitadas.

O canal 2 da TV Brasil transmitiu a partida durante 1h43min, de acordo com o relatório da EBC. Para isso, foi remunerada pela Secom em R$ 12,8 mil. A partida foi transmitida por meio de um equipamento portátil conhecido como "mochilink", o que custou mais R$ 20,7 mil. Mais R$ 1,33 mil foram gastos pelo serviço de "streaming de evento em redes sociais ou portal".

O jogo foi um dos dez eventos cobertos por meio do "mochilink" no mês de dezembro passado, com um custo total de R$ 128 mil (aí incluídos os R$ 20,7 mil com o evento em Santos).

Em janeiro, a coluna revelou que em apenas cinco meses de 2020 a União gastou R$ 162 mil com a transmissão de eventos com a participação de Bolsonaro em escolas militares e formaturas de policiais e militares. Levantamento feito na ocasião mostrou que os valores cobrados pela EBC estão abaixo dos de mercado - o valor não é a questão, mas sim a escolha dos eventos dos quais Bolsonaro resolve participar, já que a Secom afirma ser uma atividade fundamental acompanhar o presidente e ministros em eventos e agendas oficiais.

Secom diz que dá publicidade "às agendas e ações do governo"

Quando foi procurada em janeiro para que comentasse os gastos de transmissão com eventos militares, a Secom, que em junho saiu funcionalmente da Presidência para ficar vinculada ao Ministério das Comunicações, afirmou em nota que transmitir os compromissos de agendas do presidente Jair Bolsonaro e de de outras autoridades do Executivo é uma das suas "competências fundamentais".

A íntegra da nota enviada ao UOL em janeiro:

"As transmissões em TV - não somente na EBC bem como em outras emissoras - possuem definições técnicas que são observadas a partir da avaliação de cada evento que será transmitido e/ou gravado a partir de critérios como, por exemplo: tamanho do evento; espaço (aberto ou fechado); qualidade do sinal de transmissão; quantidade de câmeras necessárias; tipo de material a ser produzido; entre outros.

"São rotineiras a cobertura e a produção, pela Empresa Brasil de Comunicação, de conteúdos e agendas relacionados ao presidente da República, vice-presidente da República e demais autoridades do Governo Federal, como forma de dar publicidade às agendas e às ações do Governo, atendendo, portanto, a uma das competências fundamentais da Secretaria Especial de Comunicação Social."