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Rubens Valente

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Indígenas desmentem Bolsonaro sobre cobrança de pedágio e obra de linhão

Indígenas waimiris-atroaris que participaram de fiscalização contra invasões que ameaçam índios isolados na Amazônia - ACWA (Associação Comunidade Waimiri-Atroari)
Indígenas waimiris-atroaris que participaram de fiscalização contra invasões que ameaçam índios isolados na Amazônia Imagem: ACWA (Associação Comunidade Waimiri-Atroari)
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

02/05/2021 13h49

Reunidos nesta sexta-feira (30) na terra indígena localizada na divisa entre Roraima e Amazonas, os indígenas waimiris-atroaris reagiram à fala do presidente Jair Bolsonaro que, na live semanal de quinta-feira (29), acusou-os de cobrar pedágio e atrapalhar a obra de construção da linha de transmissão de energia elétrica de Tucuruí.

Em entrevista por videoconferência à coluna, os indígenas desmentiram a cobrança de pedágio na rodovia BR-174 e que sejam responsáveis por eventuais gastos para o fornecimento de energia elétrica em Boa Vista (RR), ao contrário do que disse Bolsonaro.

"O presidente, com essa fala, nós sentimos que como ele está nos ameaçando. Sem saber o que é o povo Waimiri-Atroari. São ameaças. Estamos no século 21. O presidente da República tem que ter conhecimento de cada etnia. Cada povo é um povo", disse Ewepe Marcelo Atroari.

"Essa fala do presidente da República junto com o presidente da Funai nos deixou tristes. Não é uma notícia muito boa. O presidente fala no vídeo [contra os índios] não é de hoje, a gente sabe. Que nós que 'atrapalhamos'. Não estamos atrapalhando nada. Essa briga é o presidente da República que está colocando o povo roraimense e outros brasileiros contra nós. Essa política tem que ter respeito ao nosso direito. Tem que ouvir a nós", disse a liderança waimiri-atroari.

Na live de quinta-feira, Bolsonaro estava acompanhado do presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio), o delegado de Polícia Federal Marcelo Xavier, que não corrigiu a fala do presidente. Há mais de um ano os waimiris-atroaris tentam no Judiciário, com apoio do Ministério Público Federal, um "direito de resposta" às falas de Bolsonaro a respeito da etnia.

"Olha só a dificuldade. Então nossos irmãozinhos podiam ganhar um dinheiro em cima disso, acabaria com a história do correntão, o pessoal cobra pedágio lá. Às 18 horas ninguém pode passar por lá, é uma confusão danada. Agora todo mundo perde com isso, todo mundo, perde o Brasil, perde os nossos amigos lá de Roraima [...], perde os índios, perde o Brasil, pô", disse Bolsonaro na live.

Bolsonaro disse que "a solução" é "pagar royalties para os índios e vamos atender os problemas de energia de Roraima". "Estamos brigando, o que é brigando, estamos tentando há um tempão... Toda hora chega, vai acontecer e dá um passo atrás, é o linhão de Tucuruí. Levar energia elétrica ali para o Estado de Roraima, né, basicamente Boa Vista, a capital. Porque hoje em dia a gente gasta quase 1 bilhão por ano de energia subsidiada de termoelétrica. E nós queremos esse linhão. Agora, vocês podem reparar, o pessoal ambientalista não reclama da termelétrica consumir parece que 1 milhão de litros."

Ewepe Marcelo Atroari reafirmou que os indígenas não cobram e nunca cobraram pedágio na rodovia BR-174, que liga Manaus (AM) a Boa Vista (RR). Indigenistas que atuam na região confirmam a informação dos índios. Este colunista cruzou de carro a rodovia duas vezes, em 2014 e 2019, e nunca foi parado em nenhum pedágio pelos indígenas.

A terra indígena é cortada pela rodovia em cerca de 120 km. Nas duas extremidades, há correntes que foram instaladas pela primeira vez durante a ditadura militar pelo Exército, encarregado da obra, na década de 70 e não pelos indígenas. Quando o Exército deixou o local nos anos 90, após concluir o asfaltamento, autorizou e apoiou a continuidade das correntes e a interrupção do trânsito de automóveis das 18h00 às 6h00. Contudo, Ewepe também explicou que é mentira dizer que "ninguém passa" no horário noturno.

"Os ônibus, os carros militares e ambulâncias, é tudo autorizado. O Exército elogiou que estamos fazendo um bom trabalho e continuamos a fazer. Ele [general] disse que a culpa era dele, não era nossa culpa", disse Ewepe, em referência a uma visita feita à terra indígena em 2018 pelo atual presidente da Petrobras e então ministro da Defesa do presidente Michel Temer, Joaquim Silva e Luna.

Rodovia BR-174 no início do trecho que atravessa em 120 km a Terra Indígena Waimiri-Atroari, entre Amazonas e Roraima - Rubens Valente - Rubens Valente
Rodovia BR-174 no início do trecho que atravessa em 120 km a Terra Indígena Waimiri-Atroari, entre Amazonas e Roraima
Imagem: Rubens Valente

Na reunião, Luna confirmou que partiu dele a autorização para os indígenas continuarem a usar as correntes na rodovia. Em 1998, com o fim da obra de asfaltamento no trecho que cortava a terra indígena, Luna "repassou" aos índios o mesmo sistema de controle do tráfego de veículos que os militares haviam usado.

A interrupção do trânsito noturno para certos tipos de veículos é necessária, de acordo com as lideranças indígenas, para reduzir o atropelamento dos animais na região - uma das fontes de alimentação dos indígenas -, atropelamento dos próprios indígenas, que hoje são mais de 2 mil no território, e garantir segurança à terra indígena.

"Ele [Bolsonaro] sabe que tipo de pessoa está passando aqui na BR de noite? Como é que vamos saber quem para aqui dentro da nossa terra? Nossa alimentação é carne de caça. Tem uns animais que são nosso espírito. Estão matando muito, atropelando nossos animais. Essa é a nossa preocupação. Será que o presidente da República se preocupa com os animais? Ele quer acabar com esses animais que existem há séculos de anos, desde a criação do mundo? Quem se preocupa somos nós, os povos indígenas", disse Ewepe.

'Que presidente da Funai é esse?'

Os waimiris-atroaris se mostraram contrariados com a posição do presidente da Funai, que não os apoiou durante a live com Bolsonaro quando o presidente falou do suposto pedágio e culpou os índios pelo suposto atraso na obra do linhão. Marcelo Xavier, segundo os índios, já esteve duas vezes em reunião na Terra Indígena Waimiri-Atroari.

"O presidente da Funai sabe muito bem. Ele está lá para defender nossa causa. Não falou nada da nossa causa. Ele conhece, nós já dialogamos com ele aqui nessa mesa, aqui na nossa casa. Que presidente da Funai é esse? O presidente da Funai está para defender a causa dos povos indígenas", disse Ewepe.

A obra do linhão, orçada em mais de R$ 2 bilhões em valores nominais de cerca de dez anos atrás, prevê a construção de 250 torres dentro da terra indígena, além da própria instalação da rede de energia elétrica de alta tensão, que vai provocar desmatamento e inviabilizar o uso da terra ao longo da linha. Há também registros da presença de um grupo de índios isolados dentro da terra indígena, conhecidos como pirititi, que já estão sofrendo pressões com invasões de madeireiros e garimpeiros.

Na live, Xavier minimizou o impacto da obra ao dizer que ela só vai "margear" a rodovia. "Inclusive os indígenas vão se beneficiar dessa obra, com certeza. São todos brasileiros", disse o presidente da Funai.

"Ele [Xavier] se refere que nós vamos nos beneficiar disso [linhão]. Não vamos nos beneficiar nada. O que o linhão vai trazer é só prejuízo, é perda da nossa terra, do nosso patrimônio. Quem vai sofrer são nossos netos, nossos bisnetos. O impacto do linhão é uma preocupação muito grande. Vemos com muita preocupação e muita tristeza. Porque a rodovia BR nunca trouxe benefício, só trouxe prejuízo para o povo Waimiri-Atroari. Aqui tem hidrelétrica Balbina, a mina de Pitinga. Se for instalado o linhão, nós vamos perder mais um pouco. Não vai poder fazer roçado, não vai poder fazer aldeia", disse Ewepe.

Os indígenas disseram que estão seguindo o seu protocolo elaborado para fazer valer a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da qual o Brasil é signatário, que prevê a consulta dos indígenas de qualquer ato do Estado que provoque impacto na etnia. Porém, hoje há muita desconfiança sobre as intenções do governo Bolsonaro. As declarações dele e do presidente da Funai só pioraram o ambiente.

"Essa conversa não está muito boa, não. Vai ser preciso pensar mais e repensar muito bem. Com esse presidente, estamos muito preocupados. Estamos trabalhando na leitura [de documentos sobre a obra], queremos entender mais assim, ter mais conhecimento do nosso protocolo de consulta. Foi feita a tradução, estamos trabalhando na leitura, ainda não acabou. Estamos fazendo reuniões internas nas aldeias. Mais de 60 aldeias têm que se reunir. Para ver se vale a pena. Depois que poderá ocorrer. O governo não fala nada, não, só fica exigindo de nós."

De acordo com o advogado da Associação Comunidade Waimiri-Atroari, Harilson Araújo, "não há nenhum tipo de atraso na obra que pode ser imputado aos Waimiri-Atroari". "Todas as vezes que o empreendedor solicitou, eles se manifestaram. A única coisa que pedem é que os protocolos sejam seguidos, até para conhecer os impactos da obra. Mas nenhum atraso. Nunca fizeram nenhum tipo de obstáculo para que o empreendimento siga seu curso. Não estão criando obstáculo. É sinal de que estão finalizando a leitura. Tudo que é dado e solicitado a eles, eles colaboram."