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Rubens Valente

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Autobiografia de Amoêdo é uma egotrip sonífera

10.abr.2019 - Presidente Jair Bolsonaro durante reunião com Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil; João Amoêdo, presidente do Novo, e o deputado Marcel Van Hattem, líder do Novo na Câmara - Marcos Corrêa/PR
10.abr.2019 - Presidente Jair Bolsonaro durante reunião com Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil; João Amoêdo, presidente do Novo, e o deputado Marcel Van Hattem, líder do Novo na Câmara Imagem: Marcos Corrêa/PR
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

17/10/2021 04h00

Sempre impressiona a autoestima de um cidadão que decide escrever uma autobiografia precoce. João Amoêdo tem 58 anos de idade e nunca exerceu cargo público nem se notabilizou por algum feito científico, esportivo, cultural ou humanitário. Seu grande ato, além de amealhar uma fortuna impressionante no mercado financeiro, foi fundar um dos 29 partidos do país e sair candidato à Presidência. Ficou em quinto lugar. Mas ele considerou que sua vida era tão fascinante, no conjunto das 7,7 bilhões de almas do planeta, que já merecia um livro. Foi o que cometeu.

O recém-lançado "Sem atalho" (Portfolio-Penguin, 212 págs.) tem o pomposo subtítulo de "uma jornada até a política e minhas ideias para o Brasil". Vida é para nós, pobres mortais. No caso de Amoêdo, é uma "jornada".

A primeira certeza desde o começo do livro é a completa ausência de senso crítico do personagem sobre si mesmo, inebriado por uma insossa e vazia autocelebração. Não entende, não descreve nem reflete sobre seus limites, equívocos, contradições e visão de mundo. Certamente é incapaz de enxergá-los.

Não podemos estar diante de um ser humano. Amoêdo desde criança tinha "um espírito empreendedor", sempre foi um "obstinado", gostava do "embate", mas com "racionalidade e serenidade". Aprendeu muito com o avô, que era "disciplinado, corajoso e determinado". A preocupação com custo-benefício "sempre esteve presente" nas suas decisões - sim, ele ainda era uma criança mas já "tomava decisões". Sua mãe era uma "gestora nata", que "certamente reforçou" no menino Amoêdo sua "natureza racional e lógica".

Amoêdo estudou num colégio particular - o Santo Inácio, no Rio - que, segundo ele, era "rígido na disciplina, tinha um ensino forte" que "exigia bastante dos alunos". Claro que nosso herói não se abalava com nada disso, pelo contrário, "eu me sentia muito bem nesse ambiente". Ele confidencia que "era da turma que se sentava no fundo da sala" - que suprema rebeldia! - mas "sempre passei com boas notas, sem recuperação". Ufa, que susto nos deu, Amoedinho.

Nesse ponto o leitor pode ser paralisado por um sono incontrolável. Mas é preciso ir adiante. Não podemos deixar de lado a trepidante jornada do farol que iluminará o caminho deste combalido país.

Perdido no deslumbramento fabricado, Amoêdo não se dá conta das piadas involuntárias que solta ao longo do livro. "Como sempre, eu já tinha um plano: me formar e trabalhar na empresa de construção civil da família em Natal." Uau, que desafio.

Na página 138, declara que "somos contra o personalismo e a cultura do salvador da pátria". Nada mal para quem se lançou à Presidência pelo partido que financiou e fundou - além de ter escrito agora uma autobiografia.

Ele também comunica ao leitor: "Sempre gostei de desafios, superação, planejamento, competição, metas, disciplina e busca de aprimoramento. Encontrei tudo isso no esporte". No esporte, e não na política. O leitor há de se perguntar: por que raios se candidatou a presidente da República e não a presidente da CBF?

'Você vai poder fazer triatlo em vários lugares do mundo'

A partir daqui somos inteirados sobre a longa trajetória esportiva amadora de Amoêdo. Sim, o homem que pretende refundar a política do Brasil na verdade passou boa parte da sua vida viajando não para conhecer, compreender ou pesquisar o país, mas para participar de maratonas e provas esportivas. Nesse quesito lembra Jair Bolsonaro, que no Exército se destacou pela prática dos esportes e era chamado de "Cavalão" porque sabia correr.

Quando jovem, Amoêdo praticou windsurfe na Barra da Tijuca e na Praia do Pepê. Ao entrar na faculdade, correu "quase diariamente" no calçadão da praia, na Lagoa Rodrigo de Freitas, na Vista Chinesa ou nas Paineiras. Disputou sua primeira maratona aos 18 anos de idade. Aos 20, interessou-se pelo triatlo, que compreende natação, ciclismo e corrida. Pedalava de manhã e, no intervalo das aulas da universidade, nadava na piscina do campus.

Aos 21 disputou sua primeira competição, o Triathlon Golden Cup. Na época conheceu a prova do Ironman, que envolvia 3.800 metros de natação, 180 km de ciclismo e uma maratona de 42 km. Haja desafio para Amoêdo. Em 1996, já com 33 anos, viajou ao Havaí para assistir a uma prova do Ironman e começou a elaborar o projeto de disputar o evento.

A essa altura do livro, o leitor pode se perguntar se Amoêdo desejou conhecer, nos seus anos de formação, a Amazônia, o Nordeste, o cerrado, as favelas do Rio, a periferia de São Paulo, mas não, inexiste qualquer indicativo nesse sentido. Os grandes problemas brasileiros que esperem, Amoêdo está vivendo sua vida esportiva e dispendiosa de um privilegiado do Rio de Janeiro.

Mesmo no mercado financeiro Amoêdo tinha sua imagem associada aos esportes. Tanto que o então presidente do Itaú, Roberto Setúbal, lhe disse após fechar um negócio em 2002 (pág. 91): "João, agora você vai poder fazer triatlo em vários lugares do mundo".

Durante um ano, Amoêdo se preparou para disputar o Ironman em Roth, na Alemanha, sonho que realizou em 1998. Depois correu "inúmeras maratonas". Citou duas, em Chicago (EUA) e Florença (Itália). E mais duas vezes na Alemanha, em 1999 e 2000. Inúmeras em Florianópolis (SC). Em 2006, após vender sua participação numa empresa, Amoêdo tirou um "ano sabático", isto é, livre de compromissos.

Será que finalmente o futuro presidenciável iria conhecer o interior deste país que ele tanto jura amar? Nada disso, ele resolveu se mudar com a família para San Diego, na Califórnia, onde viveu um ano. A Amazônia que espere.

Aos 45 anos de idade, "tudo começou"

Amoêdo declarou, nas eleições de 2018, um patrimônio pessoal de R$ 425 milhões, um colosso para os padrões brasileiros e mundiais. Mais da metade em espécie, em investimentos financeiros. Ocupa, assim, o topo do topo do topo da pirâmide social brasileira.

Embora sempre possa dizer que construiu sua fortuna por méritos pessoais, fica evidente que Amoêdo cresceu numa família rica, sendo um produto direto dessa condição. Seu avô "construía casas", seu bisavô fora desembargador do Tribunal de Justiça, seu tio era empresário da construção civil em Natal (RN), seu pai construiu e era dono de uma clínica no Rio de Janeiro.

Claro que não se trata de "condenar" Amoêdo pelo que chama de seu "sucesso profissional" - ele reclama, no livro, do interesse que a imprensa tem a respeito da sua fortuna -, mas observar seu patrimônio é lembrar que o político é fruto e protagonista de um determinado estrato social.

Depois de desistir de dois estágios, seu primeiro convite para um trabalho de verdade partiu dos seus tios de Natal, que "estavam construindo um hotel na Via Costeira". É uma região de grande valor turístico que abriga hotéis de quatro e cinco estrelas na capital do Rio Grande do Norte. Como cursava o último ano de engenharia na PUC do Rio, Amoêdo assumiu, diz ele, "o cálculo estrutural de todo o empreendimento". "Eu era o chefe e único funcionário do meu primeiro negócio", congratula-se Amoêdo.

Ele também se valeu de suas ótimas conexões e amizades. Eis que de repente nosso personagem recebe um convite de um amigo de corridas, ninguém menos que "um executivo do Citibank". Ele indagou se Amoêdo não queria trabalhar no banco. E assim se candidatou, disputou as etapas de aprovação e foi sabatinado por vários executivos.

Antes que o resultado da seleção saísse, Amoêdo resolveu fazer uma viagem de "mochilão" por 20 dias na Europa - ninguém é de ferro. Nosso herói conta orgulhoso que precisou, devidamente orientado por um livro que sua mãe lhe deu de presente, se virar com US$ 20 por dia. Dormiu em hostels, que coisa. Admite, porém, que "a viagem foi excelente". Ele gasta uma página contando essa suposta aventura - obviamente um nada estrondoso e absoluto. Mas que grande provação para nosso Frodo!

Na viagem, recebeu a notícia de que fora um dos 53 trainees selecionados no país inteiro. Depois do Citibank, trabalharia em altos cargos no BBA Creditanstalt, onde seu trabalho era basicamente fazer render o dinheiro de grandes clientes, e na Fináustria.

O que mais impressiona nessas histórias de Amoêdo é sua incapacidade de perceber a que grupo social pertencia e pertence e de que forma é expressão dele. Não consegue inserir sua história no contexto social brasileiro.

Mas um certo dia ele enfim resolve se interessar pela política. Estamos em 2007, Amoêdo tem quase 45 anos de idade. Sua completa alienação política até aqui pode se explicar pelos muitos anos ganhando dinheiro nos bancos e praticando esportes mundo afora. Mas isso é uma conclusão do leitor, já que o autobiografado nem raspa a superfície do tema.

E qual teria sido o estalo do prodígio carioca? Teria conversado com representantes de moradores das centenas de favelas do Rio, teria ouvido os movimentos estudantil, negro ou indígena, teria dialogado com professores ou servidores públicos, com partidos, sindicatos, organizações de bairros, teria participado de estudos e debates sobre, por exemplo, a desigualdade social ou o racismo estrutural?

Nada disso. "Tudo começou", diz ele, quando viu uma reportagem na televisão. Ficou comovido com a história de uma garota que vendia doces no semáforo a fim de sustentar sua família enquanto treinava basquete. Amoêdo ajudou a garota mas decidiu, após pensar muito, diz ele, que o caminho era fundar um novo partido.

Empresa coletora de filiados

Quatro anos depois, em 2011, Amoêdo precisava reunir 500 mil assinaturas da cota mínima necessária para o registro do Novo no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), mas enfrentava muita dificuldade. Após reconhecer que "não tínhamos uma base de eleitores", Amoêdo culpa "os obstáculos e a aversão das pessoas aos partidos políticos". Logo Amoêdo, que nunca se filiara a partido político até então e gastava tempo livre disputando o Ironman na Alemanha.

O futuro presidente do Novo busca uma solução. Ele decide, vejam só, contratar duas empresas "de marketing e divulgação" que iriam coletar as assinaturas dos futuros filiados. Só para uma delas pagou R$ 850 mil. Já havia desembolsado R$ 150 mil.

Mas a jornada de Amoêdo não era "sem atalho"? Se cada milionário neófito em Brasil e política decidir montar sua própria legenda por esse caminho, qual base social efetiva representará, em nome de quem falará, que políticas públicas defenderá? A resposta é simples, será um partido de cúpula construído de cima para baixo, pela força do dinheiro e de quem o controla.

É de novo sintomático que Amoêdo não elabore essa contradição. Pelo contrário, piora tudo ao informar que o processo de coleta de assinaturas feito pelas empresas "era um processo sobre o qual não tínhamos nenhum controle". Incrível.

Em vários trechos do livro, Amoêdo critica "os políticos" brasileiros. Como se a história da criação do seu partido não fosse, ela própria, no mínimo questionável. Tanto que a tal empresa contratada ficou sob suspeita de irregularidades na coleta das assinaturas, o que levou Amoêdo a "inúmeras vezes" prestar depoimentos na Polícia Federal, segundo ele. Teria sido uma mera "vítima", explicou.

10.abr.2019 - João Amoêdo durante entrevista - Luciana Amaral/UOL - Luciana Amaral/UOL
10.abr.2019 - João Amoêdo durante entrevista
Imagem: Luciana Amaral/UOL

Amoêdo separa um trecho curto do livro para falar da imprensa. Devemos creditar à sua profunda ignorância sobre a natureza e o papel do jornalismo numa sociedade democrática - ignorância que está longe de ficar restrita a Amoêdo e seu campo político da direita - as reclamações genéricas que faz a jornalistas que "tinham um viés mais explícito". Nesse "grupo", diz Amoêdo, "fatos sobre o partido que poderiam causar polêmica eram excessivamente expostos, muito mais do que o necessário para manter o público informado".

Na cabeça obtusa do presidente do Novo, o próprio partido é que determina o que o público deve ou não saber, ele que indicará "o limite necessário" da informação. Por outro lado, elogiou o programa da TV Bandeirantes "Band Eleições". Segundo ele, sua entrevista ocorreu "de forma tranquila e bastante propositiva".

Amoêdo sugere que o papel da imprensa é fazer entrevistas sem sobressaltos, um bate-papo, uma conversa agradável, um "talk show". Como se ele não fosse candidato a gerir um país incrivelmente problemático com mais de 200 milhões de habitantes e não tivesse que ser testado em público, inclusive sobre seu temperamento quando submetido à pressão.

Nesse ponto, Amoêdo ainda distribui uma pequena fake news ao dizer que a divulgação do seu vasto patrimônio era "uma demonstração de transparência" de sua parte. Só que não foi Amoêdo quem divulgou seu patrimônio, foi o TSE, em seu site na internet. Como faz, aliás, com o patrimônio de todos os candidatos, todos os anos, há muitos anos.

O livro termina com "as ideias" de Amoêdo para o Brasil. São 12 páginas, cerca de 5% do livro. O pequeno espaço até que foi uma boa decisão. As ideias não passam de um desfile de platitudes e lugares-comuns. Diagnósticos precários e parciais não são acompanhados de soluções específicas. O meio ambiente, por exemplo, deve ser "preservado" - como, onde e quando parece que não vem ao caso.

O governo de Jair Bolsonaro - candidato que, aliás, Amoêdo apoiou no segundo turno, para seu suposto arrependimento - já demonstrou o estrago que um despreparado, um paraquedista em gestão da máquina pública, cavalgando um partido nanico e sem tradição, à frente de uma campanha personalista, é capaz de promover no Brasil. Nesse sentido o livro de Amoêdo funciona como advertência.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL