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Ernesto Geisel usou a indústria do cinema para baixar taxas do aço nos EUA

Jack Valenti na famosa foto da posse de Lyndon Jhonson a bordo do Air Force One - reprodução
Jack Valenti na famosa foto da posse de Lyndon Jhonson a bordo do Air Force One Imagem: reprodução
Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

03/12/2019 09h59

Essa história quem conta é Francisco Dornelles, ex-ministro da Fazenda e ex-governador do Rio de Janeiro, que em janeiro fará 85 anos.

Com curso de tributação em Harvard, Dornelles assumiu como procurador da Fazenda Nacional nos anos 70, tornando-se amigo do então ministro Mario Henrique Simonsen.

Um dia, despachando com Simonsen, o ministro lhe disse que estava com problemas por causa da ameaça dos EUA de sobretaxar em 35% a importação de aço do Brasil.

Digamos uma dor de cabeça em tudo semelhante à que tem agora o ministro Paulo Guedes com a ameaça do presidente dos EUA, Donald Trump, de sobretaxar a importação de aço do Brasil.

Naqueles idos dos anos 70, Dornelles aconselhou o seu chefe:

"Se o senhor me permite, ministro, eu aviso ao Harry Stone que vamos taxar igualmente a comercialização de filmes americanos aqui. Tenho certeza de que a indústria cinematográfica pressionará a Casa Branca".

Harry Stone era uma espécie de embaixador de Hollywood, famoso lobista chefe da Motion Picture Association (MPA) para a América Latina.

Dornelles conta que ligou para Stone, seu velho conhecido, e comunicou o aumento de 35% sobre produtos cinematográficos dos EUA no Brasil.

O representante da Motion Pictures perguntou qual o motivo. E o então burocrata da Fazenda respondeu: "Ordem do ministro, já que seu país está sobretaxando o aço brasileiro."

Stone protestou o quanto pode, mas Dornelles disse que nada podia fazer.

Pois bem. Conta o velho político que, passada uma semana, o ministro Simonsen lhe chamou esfuziante ao gabinete: "Dornelles, estive agora com o presidente Geisel e você não sabe o que aconteceu."

"O que houve?", perguntou. E ouviu o seguinte relato:

"Ele disse que recebeu um telefonema do Gerald Ford. Pois é, o presidente dos EUA falou que estava ao lado de Jack Valenti e queria comunicar que não haveria mais a sobretaxa do aço brasileiro. Mas que gostaria que também não houvesse aumento das tarifas sobre o cinema aqui no Brasil. Você é um gênio, Dornelles!"

Bem, não foi por conta disso, mas Dornelles acabou virando Secretário da Receita Federal.

Jack Valenti dirigiu a poderosa MPA durante 38 anos. Frequentava a Casa Branca com livre acesso, desde o governo Lyndon Johnson até 2004, quando deixou o posto.

Já Dornelles costuma contar o episódio para demonstrar a força da indústria cultural na economia dos EUA. O que a torna politicamente mais forte até que a indústria do aço.

E como sempre há formas de se negociar com altivez.