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Ligando pontos: intervenção na PF do RJ, ação contra Witzel, Carla Zambelli

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

26/05/2020 11h05

Odeio teorias conspiratórias! Também não creio em bruxas. Mas tem horas que a gente acaba se rendendo às coincidências.

Vem o presidente Jair Bolsonaro, logo pela manhã, elogiar a ação desta manhã da Polícia Federal no Rio de Janeiro, de busca e apreensão contra o governador Wilson Witzel, seu adversário figadal.

Um dia antes, a deputada Carla Zambelli -aquela que se ofereceu ao então ministro Sergio Moro para garantir junto a Bolsonaro uma vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal se ele desistisse de pedir demissão- deu uma entrevista à Rádio Gaúcha. Dizendo o quê? Informando que logo, logo aparecerão ações da PF contra governadores.

Zambelli deu até nome às ações: Covidão. Seriam relativas a supostas fraudes na compra de materiais para combate à Covid-19. Justamente o assunto envolvendo a operação contra Witzel.

E quanto à PF do Rio de Janeiro?

É aquela pela qual Moro decidiu deixar o governo. Acusou o presidente de querer intervir no órgão. O ex-juiz citou a tal reunião ministerial do dia 22. Foi quando Bolsonaro disse não aceitar que atingissem seus filhos e amigos e que, se fosse preciso, mudava o pessoal de ponta, seu chefe, o chefe do chefe e o ministro.

"Vou intervir sim", disse o presidente. E ponto final.

Pois bem, o ministro da Justiça foi mudado. O diretor-geral da Polícia Federal e o superintendente no Rio de Janeiro, também. E os novos chefes logo trataram de mexer na ponta.

Aparece, então, essa operação, com o presidente vindo a público dar os parabéns à corporação local, recentemente alterada por ele.

Bem, como dizem na Espanha: no créo en brujas, pero que las hay, las hay

Pelo sim, pelo não, o líder do PSB na Câmara, Alessandro Molon (RJ), que faz oposição a Witzel, já mandou avisar: vai pedir que o Ministério Público Federal "investigue se houve abuso de poder ou uso político por parte da Polícia Federal na operação que apura desvios de recursos públicos para o enfrentamento à COVID-19 no Estado do Rio de Janeiro".

Afinal, há coincidências demais nessa história.