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Tales Faria

Trump é bolsonarista; e há risco de um 'efeito Jack Daniel's'

Ao lado de Donald Trump, Jair Bolsonaro segura camisa da seleção dos EUA com o nome dele - Isac Nóbrega/PR
Ao lado de Donald Trump, Jair Bolsonaro segura camisa da seleção dos EUA com o nome dele Imagem: Isac Nóbrega/PR
Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

06/01/2021 19h19

"Dizem que Bolsonaro é o Donald Trump da América do Sul" declarou, em janeiro de 2019, o hoje derrotado presidente dos EUA durante um discurso em evento da Federação Agropecuária daquele país.

Bolsonaro acabara de ser eleito prometendo forjar uma aliança conservadora entre o Brasil e os Estados Unidos. Do ponto de vista econômico a aliança não surtiu tantos efeitos.

Do ponto de vista político, o risco é que edite o mesmo tipo de coincidências de acontecimentos que, no passado, víamos entre o Brasil e a Argentina.

Com base na peça publicitária de uma conhecida marca de vodka —cujo bordão tratava de ressacas e dizia "eu sou você amanhã"— apelidou-se essa estranha coincidência de fatos políticos com os nossos vizinhos portenhos de "Efeito Orloff". O que acontecia lá, logo se repetia aqui.

Bolsonaro e Trump nos trazem agora o temor de que as semelhanças entre o presidente dos Estados Unidos e o brasileiro criem entre os dois países a mesma repetição de fatos ruins que antes comungávamos com a velha Argentina (e não a atual).

Uma espécie de "efeito Jack Daniel's", uma vez que Trump sempre negou predileção por vodka ou pela Rússia —e apesar de todas as suspeitas de que o governo Putin tenha trabalhado fake news a seu favor nas eleições que venceu contra a democrata Hilary Clinton há quatro anos.

Bolsonaro sempre imitou Trump. E não é pouco provável que, se perder em 2022, tente imitar o presidente dos EUA nesse estilo irado de despedida, recusando-se a aceitar o resultado das urnas e convocando seus apoiadores à baderna.

Estranhamente, Bolsonaro insiste no argumento de que as urnas eletrônicas do Brasil seriam muito sujeitas a fraudes. E defende a adoção do voto impresso como quem se prepara para algo.

Assim como Trump pediu recontagens sucessivas de votos em vários estados de seu país, se tivermos voto impresso, os bolsonaristas já estão propensos a pedir, em 2022, a recontagem dos papeizinhos em todos os lugares que puderem, caso seu mito seja derrotado.

O resultado oficial das eleições, nesse caso, será protelado por semanas a fio, alimentando tantas teorias conspiratórias quanto as levantadas pelos trumpistas norte-americanos.

Com uma diferença. Agora que Trump foi derrotado, e depois do triste espetáculo que promoveu em seu país, imitando uma república de bananas, podemos dizer que Bolsonaro não é mais o Trump da América do Sul.

Trump é que se tornou um mero bolsonarista.