PUBLICIDADE
Topo

Tales Faria

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro na cúpula do clima usa estratégia da pandemia: culpar os outros

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

22/04/2021 14h25

Era o Bolsonaro mesmo quem estava falando na reunião virtual da cúpula do clima ou um clone não negacionista? O Bolsonaro do vídeo para os demais líderes mundiais pareceu ter parado de acreditar que o efeito estufa é uma mentira inventada por cientistas marxistas. Será que ele mudou mesmo?

Não creia. Bolsonaro adotou, na fala sobre clima para os líderes mundiais, a mesma estratégia que tem usado aqui no Brasil, na crise da pandemia do coronavírus: jogou a responsabilidade nas costas dos outros.

Resolveu prometer tudo que a comunidade internacional queria. Mas quem terá que cumprir são os seus sucessores: em 2050 o Brasil chegaria à neutralidade climática; acabaria com o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030; e até lá, 2030, reduziria em 40% nossas emissões de gases do efeito estufa.

Ou seja, 2030, 2050 e por aí a fora...

Será que ele pensa em ficar no cargo até lá?

Acho que não chega a pensar assim. Na verdade, Bolsonaro jogou a responsabilidade pelo cumprimento das metas sobre seus sucessores. Assim como, na pandemia, joga a responsabilidade sobre o Supremo Tribunal Federal e os governadores e prefeitos.

Na mesma linha, disse que o país está aberto a receber contribuições financeiras.

Seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, concedeu uma entrevista coletiva de imprensa no Palácio do Planalto, logo após a aparição do chefe. Era para detalhar.

Não o fez muito. Mas, perguntado sobre como Bolsonaro começará a cumprir essas promessas já no seu governo, Salles respondeu que, basicamente, conta com a entrada de contribuições de governos e empresas estrangeiras que nos ajudariam com "recursos vultosos".

Chegariam como? Por duas vias: mercado de crédito de carbono, regulado pelo artigo 6º do Acordo de Paris, e contribuições voluntárias previstas no artigo 5º desse acordo.

Bem, o artigo 6º depende da regulamentação pela COP-26, a Conferência das Partes do Acordo de Paris, que deverá ocorrer no final do ano, em novembro. Ou seja, não entra nada via mercado de crédito de carbono neste ano.

O artigo 5º é o que trata das contribuições voluntárias. Ricardo Salles diz que temos direito de receber US$ 133 bilhões em contribuições voluntárias por já termos acumulado - diga-se de passagem, durante os governos petistas - 7,8 bilhões em créditos de carbono.

É assunto que também depende do entendimento entre "as Partes", possivelmente na COP-26 do final do ano.

O ministro também afirma esperar uma boa grana dos Estados Unidos e lembra que o presidente Joe Biden se dispôs a contribuir com US$ 20 bilhões para combater o desmatamento na Amazônia. Não disse que o presidente norte-americano falou que ajuda, desde que o Brasil dê demonstrações concretas de que está fazendo alguma coisa efetiva.

No final das contas, é o seguinte: se nada entrar pelo mercado de crédito de carbono ou pelas contribuições voluntárias, Bolsonaro poderá dizer: "Nada fiz porque não tivemos ajuda nenhuma."

A responsabilidade é dos outros, talquei?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL