Thais Bilenky

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Inteligência paralela falhou em achar endereço de Moraes que está no Google

O chamado "núcleo de inteligência paralela" montado no governo Bolsonaro, segundo investigações, para monitorar os passos do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), falhou em obter a localização de sua residência, embora manifestantes tenham feito, no endereço, protestos amplamente noticiados pela imprensa e divulgados nas redes sociais.

A Polícia Federal registrou uma troca de mensagens entre o tenente-coronel Mauro Cid e o coronel da reserva Marcelo Câmara, ambos assessores diretos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em que tratam da vigilância de Moraes, apelidado por eles de "professora".

No dia 15 de dezembro de 2022, Câmara mandou uma mensagem a Cid dizendo "trabalhando". O interlocutor respondeu: " Algo?". Câmara escreveu: "Viajou para São Paulo hoje (15/12), retorna na manhã de segunda-feira e viaja novamente pra SP no mesmo dia. Por enquanto só retorna a Brasília pra posse do ladrão. Qualquer mudança que saiba lhe informo".

Nos dias 21 e 24 de dezembro, Mauro Cid volta a questionar Marcelo Câmara. "Por onde anda a professora?", pergunta. Câmara disse que estava em São Paulo e complementa: "Volta no dia 31 à noite para posse". Cid quer saber se a pessoa estava "na capital ou no interior?". E Câmara respondeu: "Na residência em SP — eu não sei onde fica".

Uma pesquisa rápida nos buscadores da internet resolveria a dúvida dos militares. O endereço residencial de Moraes já foi informado em diversas reportagens que vão do valor do imóvel à sua rotina de frequentar o clube em frente ao apartamento. Não bastasse isso, protestos bolsonaristas contra Moraes no endereço levaram inclusive à condenação de manifestantes na Justiça por perturbarem o sossego alheio.

Além de Cid e Câmara, o "núcleo de inteligência paralelo" identificado pela PF era composto pelo general da reserva Augusto Heleno, ex-ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) do governo Bolsonaro. Na megaoperação desta quinta-feira (8), Câmara foi preso, e Heleno, alvo de buscas e apreensões.

Para os investigadores, "Câmara era o responsável por um núcleo de inteligência não oficial do presidente da República, atuando na coleta de informações sensíveis e estratégicas para a tomada de decisão de Bolsonaro" na consumação do golpe de Estado.

Os investigadores constataram que "professora" era uma referência a Moraes, uma vez que os deslocamentos entre Brasília e São Paulo do ministro coincidiram com os da pessoa monitorada. Além de ministro do Supremo e presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Moraes dá aulas de direito na USP.

"Considerando que a minuta do decreto que declarava o golpe de Estado previa a prisão do ministro Alexandre de Moraes, o acompanhamento e monitoramento da autoridade —inclusive durante o Natal (24/12/2022)— demonstra que o grupo criminoso tinha intenções reais de consumar a subversão do regime democrático, procedendo a eventual captura e detenção do Chefe do Poder Judiciário Eleitoral", afirmou a PF.

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O fato de ser personagem dos inquéritos que ele próprio relata não é novidade para Moraes.

Desde pelo menos agosto de 2022, Moraes trabalhava com a hipótese de ser preso se houvesse um golpe de Estado. Numa audiência fechada com integrantes da organização Pacto pela Democracia, o ministro tratou dessa possibilidade, conforme noticiei no podcast Alexandre.

"O ministro nos disse que, em geral, em ditaduras e autocracias, o sistema judiciário funciona normalmente. Prende-se uma ou duas pessoas e deixa-se a máquina funcionando nas suas burocracias habituais", relatou Pedro Kelson, membro da comitiva. "Por exemplo, no Brasil, se houvesse um golpe de Estado, provavelmente eu [Moraes] estaria entre essas uma ou duas pessoas", completou.

Mesmo com algumas fragilidades, os investigadores consideraram que as ações de vigilância e monitoramento ocorreram "em níveis avançados, o que pode significar a utilização de equipamentos tecnológicos fora do alcance legal das autoridades de controle", dada a precisão dos dados coletados.

A prisão de Câmara foi autorizada também porque "não há garantias de que o monitoramento ao ministro Alexandre de Moraes tenha realmente cessado, não se descartando a possibilidade, inclusive, de outras autoridades do Poder Judiciário estarem sendo monitoradas, o que põe em risco a garantia da ordem pública e a segurança das autoridades".

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Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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