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Thaís Oyama

Terá Bolsonaro enlouquecido?

Presidente Jair Bolsonaro  -  Alan Santos / Planalto
Presidente Jair Bolsonaro Imagem: Alan Santos / Planalto
Thaís Oyama Thais Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Thais Oyama

Colunista do UOL

18/03/2020 04h00

O presidente Bolsonaro anda dizendo por aí que o surto de coronavírus é fruto de um plano da China para faturar em cima da desgraça planetária, como revelou Tales Faria, colunista do UOL. O plano maquiavélico consistiria em espalhar o vírus pelo mundo a fim de derrubar os preços do petróleo e das commodities, comprar ações na baixa e assim lucrar trilhões de dólares.

Terá Bolsonaro enlouquecido?

A resposta é: se enlouqueceu, não é de hoje.

Quando era deputado, o presidente costumava examinar o chassi do carro que deixava estacionado na rua para ver se alguém havia plantado lá uma bomba. Certa vez, impediu a colega - e médica— Jandira Feghali (PC do B) de socorrer seu filho Flávio Bolsonaro durante um mal-estar, por achar que ela poderia aproveitar a ocasião para envenená-lo. Bolsonaro também já desconfiou que o vice-presidente Hamilton Mourão grampeava suas conversas no Palácio da Alvorada e que o falecido Gustavo Bebianno, seu ex-ministro e aliado de primeira hora, havia sido o mentor intelectual da facada desferida contra ele por Adélio Bispo de Oliveira.

A desconfiança extrema é um dos traços mais definidores do presidente.

Ela faz com que Bolsonaro desconfie das pessoas mais próximas, durma com um olho aberto e outro fechado e caia docemente em qualquer teoria conspiratória que encontre eco em crenças que ele acalenta. No caso da China, a crença é antiga e notória: trata-se de um país que "não tem coração", como ele dizia durante a campanha para a Presidência. Na época, prometia restringir os investimentos chineses no país. "Eles não querem comprar do Brasil. Querem comprar o Brasil", afirmava. O ex-presidente Michel Temer, ainda na fase da transição, foi o primeiro a alertar o presidente eleito sobre a inconveniência de confrontar o principal parceiro comercial do país, que no ano passado despejou por aqui 52 bilhões de dólares só em comprinhas básicas.

Bolsonaro vê inimigos por toda parte e se nutre deles. Sem esses espectros, o ex-capitão murcha como um balão sem gás. Bolsonaro precisa de antagonistas para viver. Eles justificam sua existência — e também seus arroubos e seus fracassos. Agora, o presidente elegeu um novo oponente. Ele mede 100 nanômetros, foi criado por gente sem coração e será implacavelmente derrotado. Basta não ligar pra ele. Para que encher a bola do adversário?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.