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Thaís Oyama


Bolsonaro não acabou

Haitiano diz ao presidente Jair Bolsonaro que seu governo "acabou" - Reprodução/Twitter
Haitiano diz ao presidente Jair Bolsonaro que seu governo "acabou" Imagem: Reprodução/Twitter
Thaís Oyama Thais Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Thais Oyama

Colunista do UOL

27/03/2020 04h00

O vídeo viralizou nas redes sociais.

O presidente Bolsonaro sai do Alvorada e se aproxima do cercadinho onde o aguardam apoiadores que gritam "mito!". Um imigrante haitiano se dirige ao ex-capitão e desafina o coro: "Bolsonaro, acabou. Você está recebendo mensagens no seu celular, todo mundo está recebendo mensagens no celular. Você não é presidente mais".

Isso aconteceu há dez dias. Depois disso, o presidente chamou o Covid-19 de "gripezinha", apanhou por ter comparecido às manifestações do dia 15 quando ainda estava sob recomendação de isolamento e foi criticado por se negar a mostrar seus exames de coronavírus. No dia 23, o Datafolha mostrou que apenas 35% dos brasileiros aprovavam a forma como ele lidava com a crise do coronavírus. Nas ruas, tiveram início os panelaços. Nas redes sociais, os opositores do presidente falaram mais alto que seus apoiadores pela primeira vez. Bolsonaro começava a derreter.

Até que veio o pronunciamento na TV.

A maior parte dos analistas considerou a fala do ex-capitão rústica e desastrosa, além de irresponsável do ponto de vista sanitário. Bolsonaro acusou os que defendiam o isolamento como forma de combater a disseminação do coronavírus de tramar a ruína da economia e, ao pregar a imediata "volta à normalidade", contrariou as orientações da Organização Mundial da Saúde e de seu próprio ministro. As críticas vieram de todos os lados. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, divulgou nota dizendo que o país precisava "de uma liderança séria".

Ocorre que o discurso de Bolsonaro, ruinoso sob tantos pontos de vista, teve para ele o efeito de:

  1. Reorganizar sua base nas redes. Depois do pronunciamento, o grupo bolsonarista retomou as rédeas da internet e voltou a ser o mais barulhento no Twitter, Facebook, Instagram e Youtube.
    Na noite seguinte ao discurso, o termo "Bolsonaro tem razão" ficou por oito horas em primeiro lugar nos "trending topics" do Twitter e o presidente ganhou 162 mil novos seguidores em um único dia, segundo levantamento da agência Bites. Até então, seu recorde de adesão havia sido de 78 752 seguidores, conquistados quando ele chamou a TV Globo de "canalha" por ter exibido reportagem revelando que um porteiro do seu condomínio havia dito em depoimento que um dos suspeitos de matar a vereadora Marielle tinha entrado no local após ter sido autorizado pelo "seu Jair" -declaração que se provou falsa.
  2. Atestar que não há ainda um líder de oposição para fazer frente ao ex-capitão. O governador de São Paulo, João Dória, visto pelo presidente como um de seus principais adversários em 2022, não é encarado dessa forma nas redes sociais. Nem a estrondosa visibilidade que João Dória conquistou com suas longas e diárias entrevistas coletivas sobre a pandemia do coronavírus, nem o calculadíssimo embate que ele teve com Bolsonaro na reunião dos governadores deu ao tucano significativos dividendos digitais até agora. Desde 20 de março, Doria adicionou apenas 55.187 aliados aos seus perfis, o que o coloca na quarta posição no ranking dos governadores. Entre eles, quem mais ganhou seguidores neste período foi Helder Barbalho, do Pará, seguido por Flávio Dino, do Maranhão, e Camilo Santana, do Ceará. O máximo que o governador de São Paulo conseguiu com a exposição dos últimos dias foi reverter a tendência de perda de seguidores que o acompanhava desde o início do seu mandato.

No Palácio do Planalto, a expectativa dos principais assessores do presidente é de que a sua força nas redes vá crescer ainda mais nesta próxima semana. A crença se baseia na perspectiva de que, em breve, a pandemia deixará de ser uma "novidade" e que o medo de contágio dará lugar à angústia causada pelo declínio da atividade econômica. Neste momento, creem assessores, o ônus do fechamento das lojas e da suspensão das aulas ficará com os governadores e prefeitos que optaram por seguir as determinações das autoridades sanitárias. E a hashtag "Bolsonaro bem que avisou" será uma séria candidata aos trending topics do Twitter.

Não, ao menos nas redes sociais, não acabou ainda.

Thaís Oyama