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Thaís Oyama


A cloroquina é uma esperança. E não é de direita nem de esquerda

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

05/04/2020 20h48

O dono de uma empresa farmacêutica que produz um medicamento composto por hidroxicloroquina é um simpatizante do bolsonarismo, diz uma reportagem que circulou pelas redes sociais neste domingo.

O industrial, informa o texto, além de ser um apoiador do presidente Jair Bolsonaro, já "criticou o PT em suas redes sociais abertas".

Céus.

Mas o que isso quer dizer?

Não quer dizer nada — além do fato de que a hidroxicloroquina é a mais nova vítima do embate ideológico que domina as discussões no Brasil, e que inclui das queimadas na Amazônia ao aquecimento global.

A hidroxicloroquina, um análogo menos tóxico da cloroquina, é um poderoso anti-inflamatório há tempos disponível nas prateleiras das farmácias para tratamento de lúpus e malária, entre outros males. No dia 31 de março, ela teve o uso emergencial aprovado pelo FDA americano para pacientes de coronavírus. No Brasil, o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, anunciou na última sexta-feira, dia 3, que a hidroxicloroquina passaria a ser ministrada também para doentes de Covid-19 em estado grave. Até então, ela era usada apenas em pacientes em estado crítico (um estágio pior que o "grave"). Isso na rede pública, porque em hospitais da Prevent Senior e no Albert Einstein, em São Paulo, o medicamento já era usado desde o início de março —de forma discreta e mediante a autorização por escrito de familiares dos pacientes.

E por que a cloroquina e a hidroxicloroquina vinham sendo ministradas se não existem estudos conclusivos sobre a sua eficácia?

Porque os hospitais estão em esforços de guerra para salvar vidas e esses medicamentos, mesmo sem atestado oficial de eficácia, vêm colaborando para isso.

Há poucos estudos sobre o uso e os efeitos colaterais da hidroxicloroquina em pacientes da Covid-19. Sabe-se que, para pacientes com problemas cardíacos — ou que façam uso de medicamentos que alteram o ritmo dos batimentos, como antidepressivos— o uso do remédio pode trazer complicações fatais. Seu uso crônico (atenção, "crônico") também pode causar lesões na retina ocular e eventualmente levar à perda da visão.

A prática, porém, vem mostrando que os resultados compensam os riscos. Médicos de São Paulo que varam noites em UTIs abarrotadas de pacientes com os pulmões tomados pela infecção relatam o alívio que sentem ao ver seus doentes respirando melhor depois de receber a hidroxicloroquina. Uma pesquisa divulgada na quinta-feira, feita em trinta países com seis mil médicos e conduzida pelo Sermo, instituto de pesquisa especializado em saúde, mostrou que a hidroxicloroquina é, para 37% dos entrevistados que trataram de doentes da Covid-19, o "mais eficaz tratamento" em uma lista de quinze opções - o antibiótico azitromicina ficou em segundo lugar.

A hidroxicloroquina virou um Fla X Flu ideológico entre partidários da esquerda e da direita graças a Donald Trump. No dia 19 de março, o presidente dos Estados Unidos defendeu o uso do medicamento contra o coronavírus no Twitter. Até aquele instante, a única pesquisa relevante sobre o fármaco era o hoje famoso estudo francês feito com apenas vinte doentes da Covid-19 (quatorze deles receberam só hidroxicloroquina e metade teve melhoras significativas; já quando se adicionou ao medicamento o antibiótico azitromicina, a melhora foi sentida por todos os outros seis voluntários testados).

Foi a partir do tuíte de Trump que a hidroxicloroquina deixou o ostracismo para estrear no front ideológico. No campo da direita e da esquerda, o hábito do alinhamento automático -que dispensa o penoso trabalho de pensar com a própria cabeça - fez com que os partidários do primeiro time aprovassem sem restrições o uso do medicamento no combate à Covid-19 e os do segundo decretassem que ele não podia ser boa coisa (afinal, Trump era a favor).

Para consolidar as posições no ringue, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro divulgou um vídeo no dia 21 de março anunciando ter determinado aos laboratórios das Forças Armadas que incrementassem a produção do fármaco no Brasil.

Foi o bastante para que a hidroxicloroquina virasse coisa "de direita".

Neste momento, cientistas discutem a hipótese de o uso da hidroxicloroquina ser estendido a pacientes de Covid-19 em estágios iniciais da doença. A evolução desse debate pode ser um ponto de inflexão na pandemia - desde que militantes da esquerda e da direita não atrapalhem muito. Discutir o uso do medicamento à luz do pensamento de grupo ou de suas matrizes ideológicas só aumentará a dor de milhares de pacientes, e parentes de pacientes, que aguardam uma resposta da ciência para mitigar seu sofrimento.

É pedir muito deixá-los fora dessa briga?

Thaís Oyama