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Thaís Oyama


Bolsonaro bravateia e Mourão estende o pires para os "tarados"

Amazônia: assim como o Brasil, a região é "a virgem que todo tarado quer"   -
Amazônia: assim como o Brasil, a região é "a virgem que todo tarado quer"
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

10/07/2020 11h11

"Eu queria até mandar recado para a senhora, querida Angela Merkel, que suspendeu 80 milhões de dólares pra Amazônia. Pega essa grana e refloreste a Alemanha, tá ok? Lá está precisando muito mais do que aqui".

Foi com essa frase que o presidente Jair Bolsonaro, em agosto de 2019, respondeu ao anúncio de que a Alemanha iria congelar os repasses para o Fundo Amazônia.

O Fundo Amazônia servia para ajudar a combater o desmatamento na Amazônia. Era usado tanto para comprar carros e combustível necessários ao trabalho dos fiscais quanto para bancar projetos de tecnologia que ajudassem a manter em pé a floresta. Seus principais financiadores eram a Alemanha e a Noruega.

"A Noruega não é aquela que mata baleia no Polo Norte? Não tem nada a dar exemplo para nós. Pega a grana e ajude a Angela Merkel a reflorestar a Alemanha", disse Bolsonaro quando a Noruega, seguindo a Alemanha, também decidiu suspender sua parte nos repasses —300 milhões de coroas norueguesas, o equivalente a 133 milhões de reais.

A decisão da Alemanha e da Noruega foi uma resposta a mudanças feitas na gestão do fundo pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Na visão dos dois países, as mudanças diminuíam a transparência no uso do dinheiro e alijavam os mantenedores estrangeiros das decisões sobre a sua aplicação.

Bolsonaro, como se sabe, tem certeza de que as manifestações dos países ricos em favor da proteção do meio ambiente no Brasil não passam de disfarce para camuflar sua cobiça pelas riquezas da Amazônia. "O Brasil é uma virgem que todo tarado de fora quer", já disse.

Ontem, quinta-feira, o vice-presidente Hamilton Mourão reuniu-se humildemente com investidores de fundos estrangeiros que gerenciam perto de 20 trilhões de reais e ameaçam tirar dinheiro do país se o Brasil não diminuir os índices de desmatamento da Amazônia.

O vice foi colocado em campo desde que a sucessão de ameaças do gênero acendeu o alerta vermelho no ministério da Economia: o Brasil pode se tornar um pária internacional se insistir em ir na contramão do mundo com sua retórica anti-ambientalista.

Entre as tarefas delegadas ao vice Mourão está a de reativar doações internacionais, entre elas as do Fundo Amazônia — aquele mesmo dinheiro que o presidente Bolsonaro mandou Angela Merkel pegar pra ela para "reflorestar a Alemanha".

Apoiadores do presidente Bolsonaro costumam achar graça das bravatas do Mito.

Não é o caso de boa parte do mundo, como mostra o comportamento dos investidores.

Para eles, cada vez mais pressionados por consumidores que cobram compromisso com práticas de proteção ao meio ambiente, Bolsonaro é um líder anacrônico, um representante da direita incivilizada.

Que marca hoje em dia quer se associar ao atraso?

Mas Bolsonaro não enxerga nada disso. Na desolada planície da sua estultice, tudo o que avista são "tarados de fora" querendo pegar essa virgem chamada Brasil.

O presidente não precisa se preocupar com isso, basta continuar na sua caminhada em direção ao passado.

Os "tarados de fora" logo esquecerão o Brasil.

Thaís Oyama