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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Caso da vacina da Pfizer reforça: Bolsonaro é o novo Idi Amin Dada

Idi Amin Dada: "presidente vitalício"  da Uganda - Acervo AH
Idi Amin Dada: "presidente vitalício" da Uganda Imagem: Acervo AH
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

04/03/2021 11h46

Jair Bolsonaro contribuiu para o aumento das mortes por coronavírus minimizando a pandemia, boicotando medidas de combate à sua disseminação, estimulando comportamentos de risco, prescrevendo medicamentos inócuos e insinuando a existência de efeitos colaterais inexistentes nos imunizantes.

Mas é a (não) compra de vacinas como a da Pfizer que caracteriza aquilo que, na área criminal, se chamaria de "materialidade do delito" - a ação criminosa documentada, que deixa vestígios concretos.

Caso o governo não tivesse feito ouvidos moucos à proposta de venda que a Pfizer apresentou em agosto de 2020, o Brasil poderia estar recebendo o imunizante desde dezembro do ano passado e teria, até junho deste ano — ou seja, daqui a três meses— 70 milhões de doses disponíveis para proteger a população da covid-19.

A Pfizer formalizou a sua proposta de venda da vacina para o governo brasileiro pela primeira vez em agosto de 2020. Ela previa a entrega de 500 mil doses ainda em 2020 e o restante até o fim do primeiro semestre de 2021.

Dois meses depois, em entrevista à revista Veja, o CEO da farmacêutica no Brasil, Carlos Murillo, relatou qual foi o retorno que a farmacêutica obteve: "Nunca recebemos uma resposta formal do governo brasileiro, nem pelo sim nem pelo não". A Pfizer chegou a refazer sua oferta ao menos duas vezes, todas elas na direção de apressar a entrega das doses.

Nos meses de negociação que se seguiram, o governo federal alternou corpo mole com implicâncias relativas a cláusulas que cerca de 30 outros países compradores da vacina da Pfizer aceitaram sem problemas.

Apenas ontem, e apenas por ter sido confrontado com a possibilidade de ser passado para trás pela iniciativa privada, o governo anunciou um "acordo inicial" com a farmacêutica sediada nos Estados Unidos. O contrato, que ainda não foi assinado, prevê a entrega de 100 milhões de doses até dezembro deste ano.

Desde 14 de agosto de 2020, data da primeira proposta que o governo desprezou, mais de 140 mil brasileiros morreram infectados pela covid-19 - e muitos mais morrerão até dezembro, quando a farmacêutica finalmente entregar o seu último lote.

A situação calamitosa do Brasil ganha as manchetes do mundo. No topo delas, figura invariavelmente o nome de Jair Bolsonaro, atualmente o chefe de estado mais abominado no planeta. Diz o embaixador e ex-ministro do Meio Ambiente e da Fazenda do governo Itamar, Rubens Ricupero:

"Hoje, aos olhos do mundo, Bolsonaro ocupa o mesmo lugar que foi de Idi Amin Dada".

Como bem faria o sinistro, histriônico e sanguinário ditador africano que governou Uganda nos anos 70, Bolsonaro se farta de leitão no espeto e gargalha na mesa no dia em que 1 726 brasileiros morrem de covid-19. Também ao estilo do tirano ugandense, manda fabricar milhões de comprimidos de medicamentos inócuos e envia comitivas ao exterior em busca de sprays "milagrosos".

Enquanto isso, seu filho, réu na Justiça por peculato e lavagem de dinheiro, compra uma mansão em Brasília com oito vagas na garagem e forrada de mármore carrara.

Só resta aparecerem as torneiras banhadas a ouro. Cadáveres já não faltam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL