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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

'Entre Bolsonaro e o demônio, eu voto no demônio', diz empresário

O ex-presidente Lula: para empresários, já não tão feio assim - Amanda Perobelli/Reuters
O ex-presidente Lula: para empresários, já não tão feio assim Imagem: Amanda Perobelli/Reuters
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

05/03/2021 09h23Atualizada em 05/03/2021 15h03

A notícia da queda de popularidade de Jair Bolsonaro nas redes sociais só não é pior para ele do que a notícia da subida do nome do ex-presidente Lula nas mesmas plataformas.

O ranking digital da consultoria Quaest varia em uma escala de 0 a 100, sendo 100 a popularidade máxima. Segundo esse ranking, Bolsonaro, que no ano passado oscilou em torno dos 80 pontos, desabou para 62,3. Está agora a apenas 6,4 pontos de distância de Lula —o petista aparece com 55,9.

Esse sobe-desce identificado pela consultoria, envolvendo os nomes do atual presidente e do ex, não é coisa apenas do Twitter e do Facebook.

Na segunda-feira passada, um deputado federal em visita a São Paulo ouviu num círculo de empresários um grande banqueiro fazer duras críticas a Bolsonaro. Ao lado dele, o CEO de uma empresa, espantado com a contundência do julgamento, perguntou o que o amigo queria dizer com tudo aquilo. A resposta do banqueiro surpreendeu o CEO e o deputado: "O que eu quero dizer é que, hoje, entre Bolsonaro e o demônio, eu voto no demônio".

Desnecessário explicar que o "demônio" era Lula.

"O mercado desapegou de Bolsonaro", concluiu o parlamentar. "É o tipo de movimento que acontece quando uma crise desce da consciência para o bolso", afirmou.

Em 2005, Lula foi colhido em meio ao turbilhão do mensalão. Mas a suspeita de que o presidente da República e seu partido estavam envolvidos num dos maiores escândalos de corrupção do Brasil pouco abalou a popularidade do petista —a economia ia bem e a inflação estava sob controle.

Agora, o inverso se pode dizer de Bolsonaro.

O presidente age como Nero em meio ao incêndio da pandemia e seu filho Flavio, réu no STF por acusação de desvio de dinheiro público, compra uma mansão de quase 6 milhões de reais. Mas o mercado começa a tomar distância do ex-capitão não porque descobriu subitamente quem ele é, mas porque, com a crise da Petrobras e os mares revoltos da economia, farejou uma guinada intervencionista no ar e sabe onde ela pode parar.

Em outras palavras, a consciência desceu para o bolso.

E o demônio começa a não parecer tão feio assim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL