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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Meta de Lira é cortar pela raiz "rebelião" da Petrobras contra políticos

Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados: "não é uma ameaça. Era, sim - Rosinei Coutinho/SCO/STF
Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados: "não é uma ameaça. Era, sim Imagem: Rosinei Coutinho/SCO/STF
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

20/06/2022 12h35

O artigo assinado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira, publicado ontem na Folha, foi urdido não para forçar a saída do agora ex-presidente da Petrobras, José Mauro Coelho — este já tinha sido convencido a renunciar no fim de semana, dobrado pelo "argumento" de que estaria profissionalmente destruído se teimasse em ficar, entre outros recados que recebeu de caciques do centrão.

O texto assinado por Lira, com sugestões de perseguição aos diretores da Petrobras e seus familiares, tinha dois outros objetivos: um de curto prazo e outro de caráter permanente.

O objetivo de curto prazo era o de pressionar a governança da Petrobras a não criar embaraços para a posse de Caio Paes de Andrade, indicado no início do mês pelo presidente Jair Bolsonaro para presidir a empresa no lugar de Coelho.

Embora a indicação do número um da Petrobras seja prerrogativa do presidente da República, o Conselho Administrativo da estatal vem ameaçando questionar a escolha sob o argumento de que Paes de Andrade não tem experiência no setor de petróleo. Com a renúncia de Coelho, o diretor-executivo de Exploração da companhia, Fernando Borges, assumiu o cargo interinamente. Não era o que queriam o centrão e o governo e, assim, até que a posse de Paes de Andrade esteja garantida, a ameaça de abertura de uma CPI da Petrobras, feita no artigo de Lira e ecoada pelo presidente Bolsonaro, deve permanecer no ar.

O outro objetivo do texto assinado por Lira em seu artigo-ameaça foi o de lembrar o Conselho da Administração da Petrobras sobre as consequências que teria o que caciques do centrão consideram uma "rebelião" da parte dos acionistas minoritários da estatal.

Nas palavras de um aliado de Lira: "Ao invadir o território da política influenciando o preço dos combustíveis a cem dias da eleição, a Petrobras ameaçou quebrar um pacto político com o Legislativo" —"pacto" este que, segundo o representante do centrão, passa pela "série de facilidades que o Congresso sempre ofereceu à empresa na qualidade de estatal". Lira, em seu artigo, citou explicitamente algumas ao falar da forma "diferenciada" com que a Petrobras costuma ser tratada por órgãos do governo como o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e os de fiscalização ambiental.

Funcionou assim até agora, mas pode mudar — foi o recado de Lira. Escreveu o presidente da Câmara: "Se a companhia decidir enfrentar o Brasil, ela que se prepare: o Brasil vai enfrentar a Petrobras". Completou dizendo que se tratava de "um encontro com a verdade", não uma ameaça.

Era uma ameaça. E a renúncia de Coelho é só um indício de que a Petrobras começa a entender que a briga que comprou não foi apenas com o governo Bolsonaro, mas com uma entidade mais longeva denominada centrão, também conhecida como o "sindicato dos políticos".