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Búzios não zerou casos de covid pós-Carnaval graças a “tratamento precoce”

Rua das Pedras, em Búzios, sem circulação de pessoas, mas com mesas ocupadas - Divulgação
Rua das Pedras, em Búzios, sem circulação de pessoas, mas com mesas ocupadas Imagem: Divulgação

Do UOL, em São Paulo*

06/03/2021 11h02

É falso que a cidade de Búzios, no litoral do Rio de Janeiro, zerou as internações de pacientes de covid-19 após o Carnaval devido à adoção de um tratamento precoce contra a doença, conforme compartilhou o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) em seu perfil no Instagram. A prefeitura de Búzios não adotou a medida, que, além disso, tem tido seu uso desestimulado em estudos recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS).

No post de 22 de fevereiro, o filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) destaca uma montagem com imagens de duas manchetes de grandes veículos da imprensa e cita a redução de internações na cidade. Em seu post, ele comemora a queda, atribuindo-a ao um suposto "tratamento precoce" implementado pela prefeitura."Salvando vidas e desmascarando a 'torcida da morte'! Parabéns ao Prefeito de Búzios pelo tratamento precoce contra #covid_19 que implementou em sua cidade!", diz sua legenda.

A primeira notícia é de 16 de fevereiro, com o título "Defensoria Pública de Saúde estima que Búzios terá aumento exponencial de casos de Covid-19 após o carnaval". A segunda é do dia 18, com o título "Búzios zera número de pacientes internados com Covid-19 e não tem casos confirmados nas últimas 24 horas".

O senador erra ao afirmar que o prefeito da cidade, Alexandre Martins (Republicanos-RJ), adotou um protocolo de tratamento precoce, seja à base de medicações como cloroquina, ivermectina ou azitromicina - todos sem eficácia comprovada cientificamente, mas usados em diversas fake news, algumas desmentidas pelo Comprova.

A informação foi negada pelo próprio prefeito durante entrevista concedida em 25 de fevereiro para o Portal RC24h. Questionado sobre a publicação, Alexandre Martins explicou que o uso da cloroquina ou outros medicamentos do chamado "tratamento precoce" não faz parte da estratégia adotada em Búzios para o tratamento da covid-19. Os médicos, conforme indica a legislação, têm autonomia para usar, mas esta não foi uma estratégia adotada na cidade.

A matéria do G1, compartilhada no post de Flávio Bolsonaro, leva em consideração uma nota em que a prefeitura de Búzios afirma não ter registrado novos casos de infecção ou internação pela covid-19 durante 24 horas, entre os dias 16 e 17 de fevereiro. No mesmo dia da publicação, entretanto, o número de infecções voltou a subir. Segundo dados do boletim epidemiológico, entre o sábado de carnaval (12 de fevereiro) e o fechamento desta verificação, Búzios registrou 124 novos casos de covid-19.

Como verificamos?

Consultamos os dados dos boletins de evolução epidemiológica, no portal da transparência da Prefeitura de Búzios.

Pesquisamos estudos internacionais publicados sobre o tempo médio de incubação do vírus, para entender seu contágio, e sobre a eficácia de tratamentos precoces contra a covid-19. Para falar disso, também conversamos com o infectologista Evaldo Stanislau, do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Entramos em contato, em 23 de fevereiro, com a assessoria de imprensa da prefeitura de Búzios, por e-mail e pelo telefone, para questionar as medidas sanitárias ainda em vigor na cidade e saber por vias oficiais se a prefeitura adquiriu medicamentos para o tratamento precoce contra a covid-19, bem como o total desembolsado pelo órgão. O Comprova não obteve retorno. Em seguida, buscamos algumas repercussões na mídia sobre a postagem de Flávio Bolsonaro, e encontramos as declarações do prefeito.

Procuramos ainda pela assessoria de imprensa do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), que fez a publicação, mas não houve retorno até o fechamento da verificação.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 3 de março de 2021.

Verificação

Tratamento precoce

Segundo o prefeito Alexandre Martins (Republicanos-RJ), o uso da cloroquina ou outros medicamentos do chamado "tratamento precoce" não faz parte da estratégia adotada em Búzios para o tratamento da covid-19. Em entrevista concedida em 25 de fevereiro para o Portal RC24h, o prefeito explicou que o atendimento adotado pela cidade se refere a um diagnóstico rápido da doença, viabilizado através da maior disponibilidade de Unidades Básicas de Saúde (UBS), leitos hospitalares e profissionais de saúde, o que permite um atendimento mais ágil da população.

"Quando a gente fala em atendimento precoce, não é a medicação que se toma, mas o momento que se procura a Saúde para buscar um diagnóstico. Com atendimento precoce a gente trata mais rápido, já que é uma doença que evolui muito rápido. Isso, no nosso entendimento, é a peça chave fundamental", esclarece.

Questionado pela entrevistadora se a Secretaria de Saúde da cidade, comandada pelo médico Marcelo Amaral, está orientando que o médicos receitem medicações como a cloroquina, azitromicina, ivermectina e sulfato de zinco como tratamento no início dos sintomas da covid-19, o prefeito explicou que não há uma linha de atuação definida e repassada aos profissionais. Ele também esclarece que os médicos têm total liberdade para receitar remédios para seus pacientes.

"Não tem um protocolo de atendimento. Óbvio que a gente sabe que hoje, o que mais se tem indicado, até por uma pesquisa que nós fizemos, é a azitromicina, ivermectina, vitamina C com zinco, é o que geralmente o que os médicos mais indicam. A cloroquina, eu particularmente não tenho visto nenhum médico indicar aqui em Búzios, e eu tenho conversado com muitos médicos."

Em outra reportagem, publicada no dia anterior pelo Portal RC24h, o prefeito foi mais direto sobre seu posicionamento quanto ao uso da cloroquina.

"Estamos seguindo orientação do Conselho Federal de Medicina, cada médico receita os medicamentos de acordo com cada paciente. A cloroquina está descartada, ninguém mais usa essa porcaria", afirmou ao jornal.

Evolução da covid-19 em Búzios

O Comprova analisou os dados sobre a covid-19 em Búzios, disponíveis no portal da transparência da prefeitura. Em 18 de fevereiro, a Prefeitura de Búzios divulgou em seus canais oficiais que não havia contabilizado novos casos de covid-19 ou internação naquele dia, informação que foi replicada pelo senador Flávio Bolsonaro dias depois.

Os dados se referiam ao boletim do dia 17, que não registrou novos testes positivos nas 24 horas anteriores. Na ocasião, a cidade contabilizava um total de 3.132 casos desde o início da pandemia, 32 mortes, 114 pessoas em isolamento domiciliar e nenhum paciente internado. Já no dia 18, foram registradas 2 novas internações por covid-19. Na data da postagem de Flávio Bolsonaro, 22 de fevereiro, Búzios contabilizava 3.159 casos, com um paciente internado e 92 em isolamento domiciliar.

No último boletim divulgado antes da publicação desta verificação, do dia 02 de março, o município registrava 74 pacientes em isolamento domiciliar e duas internações, além de um total de 3.238 casos e 32 óbitos desde o início da pandemia. Desde o carnaval (12/02), a cidade registrou 124 novos casos do novo coronavírus.

Cedo para ter impacto

O argumento base da publicação é que nos dias seguintes ao carnaval, findado no dia 16, os números da cidade fluminense não teriam crescido. No entanto, o tempo médio de incubação do vírus é de cerca de duas semanas e estima-se que os primeiros sintomas surjam, em média, dentro de cinco dias, de acordo com a universidade norte-americana Johns Hopkins, que acompanha a evolução global da pandemia. Ou seja, não é possível medir o impacto do contágio em apenas um ou dois dias, como leva a crer a postagem publicada por Flávio Bolsonaro, que se refere ao dia 18 de fevereiro.

"É muito cedo para dizer. O período de incubação vai até duas semanas, em média de cinco a sete dias para aparecerem os sintomas. Pelo contrário: no [período do] Natal, após as festas de final de ano, [a praia de] Pipa [RN] teve diagnóstico de duas variantes simultâneas, provavelmente de pessoas que estiveram juntas naquela região vindo de locais diferentes. Qualquer tipo de aglomeração que possa ter ocorrido no carnaval, ela vai mostrar até duas semanas depois", afirma o infectologista Evaldo Stanislau, do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Segundo ele, este contágio gera ainda um "efeito cascata". "A pessoa se infectou no carnaval. Os sintomas dela aparecem em até duas semanas, mas ela pode ter transmitido para outra pessoa no período de incubação. Esta, para outras e assim sucessivamente. Então, começa a ver de uma a duas semanas depois, mas o alcance disso, sem nenhuma medida restritiva, vai muito além", explica.

Não há tratamento precoce

Além de encorajar aglomerações, a publicação busca ainda creditar o suposto sucesso do combate à pandemia na cidade ao "tratamento precoce" sob o argumento de que a cloroquina, hidroxicloroquina e outros medicamentos teriam prevenido o contágio.

Não há provas disso. Na verdade, atualmente, o consenso internacional é de que o tratamento com cloroquina não tem eficácia em nenhum estágio do combate à covid-19, seja no uso precoce, no surgimento de sintomas, ou no estágio grave da doença.

Pelo contrário. Nesta semana, a OMS publicou um relatório em que não só diz não recomendar o tratamento precoce com cloroquina como "aconselha fortemente contra" seu uso para tratar precocemente a covid-19. Segundo a organização, a droga "não é mais uma prioridade de pesquisa" e pesquisadores "deveriam focar em outras drogas".

"A droga anti-inflamatória hidroxicloroquina não deve ser usada para prevenir infecção em pessoas que não estão com covid-19", diz o texto. A recomendação é baseada em um estudo feito com 6 mil pacientes e o resultado, mais uma vez, é que a droga não oferecia eficácia alguma para prevenir a doença.

Em outubro do ano passado, um estudo global da OMS, com 11 mil pessoas, já havia concluído que hidroxicloroquina e o antiviral remdesivir são "decepcionantes" no combate à covid e não têm eficácia comprovada.

"É mais uma fake news, um desserviço", afirma Stanislau. "Evidentemente que não existe tratamento precoce nenhum. Isso é uma bobagem que só no Brasil ainda persiste."

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos duvidosos sobre covid-19 e políticas públicas do Governo Federal que tenham grande potencial de viralização. A postagem do senador Flávio Bolsonaro obteve mais de 20,5 mil curtidas e endossa um tratamento sem comprovação científica.

O Comprova já desmentiu diversas publicações que também estimulam a desinformação sobre a doença ao promover tratamentos sem eficácia, como o texto que afirma que cloroquina cura 98,7% dos pacientes com covid-19 e que o "tratamento precoce" com a droga evitou mortes em Porto Feliz, no interior paulista.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo que tenha sofrido edições com intuito de mudar o seu significado original.

*O material foi produzido por veículos integrantes do projeto Comprova: UOL, Colbetivo Bereia e Poder360

O Comprova é um projeto integrado por 24 veículos de imprensa brasileiros que descobre, investiga e explica rumores, conteúdo forjado e táticas de manipulação associados a políticas públicas. Envie sua pergunta ou denúncia de boato pelo WhatsApp 11 97795 0022.

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