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Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos

Alvaro Dias usa dados defasados sobre estatais e minimiza gastos eleitorais

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Ana Rita Cunha

Do Aos Fatos

28/04/2018 04h00Atualizada em 30/04/2018 14h12

O senador e pré-candidato à Presidência Alvaro Dias (Podemos-PR) afirmou que um gasto milionário com campanha é "uma soma insignificante" e usou dados defasados para falar de empresas estatais.

O político também comentou sobre sua relação com Joel Malucelli, suplente e um dos principais financiadores do senador, cuja empresa é investigada pela Lava Jato.

Em parceria com o UOL, Aos Fatos checou as declarações de Dias durante sua participação no programa "Band Eleições", da TV Bandeirantes, na última segunda-feira (23). Confira abaixo o resultado.

Felizmente também eu gasto muito pouco em campanha. Gastei uma soma insignificante, absolutamente declarada na Justiça Eleitoral.

EXAGERADO: A campanha de Alvaro Dias nas eleições de 2014 foi a segunda mais cara para o Senado pelo Paraná, mas foi a nona mais barata entre todos os senadores eleitos naquele ano.

Custou R$ 2,9 milhões, de acordo com as informações declaradas ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

O Bradesco, por meio da Bradesco Corretora e da Bradesco Leasing, foi o maior doador da campanha do senador, desembolsando R$ 500 mil. Joel Malucelli, seu suplente, contribuiu com R$ 300 mil, o segundo maior montante.

A campanha mais cara ao Senado no Paraná foi a de Marcelo Beltrão (MDB) e custou R$ 6,5 milhões, 99% financiados pelo próprio candidato.

Fechando a lista das campanhas milionárias do estado, Ricardo Gomyde (PCdoB) gastou R$ 1,5 milhão, a maior parte financiada pelo PT ou por candidatos petistas.

Comparando com a campanha dos senadores eleitos em 2014, a campanha de Alvaro Dias foi a nona mais barata. Entre os senadores eleitos, Telmário Mota (PDT-RR) gastou apenas R$ 249 mil, sendo a campanha mais econômica, e Antonio Anastasia (PSDB-MG) teve custos de R$ 18 milhões, tendo a mais cara.

Ao analisar o gasto por voto, Alvaro Dias teve o quarto menor custo por voto. É importante destacar, no entanto, que o custo do voto está diretamente ligado à competitividade da disputa. Eleições muito disputadas, com mais de um candidato com chance de vitória, costumam aumentar os gastos com a campanha.

A senadora Kátia Abreu (então PMDB-TO) teve o voto mais caro entre os eleitos para o Senado em 2014. Ela ganhou a vaga com uma diferença de apenas 5.932 votos do segundo colocado.

Na ponta oposta, o senador Romário (PSB-RJ) teve o menor custo por voto, mas ganhou a eleição com uma larga vantagem, levando 3,2 milhões de votos a mais do que o segundo colocado.

Apesar de não ser a campanha mais cara entre os senadores eleitos, Dias também disputou o cargo em um cenário menos competitivo: recebeu 77% dos votos válidos do Paraná nas eleições em 2014, ou seja, 3,4 milhões de votos a mais do que o segundo colocado.

Não é possível, portanto, afirmar que a campanha de Dias tenha tido gastos insignificantes. Essa questão fica mais explícita no contexto regional, com a segunda campanha mais cara do Paraná. Nacionalmente, contudo, sua campanha não foi tão dispendiosa assim. Por esse motivo, consideramos a declaração como "exagerada".

Eu fiz quase 80% dos votos do Paraná.

VERDADEIRO: Alvaro Dias recebeu 4,1 milhões de votos válidos ou 77% do total nas eleições de 2014, quando se elegeu pelo PSDB para o cargo de senador federal. O segundo colocado, Ricardo Gomyde (PCdoB-PR), ficou com 666 mil votos válidos, ou 12,5% do total.

Meu suplente deixou a empresa em 2012. Ele não está sendo investigado. A empresa, sim; ele não.

VERDADEIRO: O primeiro suplente do Alvaro Dias é Joel Malucelli, empresário, dono do Grupo J. Malucelli e um dos principais financiadores da campanha do senador em 2014. O nome de Joel Malucelli não consta de qualquer processo da Operação Lava Jato, portanto a declaração de Alvaro Dias é verdadeira. 

Já a J. Malucelli Construtora de Obras e a J. Malucelli Energia foram alvo de mandados de busca e apreensão da 49ª fase da operação.

Segundo o Ministério Público Federal do Paraná, essas empresas, com Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Odebrecht, OAS e integrantes do consórcio Norte Energia, pagaram propina para vencer o leilão de concessão da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Apesar de não estar no rol de investigados, Joel Malucelli ainda era presidente do grupo J. Malucelli quando aconteceu o leilão de Belo Monte, em abril de 2010. Os executivos Celso Jacomel Junior e Theophilo Garcez foram apontados nas delações premiadas como os representantes do grupo empresarial que participavam das negociações de propina, segundo o MPF.

Ainda de acordo com os promotores, as empresas do consórcio efetuaram pagamentos de propina para MDB (45%), PT (45%) e Antônio Delfim Netto (10%). A propina correspondia a 1% do valor do contrato e seus aditivos. Os procuradores estimam que tenham sido pagos R$ 15 milhões em propina, sendo R$ 300 mil desembolsados pelo grupo J. Malucelli, que tem 2% na Norte Energia.

Os partidos negam terem cometido qualquer ilegalidade. À época, a Norte Energia não quis se pronunciar.

Delfim Netto diz que foram "honorários por serviços prestados" e que "a Justiça reconhecerá isso no fim".

Olha, nós temos 149 empresas estatais federais. (...) 30% dessas empresas [estatais federais] foram criadas durante o governo do PT.

IMPRECISO: O Brasil tem 146 empresas estatais federais ativas, segundo o quinto boletim do Siest (Sistema de Informação das Estatais), o levantamento mais recente do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão sobre o assunto.

Na versão anterior do boletim, constava que ao todo o país tinha 149 estatais federais. A versão mais recente leva em conta alterações na Petrobras, a partir da extinção de uma subsidiária e a incorporação de outras duas.

De acordo com dados do Ministério do Planejamento, das 146 empresas estatais federais ativas, 56 foram criadas entre 2003 e maio de 2016, ou seja, durante governos petistas. Isso corresponde a 38% do total de empresas estatais em funcionamento.

O senador provavelmente se refere ao levantamento feito pelo Instituto Teotônio Vilela, ligado ao PSDB, que indica que, entre 2003 e 2015, foram criadas 43 empresas estatais. Ou seja, o levantamento não leva em conta 14 subsidiárias eólicas criadas em 2016.

Nós temos hoje 52 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza.

VERDADEIRO: No Brasil, mais de 52 milhões de habitantes, ou 25,4% da população, viviam em 2016 abaixo da linha de pobreza estipulada pelo Banco Mundial, segundo a Síntese de Indicadores Sociais de 2017, a mais recente divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Esse número corresponde ao total de brasileiros que vivem com menos de US$ 5,50 por dia por pessoa, equivalente a uma renda mensal de R$ 387,07 por pessoa em valores de 2016. 

Temos aí 100 milhões de brasileiros sem acesso a saneamento básico, 35 milhões sem acesso a água tratada, 17 milhões sem acesso a coleta de lixo.

VERDADEIRO: Os dados apresentados por Alvaro Dias são os mesmos daqueles que constam dos relatórios de diagnóstico de serviço publicados em 2018 pela SNSA (Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental), do Ministério das Cidades, referentes a 2016.

Os dados usados por ele estão arredondados. De acordo com os dados da secretaria, 48,1% da população brasileira não tinha acesso a saneamento básico, ou seja, 99,140 milhões de brasileiros. Também aponta que 16,7% da população não tinha acesso a água tratada, o que representa 34,421 milhões de brasileiros. Em relação à coleta de lixo, 8,5% da população estava fora desse serviço ou 17,519 milhões de brasileiros.

Os relatórios do Ministério das Cidades se baseiam em uma amostra de municípios que repassam informações ao SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento). Os indicadores de cobertura dos serviços são calculados a partir dos dados do SNIS e do IBGE.

Outro lado

Após a publicação do texto no UOL, a assessoria de imprensa do senador Alvaro Dias enviou por email comentários sobre as declarações checadas. Na nota, o senador afirmou que: "A matéria de checagem mostra o quanto as informações (...) são corretas, pois, entre tudo o que foi analisado pelo site, há apenas uma pequena imprecisão e uma visão exagerada dos analistas".

Em relação à checagem que aponta como exagerada a afirmação que a campanha de R$ 2,9 milhões é um "valor insignificante", o senador disse: "A minha campanha foi barata como o próprio site afirma (a nona mais barata, então não se pode falar em exagero)". A respeito do uso de dados defasados de estatais federais, o senador afirmou na nota que "o exagero maior acredito que está em uma manchete que ignora todas as afirmações corretas e superdimensiona uma imprecisão".

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