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É falso que a maioria das pessoas seja imune à covid, como disse Bolsonaro

Imagem de abertura do perfil de Jair Bolsonaro no Facebook - Reprodução/Arte UOL
Imagem de abertura do perfil de Jair Bolsonaro no Facebook Imagem: Reprodução/Arte UOL

Marcelo Oliveira*

Do UOL, em São Paulo

18/08/2020 19h15Atualizada em 19/08/2020 17h35

O presidente Jair Bolsonaro publicou na noite de domingo (16) em seu Facebook que "a maioria das pessoas é imune ao vírus" Sars-CoV-2, que causa a covid-19. Segundo a postagem, a informação faz parte de "um dos melhores estudos sobre o covid-19".

A mensagem de Bolsonaro rebate a eficiência do isolamento social: "A política de 'fechar tudo' teria sido baseada em ciência falha, e as consequências danosas à sociedade serão sentidas por décadas". Ainda incentiva a ler o "estudo de Karl Friston", um neurocientista britânico.

Postagem de Bolsonaro no Facebook afirma "que a maioria das pessoas é imune ao vírus" que causa a covid-19 - Reprodução - Reprodução
Postagem de Bolsonaro no Facebook afirma "que a maioria das pessoas é imune ao vírus" que causa a covid-19
Imagem: Reprodução

Falso: Friston não é o autor do estudo

O estudo citado na reportagem compartilhada por Bolsonaro tem 20 autores, mas Friston não é um deles. O cientista apenas mencionou o trabalho, publicado pela revista americana Cell, em uma entrevista ao jornal inglês The Guardian, na qual ele analisa por que a resposta alemã à covid-19 foi melhor do que a britânica. Mas os cientistas ainda não conseguiram explicar por que isso acontece e concluem no documento que isso é uma hipótese, estando sendo analisada "na teoria", ainda sendo necessário aprofundar as pesquisas sobre o tema.

Ao fazer a comparação entre os dois países, Friston explora o conceito do estudo de "imunidade cruzada", que aponta que entre 40% e 60% da população poderia não contrair covid-19, mesmo tendo sido exposta a ela, graças à presença de linfócitos T ativados por outros coronavírus que causaram resfriados na pessoa no passado.

Os pesquisadores usaram amostras de sangue coletadas entre 2015 e 2018 de pessoas que haviam superado outros tipos de coronavírus, mas que, pelas datas, ainda não podiam ter sido expostas ao novo SARS-CoV-2. Os linfócitos reconheceram os fragmentos similares entre os dois vírus e ativaram as defesas.

O UOL ouviu a microbiologista Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, e o epidemiologista Fábio Mesquita, ex-diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, e ambos afirmam que não existe imunidade à covid-19 para a maioria das pessoas. Se já houvéssemos atingido esse patamar, a pandemia não atingiria todo o planeta, com crescentes números de casos e mortes.

"A pessoa só pode ser considerada imune quando está vacinada ou quando já teve a doença e seu sistema imunológico produziu uma resposta protetora", afirma Natália.

"Não chegamos e só chegaremos a esse momento de imunidade com uma vacina. Só assim vai chegar próximo ao normal de antes", concorda Mesquita.

"Os estudos citados são ainda hipóteses de por que algumas pessoas desenvolvem a covid-19, e outras não. O artigo ainda garante que deixar as pessoas se contaminarem sem se proteger de alguma forma não é a solução. A única coisa que dá resultado é o isolamento social. Não é hipótese, não é modelo. É o que já deu certo", diz Mesquita.

"Nunca uma população será 100% suscetível, pois nem todo mundo se expõe da mesma maneira", explica Natália. "O estudo mencionado por Friston na entrevista, contudo, fala de imunidade cruzada, mas ninguém sabe se a proteção será total nesses casos", afirma a especialista.

OMS: "Planeta continua suscetível"

Conforme reportagem publicada hoje pelo colunista do UOL Jamil Chade, a OMS (Organização Mundial da Saúde) descartou que exista a imunidade de rebanho e que 90% da população do planeta continua suscetível ao novo coronavírus.

27.mai.2020 - O diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, em coletiva de imprensa sobre o coronavírus - Christopher Black/Organização Mundial da Saúde (OMS)/AFP - Christopher Black/Organização Mundial da Saúde (OMS)/AFP
Imagem: Christopher Black/Organização Mundial da Saúde (OMS)/AFP

Projeto contra fake news bancado pelo Facebook identificou postagens semelhantes. Publicadas em maio e junho, foram consideradas como não baseadas em evidências científicas e também citaram a entrevista de Friston. O Facebook marcou essas postagens com um selo avisando sobre a possibilidade de conter informação falsa e diminuiu sua visibilidade.

Em menos de 48 horas, o post de Bolsonaro teve 228 mil interações, sendo que 40 mil delas foram compartilhamentos. Também serviu de origem para milhares de postagem com conteúdo semelhante, como a do deputado federal Charlles Evangelista, do PSL-MG.

O que diz o Facebook

Em nota, o Facebook afirmou que não tomará uma providência em relação ao post de Bolsonaro, porque a companhia entende que políticos eleitos são monitorados pela população.

"O Facebook atua em diversas frentes no combate à desinformação e tem parcerias com verificadores independentes de fatos para reduzir a distribuição de conteúdos marcados como falsos nas nossas plataformas. Publicações de políticos, porém, não são submetidas à verificação de fatos, porque acreditamos que a sociedade deve saber o que representantes eleitos estão dizendo e para que os políticos sejam responsáveis por suas palavras."

Site citado e Planalto não comentam

A postagem contém link para um texto do site Frontliner, cujo endereço é uma sala de coworking na avenida Paulista. O site contém um texto de "princípios editoriais" que finaliza com a seguinte frase: "Retratamos árvores. Os nossos leitores e ouvintes visualizam a floresta".

A responsável pelo site é Elizabeth Kwiek. Quando se pesquisa este nome no Google, ele é associado a um CNPJ "baixado" (desativado) em 2015. A atividade principal da empresa era o fornecimento de alimentos.

O UOL localizou um CNPJ em nome de Frontliner BKP (Beth Kwiek Produções Ltda), aberto em 2 de junho de 2020. O telefone informado pela empresa cai em uma caixa postal de um escritório de contabilidade. A atividade principal da BKP é a produção de filmes, vídeos e programas de TV.

O site não divulga um número de telefone. O UOL ligou para o coworking onde fica a sede, mas a empresa não transfere ligações para inquilinos.

O UOL questionou a assessoria de comunicação da Presidência da República sobre a postagem de Bolsonaro, mas não obteve resposta.

* Colaborou Constança Rezende, colunista do UOL

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