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Coronavírus: Termômetro infravermelho não é prejudicial ao cérebro

Arte/Prakash Mathema/AFP
Imagem: Arte/Prakash Mathema/AFP

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

17/08/2020 22h40

Recentemente, duas correntes que circulam pelos aplicativos de mensagem têm alertado sobre perigos de tecnologias de combate ao novo coronavírus. Uma é verdadeira; a outra, falsa.

Uma mensagem trata de um caso real de crianças que machucaram os olhos ao entrar indevidamente em equipamentos de raios ultravioleta (UV) em supermercados. Já a outra desinforma ao afirmar que termômetros infravermelhos não fazem bem para o sistema nervoso.

Termômetro infravermelho não prejudica o cérebro

Uma corrente, atribuída a uma suposta enfermeira australiana, tenta deslegitimar uso de termômetros infravermelhos por se parecerem com armas e serem prejudiciais ao cérebro, o que não é verdade.

"Uma das minhas novas tarefas é medir e registrar a temperatura de cada pessoa. Eu aponto para o centro de sua testa com minha arma em forma de termômetro, puxo o gatilho, espero pelo bipe e registro a temperatura. Estamos sendo dessensibilizados ao direcionarmos isso à cabeça e também causando problemas de saúde potenciais ao apontar um raio infravermelho para a glândula pineal?", questiona a suposta enfermeira.

Segundo ela, a glândula pineal, parte do sistema nervoso localizada no interior do crânio, seria a parte afetada pelo laser infravermelho. "Como profissional da área médica, recuso-me a visar diretamente a glândula pineal, que está localizada diretamente no centro da testa, com um raio infravermelho", diz o texto.

Além disso, afirma a autora, há uma questão estética. "Foi muito perturbador para mim observar crianças se acostumando a ver um objeto em forma de arma apontado para a testa e sem nenhuma reação negativa dos adultos, como se isso fosse normal e aceitável."

Apesar do apelo, o texto não tem nenhum embasamento científico. De acordo com o médico Antônio de Salles, chefe da neurocirurgia do Hospital Vila Nova Star, da Rede D'Or, a corrente não passa de "fake news absurda".

"Não tem realmente nenhuma evidência científica de que o termômetro infravermelho cause qualquer problema intracraniano. Basta dizer que nós temos raios infravermelhos na luz solar, estamos expostos a ele todos os dias", diz o médico.

Segundo ele, a glândula pineal está localizada "no centro do nosso cérebro" e "uma aplicação como esta não tem efeito nenhum" sobre ela.

"É um aparelho totalmente inofensivo, que mede a temperatura à distância. É muito benéfico no combate à pandemia. Imagina se tivéssemos que colocar um termômetro na boca ou nas axilas de cada pessoa?"

Segundo o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), estes aparelhos "vêm sendo grandes aliados dos profissionais de saúde" no combate à doença. A entidade publicou um guia com oito dicas para usá-los corretamente.

Medição de temperatura não pode ser medida isolada, alerta OMS

A OMS (Organização Mundial da Saúde) também nunca publicou nenhuma ressalva quanto ao uso do termômetro relacionado a qualquer problema no cérebro. O órgão só salienta que, por não identificar todos os estágios da doença, a medição pode ser "ineficaz" se usada isoladamente.

"A medição de temperatura na saída ou na entrada, como medida isolada, provavelmente será apenas parcialmente eficaz para identificação de indivíduos infectados, já que estes podem estar no período de incubação, não apresentar nenhum sintoma aparente nos estágios iniciais da doença, ou mesmo disfarçar a febre usando medicamentos antipiréticos", declarou a organização em artigo publicado em julho.

Radiação UV pode danificar córneas

Outra corrente que passou a circular pelos aplicativos de mensagem nesta semana é a denúncia de que três crianças tiveram irritação nos olhos depois de entrarem indevidamente em uma máquina de radiação ultravioleta em uma unidade do supermercado Carrefour em São Paulo.

"Ontem meu irmão e meus sobrinhos foram ao Carrefour Pêssego. [...] Eles ficaram um minuto dentro dessa câmera que tem raios ultravioletas e nenhum funcionário no mercado para instruí-los, após 3 às 5 horas de ter entrado na câmera começar a sentir fortes dores nos olhos, não conseguiram abrir os olhos e ardia muito. Na madrugada desesperados me chamaram e eu levei no hospital CEMA, a médica diagnosticou como ceratite, estão fazendo uso de antibióticos analgésicos, pomadas e compressas", diz a mensagem, reproduzida pelo UOL como foi postada.

"Foi desesperador, não entrem dentro desta câmera e nem deixem seus filhos entrar. Sem contar que ainda pode ter sequelas estão colocando remédios de uma em uma hora nos olhos, uma vez que a córnea dos três foram prejudicadas", alerta o texto.

A radiação ultravioleta realmente pode danificar as córneas. O caso é real e ocorreu no último final de semana na zona leste da capital paulista.

A publicação original foi feita por uma tia das crianças em seu Facebook na noite do último domingo (16). Ao UOL Confere, o Carrefour confirmou o caso e que, assim que soube da situação, disponibilizou assistência médica à família.

A oftalmologista Marina Rezende Ribeiro, professora da Faculdade de Medicina do Centro Universitário Tiradentes, confirmou que, a depender da frequência das ondas e da intensidade da radiação, esta pode ser prejudicial à visão.

"Dependendo da intensidade, a radiação UV pode causar dano na córnea, na conjuntiva e até na retina. Quanto maior a frequência, maior o dano tecidual e pode, sim, causar ceratite [desepitelizacão] da córnea", afirmou a médica.

Segundo ela, para avaliar o risco, seria preciso descobrir a intensidade da radiação da câmara de desinfeção no supermercado. O Carrefour não passou estes dados à reportagem, mas afirmou que orienta aos consumidores que "a cabine só deve ser utilizada para a higienização de produtos" e que "reforçará a comunicação aos clientes em loja".

Segundo a empresa, este é o primeiro acidente registrado desde a implementação dos equipamentos, em maio. A reportagem também tentou falar com a família e a autora da postagem, mas não conseguiu contato até a última atualização deste texto.

Anvisa não recomenda UV no combate à covid

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não recomenda o uso de tecnologias baseadas em radiação ultravioleta para desinfecção de locais públicos ou hospitalares.

Em nota técnica publicada no início de agosto, a agência afirma que "não foram encontradas evidências científicas de que o uso de tecnologias baseadas em exposição à radiação UV, para desinfecção de ambientes públicos e hospitalares, sejam eficazes no combate ao SARS-CoV-2".

O órgão cita ainda uma série de lesões causadas pela exposição de curto e de longo prazo à radiação. Entre as de curto prazo estão as dérmicas, como avermelhamento da pele, e as oculares, como fotoquerate (inflamação da córnea) e fotoconjunvite (inflamação da conjuntiva).

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