Ceagesp completa 40 anos com histórias que misturam ditadura e avanço econômico

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

"Eu vim para São Paulo fazer um curso de eletrônica na rua Santa Ifigênia, mas não tinha vaga. Penhorei um relógio, peguei o ônibus e consegui um emprego de carregador de alimentos aqui. Mas antes tive que arrancar três dentes porque tinha cárie e o patrão não queria. Era 29 de junho de 1965. Não sai mais daqui. E sinto falta quando não venho." José Shinkawa, 64, conta sua vida rodeado por caixas de frutas.
 

FLORES DE PASSADO

  • Divulgação/Ceagesp

    Transferida da praça Charles Miller, a feira de fruta se instala em 1967 no Ceasa, na zona oeste

  • Fernando Cavalcanti/UOL

    Carregador amarra carrinho com buquês de flores na tradicional feira que acontece terças e sextas

As frutas ajudam a contar a história da Ceagesp, central de abastecimento e armazenamento que completa 40 anos de existência neste domingo 31 de maio. "Quando cheguei aqui só tinha três tipos de fruta: abacaxi, banana e laranja. Hoje tem mais de 150 variedades. E não existe mais frutas da estação. É fruta o ano todo, mas o sabor se perdeu. Não é o mesmo paladar afinado de antes", relata, antes de mostrar a novidade no seu box: a groselha do Ceilão.

Ele abre uma caixa e oferece o camo camo, fruto amazônico rico em vitamina C. "Quero comercializar também o abacaxi em gomos, mas o produtor está muito mole", conversa. Ele conta que já introduziu no Brasil sementes e mudas de grutas com a carambola doce da Coréia, a Atemóia do Chile ou a papaia do Havaí.

"Isso aqui era um brejo. O ônibus era lerdo e demorava três horas para chegar ao centro. Eu era um caipirão danado. Era lavrador em Suzano. Mas com meu trabalho aqui pude fazer meus filhos fazerem faculdade. O problema é que eles acham o trabalho daqui uma escravidão, trabalhando das 6h às 19h. Vou ter que passar meu box para um funcionário", relata o permissionário, como se chamam os donos dos locais.

De carregador, Shinkawa virou vendedor e foi melhorando na vida. "O trabalho é essencialmente o mesmo. Só o celular e o rádio que aceleraram o contato com os fornecedores e compradores. A gente até acorda o pessoal para oferecer nossos produtos."

Para ele, a única coisa que devia mudar é a situação dos 5.000 carregadores que trabalham no local que reúne diariamente 50 mil pessoas e 10 mil caminhões, sendo a maior central de abastecimento da América Latina. "É desumano. Devia ser algo mecanizado, mas é uma forma de dar emprego."

Ele conta que pelo menos os carregadores estão mais civilizados. "Eles pareciam uns jagunços. Era pior que uma selva. A qualquer encontrão, já puxavam a peixeira. Eles passavam por cima do pé das pessoas e ainda reclamavam. Hoje pedem até desculpa. Isso agora está o céu", ironiza.

O ano de 1969 viu surgir a Ceagesp, o milésimo gol de Pelé e o homem pisando na lua. Mas também vivia a realidade da ditadura militar. "A gente não podia fazer uma rodinha para conversar que um soldado vinha para afastar. Só aceitavam três pessoas juntas se fossem dois clientes e o vendedor. E ai de quem retrucasse: ia preso", relata Shinkawa.

Outro veterano lembra outra passagem do regime militar (1964-1985). "Qualquer aumento de preço dos alimentos, o [então governador Paulo] Maluf vinha me chamar de maior atravessador do Estado e que a culpa era minha. Tudo porque o secretário de Agricultura dele, o Afif Domingos, quis aumentar o aluguel aqui e nós não deixamos. Houve muita pressão e perseguição. Fiquei algumas noites sem dormir", conta Mario Benassi que chegou nessa porção paulistana em 1966, quando o lampião iluminava a venda noturna e não havia o que comer que não fosse os produtos que vendia, principalmente a uva de sua Jundiaí natal.
 

CONSUMIDORES E PEDINTES

  • Divulgação/Ceagesp

    Em 1979, o público se aglomera atrás dos preços baixos e dos bons produtos comprados no atacado

  • Fernando Cavalcanti/UOL

    Menina ganha chuchus de vendedor do entreposto, que tem como figuras comuns os pedintes

Ele conta que a ação política acabou extinguindo até uma das marcas registradas da Ceagesp: a tradicional sopa de cebola do restaurante Ceasa. Era o alimento dos boêmios paulistanos em um período em que não havia serviços de alimentação 24 horas como existem atualmente nas grandes cidades.

Houve duas ou três tentativas de ressuscitar o quitute das madrugadas, mas não deu certo. "Tenho tanta saudade que faço em casa, fervendo a cebola e o alho, colocando azeite e misu e batendo no liquidificador. Peguei a receita com os cozinheiros do Michel", afirma Benassi, com uma ponta de dor.

Neste dia 31 de maio, a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo promove intensa atividade para comemorar os 40 anos de história, com uma grande festa aberta ao público (veja programação abaixo). A programação inclui missa de abertura, ato solene e lançamento do carimbo e selo comemorativo dos Correios.

A Ceagesp surgiu em 1969 a partir da fusão de duas empresas mantidas até então pelo Governo do Estado de São Paulo: o Centro Estadual de Abastecimento (Ceasa) e a Companhia de Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Cagesp), que já existiam no mesmo terreno inicialmente.

Atualmente, a empresa administra uma rede de 34 unidades armazenadoras e 13 entrepostos atacadistas, que asseguram o abastecimento de mais de 60% da Grande São Paulo, além de grande parte do Estado. Desde 1997, a Companhia está vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A rede de armazenagem tem capacidade para estocar, simultaneamente, mais de um milhão de toneladas de produtos agrícolas, sendo a maior do Estado de São Paulo e uma das maiores do Brasil.

A história
A história da Ceagesp começou nove anos antes da fusão. No início da década de 1960, o ritmo de crescimento de São Paulo indicava a necessidade de se criar um entreposto atacadista de distribuição de alimentos capaz de atender a população do Estado. Enquanto era desenvolvido um projeto e avançavam as obras para a construção do Centro Estadual de Abastecimento - o Ceasa, numa área de charco na Vila Leopoldina, zona oeste da capital paulista, a administração do entreposto funcionava num escritório, na rua 15 de Novembro, no centro da cidade, com uma única funcionária.
 

Horários dos varejos

Varejão sábados das 6h às 12h30, e domingos, das 7h às 13h
Varejão noturno quartas, das 16h às 22h
Feira de flores terças e sextas, das 5h às 10h30

Uma enchente no Mercado Municipal, pólo de comercialização de hortaliças desde 1933, precipitou a inauguração da nova central de abastecimento, numa área 17 vezes maior que o antigo mercado.

Ainda incompleto, o Ceasa começou a operar em março de 1966. Na época, até o comércio de flores foi levado da praça Charles Miller, no bairro do Pacaembu, para lá.

Em 1977, com a duplicação do pavilhão MLP - Mercado Livre do Produtor, a Ceagesp bateu o recorde de comercialização com 6,2 mil toneladas, superando o então maior mercado do mundo em volume de comercialização, o francês Paris-Rungis.

Hoje, o entreposto comercializa anualmente mais de 3 milhões de toneladas de produtos vindos de 1.495 municípios de São Paulo, 23 Estados e 18 países e movimenta mais de R$ 3,8 bilhões por ano. Diariamente, passam pelas portarias do entreposto 10 mil toneladas de frutas, verduras, legumes, pescados e flores, 50 mil pessoas e 10 mil veículos.

Programação de hoje

9h - missa

10h - lançamento do selo e carimbo comemorativo

11h - coral juvenil da Escola Municipal de Música

12h - show da Física (Instituto de Física da USP)

13h - orquestra da Escola Municipal de Música

14h - show da banda Negritude Junior

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