Livro denuncia impunidade no caso do furto de fotografias doadas por Pedro 2º

Luiz Augusto Gollo
Da Agência Brasil

No Rio de Janeiro

Diversos furtos ocorridos em arquivos de instituições públicas entre 2005 e 2007 chamaram a atenção da artista plástica Rosângela Rennó e a levaram a produzir uma obra de arte impressa em forma de livro, com o título de 2005-510117385-5.

A obra, lançado no fim de semana no auditório do Paço Imperial, no centro do Rio, reúne a reprodução digital do verso de 101 fotos devolvidas à Biblioteca Nacional que constavam do lote de 751 furtadas há cinco anos e que deram origem ao Inquérito 2005-510117385-5, que dá título ao livro. A edição é de 500 exemplares, que começaram a ser distribuídos ontem (22) a bibliotecas públicas e instituições culturais em todo o país.

“Na realidade, eu gostaria de que este fosse o primeiro de uma série de trabalhos feitos sobre os furtos ocorridos em 2005, 2006 e talvez também em 2007 no Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, no Arquivo do Itamaraty, no Museu da Chácara do Céu, num museu em São Paulo e em outras instituições públicas. Foi como se alguém percebesse uma falha no sistema e promovesse um arrastão contra a memória”, resume a artista plástica.

As fotografias estavam guardadas na Biblioteca Nacional e em sua maior parte integravam a Coleção D. Thereza Christina Maria, nome da biblioteca particular doada por dom Pedro II depois da Proclamação da República, em 1889. Todas as fotografias são do século 19 e estão registradas desde 2003 no Programa Memória do Mundo, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Na apresentação da obra, Rosângela Rennó escreve: “Em algum momento, entre 2 de abril e 14 de julho de 2005, durante uma greve de funcionários da Fundação Biblioteca Nacional, 946 peças, entre elas 751 fotografias, foram furtadas da Sala Aloísio Magalhães, local conhecido como Divisão de Iconografia da FBN [Fundação Biblioteca Nacional]. Não havia sinal de arrombamento. Os autores do furto trabalharam com sutileza, escolhendo autores e temas, esvaziando álbuns, substituindo fotografias, para que o crime só fosse descoberto algum tempo depois.”

Quatro anos depois, com uma investigação criminal ainda em curso, apenas 101 fotografias foram recuperadas e todas elas estavam mutiladas, pois os criminosos tentaram, de diversas maneiras, apagar as marcas de registro de patrimônio da FBN, conta a artista plástica na apresentação do livro. “O inquérito criminal de número 2005-510117385-5 ainda não foi concluído e os mentores do furto não foram punidos.”

A artista trabalha com fotos feitas por ela mesma e por outros fotógrafos, desenvolvendo a partir daí sua obra. Por isso, ela fez questão de conceituar 2005-510117385-5 como abra de arte e não como livro no sentido editorial. Seu objetivo não foi reproduzir a parte recuperada do acervo roubado, mas sim a descrição da fotografia, escrita no verso de cada uma. Além de aguçar a curiosidade de quem a manuseia, a obra de arte em forma de livro reforça a denúncia do “apagamento da memória”, como enfatiza a artista.

O trabalho de Rosângela recebeu apoio de cerca de R$ 90 mil do edital Arte e Patrimônio 2009, para a realização de pesquisa, documentação fotográfica e duas tiragens especiais de livros da artista. A iniciativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por meio do Paço Imperial, com patrocínio da Petrobras, integra as ações do programa Brasil Arte Contemporânea do Ministério da Cultura.

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