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PMs e governo não se entendem sobre números de adesão, e greve continua por tempo indeterminado na Bahia

Janaina Garcia

Do UOL, em Salvador

10/02/2012 19h51Atualizada em 10/02/2012 23h21

Em mais uma assembleia realizada na noite desta sexta-feira (10), policiais grevistas da Bahia decidiram pela manutenção da greve iniciada no último dia 31 de janeiro. Segundo os organizadores, cerca de 3.000 PMs participaram da reunião realizada a portas fechadas no ginásio de esportes do Sindicato de Bancários, no centro de Salvador, na ladeira dos Aflitos.  Eles fecharam o local aos gritos de "a PM parou, o Carnaval acabou".

Uma verdadeira guerra de números entre governo do Estado e policiais militares em greve. É nisso em que se transformaram os percentuais de adesão à paralisação na Bahia, nesta sexta, no 11º dia do movimento. Segundo os grevistas, ao menos 95% dos policiais militares aderiram à paralisação. Conforme o comandante-geral da PM baiana, Alfredo Castro, 85% do efetivo já retomou os trabalhos.

Participaram da assembleia de hoje, segundo os PMs, cerca de 3.000 grevistas. Entre mulheres, crianças e policiais, contudo, o número a olho nu dificilmente passava das 200 pessoas. De acordo com o soldado Ivan Leite, eleito porta-voz dos grevistas, a categoria não abre mão de receber as gratificações de atividade policial (GAPs) 4 e 5 este ano e no próximo. A proposta do Estado é pagar a GAP 4, de forma escalonada, de novembro deste ano a março do ano que vem; a GAP 5 ficaria para novembro de 2014 a março de 2015.

Hoje os grevistas trouxeram novamente à pauta as prisões de colegas do movimento que, segundo o governo, teriam participado ou coordenado atos de vandalismo. Entre os quatro presos –de um total de 12 mandados expedidos– está o ex-soldado Marco Prisco, preso ontem depois de que os 245 grevistas acampados na Assembleia Legislativa deixaram o local.

“Não queremos que eventuais crimes sejam perdoados, mas sim, o relaxamento dessas prisões. Já a anistia administrativa continua na nossa pauta”, afirmou Leite, indagado ainda sobre a ameaça de desconto nos dias parados e abertura de processo administrativo feita hoje pelo comando-geral da PM. “Eles [governo] vão apertar para ver se a gente aguenta, e nós vamos continuar aguentando. O que não dá para dizer que tem tanta gente assim de volta ao trabalho: as ruas estão sim desguarnecidas e a sociedade está em risco –assim como nós e nossas famílias. E os oficiais das tropas federais guardam as ruas com fuzis. Vão fazer o que, por exemplo, se alguém puxar a bolsa de uma pessoa e sair correndo? Usar o fuzil em policiamento urbano? Claro que a população ainda está insegura”, definiu.

O representante dos grevistas negou que quatro associações de PMs tenham concordado hoje com a proposta de escalonamento das GAPs até 2015 e reposição de 6,5%, conforme informou hoje uma fonte do governo sobre o projeto que será encaminhado, na próxima quarta-feira, à Assembleia Legislativa. “A greve não é das associações, mas das tropas em assembleia... De qualquer forma, sabemos que os representantes das associações saíram dessas conversas porque o governo estava intransigente”, afirmou Leite, que é sócio de duas das associações que representam os praças, a Aspra, com cerca de 2.400 associados, e a APPM, com cerca de 8.000 e a maior delas.


O governo do Estado alega que é impossível pagar a GAP 4 já este ano em função das limitações orçamentárias impostas pela LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal).

"Um sonho? Casa própria"

Presença constante nas assembleias de que o marido participa, a empresária Geane Menezes, 36, se disse preocupada não apenas com os aspectos salariais relacionados à carreira do soldado Ivan Leite –para ela, pouco ou nada se fala dos problemas “mais reais, do dia-a-dia, mesmo”. “Tem dias que ele chega extremamente chateado porque o carro de trabalho ou outros equipamentos não são os mais adequados. É capô de carro preso por arame, viatura sem freio de mão, colete à prova de balas com data de validade vencida... Que adianta mandar um policial assim para, por exemplo, cuidar da segurança do Carnaval?”, desabafa.

Sobre o salário --o inicial de um soldado, cerca de R$ 2.170 mensais--, Geane diz que os sonhos da família se limitam à casa própria. Eles moram na periferia, de aluguel. “Carro a gente parcela em 60 meses, porque, depois que meu marido foi baleado em saidinha de banco, ficou com medo de andar de ônibus. E casa sempre vai ser o sonho nosso, não tem jeito. Mas hoje o que queria mesmo era que essa greve acabasse e as coisas melhorassem para todos, porque nossa vida simplesmente parou.”

Descontos de dias parados e processo

Também hoje, o comando-geral da Polícia Militar na Bahia anunciou que a participação do policial na greve iniciada no último dia 31 vai resultar em desconto no salário por dia parado e abertura de processo administrativo.

De acordo com o comandante-geral da PM baiana, Alfredo Braga de Castro, o acordo de anistia administrativa feito com os grevistas valia até ontem (9), data em que parte da categoria oficializou a manutenção da greve.

Segundo o comando da PM, “a depender de cada caso, [o policial grevista] pode ser considerado desertor”. Em nota à categoria, Castro convocou os grevistas a voltarem a seus postos, os chamou de “pessoas do bem” e “agentes da paz” e enfatizou: o trabalho “será árduo e exaustivo”.

Em entrevista coletiva, o comandante minimizou a adesão ao movimento e sentenciou: “Tudo tem um começo, um meio e um fim. E, na minha opinião, o fim da greve está decretado. Apenas uma pequena minoria está resistindo a essa convocação do comando da PM ao retorno ao trabalho”, declarou.

Para o comandante, a instituição avaliará a participação na greve “não como adesão, mas como ausência ao serviço”.

Cotidiano