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ONG internacional pede ao ministro da Justiça que detenha massacre de índios Awá, na Amazônia

Fabiana Nanô

Do UOL, em São Paulo

25/04/2012 14h10

Em uma campanha lançada nesta quarta-feira (25), a ONG Survival International publicou um vídeo no qual mostra a situação dos índios Awá – que vivem na região entre Pará, Tocantins e Maranhão e são a tribo mais ameaçada do mundo, segundo a organização – e pede para que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, detenha o massacre deles por parte de madeireiros e fazendeiros da região.

A estrela da campanha é o ator britânico Colin Firth, que aparece no vídeo dizendo: “a tribo Awá é a mais ameaçada do mundo. Sua floresta está sendo ilegalmente desmatada. Quando os fazendeiros os veem, eles os matam. Um homem pode deter isso – o ministro da Justiça do Brasil. Ele pode mandar a Polícia Federal para lá para afastar os madeireiros. Mas agora esta simplesmente não é a prioridade dele”.

Em seguida, o ator pede para que as pessoas mandem mensagens a Cardozo pela causa. Logo abaixo do vídeo, no site da ONG, é possível mandar mensagens ao ministro via Facebook ou e-mail. Aos interessados, também é possível contribuir financeiramente com a campanha. Outras ações incluem enviar uma carta à presidente Dilma Rousseff e, aos estrangeiros, escrever para as embaixadas locais no Brasil.

Assista ao vídeo da campanha, estrelado por Colin Firth

Sarah Shenker, organizadora da campanha no Brasil, afirmou que a ONG “pretende introduzir as pessoas aos Awá, por meio de vídeos e um site interativo, e encorajá-las a tomar uma ação online direcionada ao ministro da Justiça, pedindo para ele impedir a destruição dos índios”. Ela acrescentou que o território da tribo é protegido pela Constituição brasileira, e que a única atitude de Cardozo seria enviar policiais federais e agentes da Fundação Nacional do Índio (Funai) para deter os madeireiros.

“Pessoas e organizações do mundo inteiro têm um papel crucial para pressionar pela causa Awá. Isso fica particularmente evidente quando consideramos o fato de que o dinheiro de contribuintes europeus foi usado para criar um fundo para o projeto Carajás [nos anos 1980]”, continuou.

Depois do apelo, o site da campanha discorre sobre a vida dos Awá, explicando como são nômades que vivem da caça; como passaram a ser ameaçados a partir dos anos 1980, com a exploração da mina de ferro em Carajás; como se relacionam em família; como têm a cultura de criar filhotes de animais para depois devolvê-los à floresta – algumas mulheres inclusive os amamentam; como fazem seus rituais noturnos; e como sofrem a ameaça de madeireiros, fazendeiros e pistoleiros nos dias atuais.

Veja a relação dos índios Awá com filhotes de animais

Focada na defesa de tribos indígenas do mundo todo, a Survival International afirmou que os próprios índios Awá pediram para que a campanha fosse lançada, para ajudar a divulgar a situação deles e pressionar as autoridades a agir de forma rápida. “Se nenhuma medida for tomada, eles não vão sobreviver”, disse Shenker.

Segundo ela, a ONG acompanha a tribo há mais de 40 anos. Hoje, os Awá contam 360 índios em contato com outras culturas e entre 60 e 100 índios sem contato algum com outras culturas. “A pequena população faz com que estejam particularmente ameaçados, e alguns especialistas brasileiros falam em genocídio.”

Em um relato à organização, Pire’i Ma’a, integrante da tribo, afirmou que os fazendeiros “estão derrubando madeira e vão destruir tudo. Macacos, antas, os animais estão todos fugindo e não sei como vamos comer. Esta terra é minha, é nossa. Eles podem voltar para a cidade, mas nós vivemos na floresta. Eles vão matar tudo e nós vamos ficar com fome, assim como nossas crianças”.

Por sua vez, o ministro Cardozo atribuiu ontem à “imensidão do território brasileiro” a dificuldade de se combater a violência e as situações de risco contra povos indígenas em conflito com fazendeiros ou madeireiros no país e disse que é “impossível” para o governo prevenir esses casos.

“Infelizmente temos muita violência em relação aos povos indígenas, e numa tal dimensão que é impossível, a qualquer governo, poder prevenir situações da forma como elas se colocam”, declarou. Sobre a campanha da Survival International, Cardozo sugeriu que fosse mais de “conscientização”, já que “o governo está consciente dos problemas e fazendo aquilo que é possível”. Ele não especificou, no entanto, quais ações pontuais estariam sendo implementadas em defesa dos Awás.

Em janeiro deste ano, o Ministério Público Federal decidiu investigar a denúncia de que uma criança indígena Awá foi queimada viva por um madeireiro no interior do Maranhão. A Fundação Nacional do Índio declarou à época que se tratava de um “boato”.

Procurada desde segunda (23) pelo UOL, a Funai ainda não se pronunciou a respeito da campanha e das denúncias envolvendo os índios Awá.

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