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Após criticar apagões de FHC, Dilma enfrenta 4 blecautes causados por sistema sucateado

Gil Alessi

Do UOL, em São Paulo

2012-12-20T06:00:00

20/12/2012 06h00

Foi só a presidente Dilma Rousseff criticar a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pelos "sérios problemas de abastecimento e distribuição de energia" de então que seu próprio governo precisou enfrentar quatro grandes apagões seguidos. Desde que condenou os racionamentos de 2001, em 11 de setembro, diversos Estados brasileiros ficaram sem luz, e, apesar de o Ministério de Minas e Energia dizer que "há uma coincidência ruim nessa sequência de perturbações do sistema brasileiro", especialistas apontam sempre as mesmas razões para tanto blecaute: falta de uma manutenção preventiva pensada, investimentos insuficientes nos equipamentos, que já possuem meio século de existência e estão sucateados, e a necessidade urgente de uma revisão da lógica da rede elétrica.

“O sistema elétrico brasileiro está fragilizado. Grande parte das estações, dos geradores e das linhas de transmissão tem mais de 50 anos, e a conservação dos equipamentos é precária. E o problema não são apenas os equipamentos, mas o modo como a rede opera: uma falha simples em uma subestação acaba derrubando uma linha inteira", avalia o professor Ildo Sauer, do IEE (Instituto de Eletrotécnica e Energia) da Universidade de São Paulo, especialista em fontes energéticas. 

Para ele, nada justifica os apagões senão a ausência de uma estratégia de "prevenção centrada em confiabilidade". Ou seja, de um método integrado que preveja as falhas, garanta a funcionalidade e o desempenho exigido pelo equipamento e traga maior eficiência do sistema, minimizando o custo do ciclo de vida.

O diretor da Coppe (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro) Luiz Pinguelli Rosa concorda: a atual rede elétrica nacional, que coloca polos geradores de energia distantes dos grandes centros consumidores, facilita a ocorrência de problemas. “Temos linhas de transmissão enormes, que atravessam Estados inteiros, por isso é preciso uma atenção especial à manutenção”, diz. 

Ele também ressalta que falta revisão da engenharia adotada pelas empresas do setor. "Muitas concessionárias estão com uma mentalidade de obter apenas o lucro. Mas o setor elétrico está a serviço da sociedade.” 

Raio pode ter provocado apagão que atingiu vários estados

Histórico dos apagões

Em 22 de setembro, onze dias após o discurso de Dilma, um apagão atingiu oito dos nove Estados do Nordeste. A causa foi um incêndio na subestação de Imperatriz (MA).

No dia 2 de outubro, outro apagão deixou cinco Estados das regiões Sudeste e Centro-Oeste no escuro. A falha teria ocorrido em um dos transformadores de aterramento de uma subestação da usina hidrelétrica de Furnas, em Minas Gerais.

Em 26 de outubro novo blecaute, desta vez atingindo onze Estados das regiões Norte e Nordeste do país. A causa do apagão foi novamente um incêndio em equipamento entre as subestações de Colinas (TO) e Imperatriz (MA).

No sábado (15), uma falha na usina hidrelétrica Itumbiara, localizada na divisa de Goiás com Minas Gerais, foi responsável por um apagão que atingiu 15 Estados e deixou cerca de 3,5 milhões de pessoas sem energia. A hidrelétrica é de propriedade da Eletrobras Furnas.

O problema teria sido provocado por um raio que atingiu a linha de transmissão, automaticamente desligada pelos disjuntores da subestação. Algumas das turbinas da usina teriam parado de funcionar, e o sistema de segurança desligou os geradores, cortando o fornecimento de energia.

O diretor-geral da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), Nelson Hubner, disse, dois dias depois, que "o arranjo da subestação de Itumbiara é muito ruim, desatualizado". 

Já Hermes Chipp, diretor-geral do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), afirmou que a “manutenção e a operação” da usina estavam em dia, mas admitiu que atualizações na rede são necessárias. Para ele, em algumas situações, o sistema elétrico precisa “correr riscos de falhas” para que haja equilíbrio entre a segurança e os custos.

“Não dá para executar todas as obras recomendadas ao mesmo tempo porque, se não, a tarifa vai lá para cima.”

O secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, disse na terça-feira (18) que 22 subestações de energia foram visitadas por técnicos desde novembro. De acordo com ele, das cerca de 300 subestações existentes, 40 consideradas prioritárias deverão ser checadas até janeiro.

Levantamento feito pela Empresa de Pesquisa Energética em novembro apontou que o setor elétrico teria de investir R$ 268,8 bilhões até 2021 para evitar o risco de apagões. Para atender à demanda futura, o país precisaria gastar cerca de R$ 213 bilhões na construção de 65,4 mil MW em usinas (algo como seis hidrelétricas de Belo Monte). Além disso, o país vai precisar aplicar R$ 55,8 bilhões na construção de 47,7 mil quilômetros de linhas de transmissão no território nacional -o mesmo que instalar oito linhões de transmissão de energia ligando o Oiapoque (AP) ao Chuí (RS).  

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