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'Tentei salvá-la, mas a pele do braço dela começou a sair', diz estudante que ajudou no resgate em Santa Maria

Ezequiel Corte Real (ao centro) carrega corpo de vítima no incêndio da boate Kiss, no domingo (27) - Germano Roratto/Agência RBS
Ezequiel Corte Real (ao centro) carrega corpo de vítima no incêndio da boate Kiss, no domingo (27) Imagem: Germano Roratto/Agência RBS

Renan Antunes de Oliveira

Do UOL, em Santa Maria (RS)

31/01/2013 13h25

A foto dele carregando uma das vítimas do incêndio em Santa Maria (RS) correu o mundo. Ezequiel Corte Real, 23, reapareceu nesta quinta (31) ao meio-dia na frente da boate Kiss e disse que o homem que ele levou para fora da casa noturna teria morrido, sem revelar seu nome, pedido feito pela família da vítima.

"A irmã dele, Bruna, me ligou hoje para agradecer minha tentativa", afirmou, acrescentando que não sabe quando ocorreu a morte.

O estudante de educação física da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) disse que não gosta de voltar ao local da tragédia: "Parece o inferno, me lembra uma guerra".

Corte Real reconta o drama das primeiras horas após o início do fogo: "Eu saí da boate, respirei fundo e voltei, porque tinha muitos amigos meus lá dentro".

E continua: "Quando voltei, vi uma pilha de gente perto da porta do banheiro. O 'carinha' que eu peguei estava em cima e parecia morto. Eu tentei arrastá-lo, mas era muito pesado. Confesso que queria pegar uma menina que estava embaixo, gritando por socorro. Mas, quando fui pegá-la, a pele do braço dela começou a sair, foi horrível".

O estudante fala com voz baixa, os lábios trêmulos: "No meio da pilha de gente, com o braço de uma menina na mão, senti alguém agarrando minha perna, também pedindo para tirá-la de lá. Era outra menina. Tentei salvar mulheres primeiro porque me pareciam mais frágeis".

Ele conta que não teve força para resgatar as duas por causa do homem mais pesado sobre elas. Foi então que ele o pegou no colo e saiu da boate: "Era um sujeito maior do que eu". Corte Real mede 1,80 m e pesa 90 quilos.

Carregou o homem no colo por 70 metros, até o alto da rua dos Andradas: "Quando cheguei lá em cima, um carro da polícia estava com a porta aberta e eu o botei lá dentro. Eles o levaram para o hospital".

Disse que já esperava que o homem fosse morrer "porque ele não tinha nenhum sinal vital aparente". "As outras vítimas gemiam, pediam socorro, gritavam. Ele não emitiu nenhum som."

O estudante contou que ele e um amigo voltaram à Kiss para ajudar no resgate das vítimas, trazendo para fora cerca de 30 pessoas, entre mortos e feridos. Mais tarde, soube que uma prima dele também morreu na boate.

Ele está fazendo tratamento psicológico para enfrentar o sofrimento e não sabe se vai retornar às aulas na UFSM: "A perda dos amigos de forma tão trágica foi forte demais para mim".

Cotidiano