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Após morte de outro jovem, manifestantes e PM voltam a se enfrentar na zona norte de SP

Gil Alessi

Do UOL, em São Paulo

2013-10-29T15:13:20

2013-10-29T20:24:45

29/10/2013 15h13Atualizada em 29/10/2013 20h24

As ruas da zona norte de São Paulo voltaram a ser palco de confronto entre manifestantes e policiais militares no início da tarde desta terça-feira (29). Desta vez, o protesto ocorreu no Parque Novo Mundo, que fica a poucos quilômetros da Vila Medeiros, cenário das manifestações realizadas na segunda-feira (28) por conta da morte do adolescente Douglas Rodrigues, 17, baleado por um policial militar no domingo (27). O motivo do protesto de hoje foi a morte de outro jovem, Jean Silva, também de 17 anos.

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Os manifestantes colocaram fogo em lixo e montaram barricadas. O Batalhão de Choque usou bombas de efeito moral contra o grupo, que atirou pedras contra os policiais. Alguns focos de incêndio se formaram nas ruas do bairro.

A reportagem do UOL presenciou ao menos quatro carros da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) circulando na região. Policiais militares chegaram a entrar em um conjunto residencial Cingapura. Por volta de 15h15, os policiais militares já haviam deixado a região.

De acordo com relatos de moradores que não quiseram se identificar, o protesto foi realizado por conta da morte de Jean, que teria sido morto por um policial militar na manhã de hoje. Um morador afirmou que ele foi baleado por um homem que estava em um carro preto.

Já a PM informa que o jovem foi morto em uma troca de tiros com o soldado Pedro Henrique Santos da Silva. Segundo o Boletim de Ocorrência registrado no 90º DP (Parque Novo Mundo) pelo próprio soldado, Jean o abordou enquanto ia ao trabalho de carro. O policial relatou que seu GPS indicou um caminho errado e ele foi parar na avenida Tenente Amaro Felicíssimo da Silveira, no Parque Novo Mundo.

Na avenida, o jovem de 17 anos teria anunciado o assalto. O soldado relatou que o adolescente teria apontado a arma e pedido para ele descer do carro. Logo após deixar o veículo, o policial sacou a pistola .40 e deu voz de prisão ao jovem, que atirou e fugiu. Pedro revidou e baleou o suspeito. 

Segundo a versão do soldado registrada no B.O., após a troca de tiros outro homem apareceu e fez disparos contra ele. O PM diz que atirou contra o homem, mas não soube informar se os tiros o acertaram. Ainda de acordo com informações do B.O., o carro do PM foi atingido por dois tiros.

Com Jean foi encontrada uma arma calibre 32 com o número de série raspado. Segundo a Polícia Civil, ele tinha passagem por ato infracional.

Governo federal e de SP se unem

Após conversar com o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou que irá se reunir na próxima quinta, em Brasília, com os secretários de Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella Vieira, e do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, para "discutir medidas de segurança pública para evitar atos de vandalismo".

Protestos em São Paulo
Protestos em São Paulo
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Segundo o ministro, o objetivo é traçar uma estratégica conjunta entre a Polícia Rodoviária Federal e as polícias estaduais para dar uma resposta mais ágil aos atos de vandalismo. A intenção dele é envolver também o Ministério Público e o Judiciário.

Vila Medeiros 

Na Vila Medeiros, comerciantes fecharam as portas e o policiamento foi reforçado na avenida Edu Chaves, na mesma região que foi palco do protesto que terminou com veículos incendiados e lojas saqueadas na noite de ontem (29). A manifestação foi realizada por conta da morte do jovem Douglas Rodrigues, 17, baleado por um policial militar, e terminou com 90 pessoas detidas --apenas duas ainda permanecem presas.

A maioria dos comércios fechou as portas por volta de 12h após circular um boato de que um novo protesto será realizado às 14h. “Estamos fechando com medo de quebra-quebra”, diz Sandro Luiz, 34, balconista de um mercado.

A reportagem do UOL presenciou um carro da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), grupamento de elite da PM, circular pela avenida, além de três motos da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motociclista). Policiais de uma base comunitária móvel da PM que fica na avenida confirmaram que o boato se espalhou e disseram que “o comando [da PM] já foi avisado”.

Moradores criticam vandalismo

Mais cedo, nas avenidas Mendes da Rocha e Roland Garros, o clima era mais tranquilo, com a maior parte das lojas funcionando normalmente. Mas a morte de Douglas ainda causava consternação entre os moradores.

“Que protesto é esse com gente andando com televisão saqueada embaixo do braço? Depredação não vai trazer o Douglas de volta”, diz o estudante Fernando Santana, 21, que conhecia a vítima de partidas de futebol amistosas. “Muita gente que estava saqueando e depredando nem conhecia o Douglas e nem era aqui do bairro.”

As agências do Itaú e da Caixa Econômica Federal, que tiveram suas vidraças quebradas ontem, funcionavam normalmente nesta terça-feira (29).

“O quebra-quebra de ontem à noite mancha a memória do Douglas. O bairro já não é bem falado por causa da violência e, com os protestos de ontem, já já vão achar que aqui é o Rio de Janeiro”, disse a funcionária da escola.

Uma pessoa foi baleada no protesto de ontem no momento em que um grupo realizava saques. Segundo a PM, uma pessoa atirou para cima e a bala acabou atingindo Silas Barbosa de Oliveira, que passava pelo local, no abdômen. Ele foi levado ao Hospital São Luiz Gonzaga, no Jaçanã, onde foi submetido a uma cirurgia.

De acordo com a assessoria de imprensa da Santa Casa, a cirurgia foi bem sucedida e o paciente está em observação, sem previsão de alta.

O Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de São Paulo informou que quatro ônibus foram incendiados no protesto da última segunda (28), o que provocou um prejuízo de R$ 1,2 milhão a duas empresas: as viações Vila Galvão e Atibaia.

Abordagem policial

Jovens do bairro relataram que abordagens policiais, com arma apontada ao rosto, em desacordo com o manual de conduta da Polícia Militar, são comuns no bairro. “Sempre que me enquadram já saem com a pistola mirando minha cabeça”, afirmou o jovem G.C., 17 anos, que preferiu não se identificar.

Durante o tempo em que permaneceu no bairro, a reportagem viu apenas dois carros da Polícia Civil circulando pelo local. Ontem, o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella, havia dito que iria reforçar o efetivo na Vila Medeiros e chegou a conversar com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, sobre uma ação conjunta.

Nesta terça-feira, a cúpula da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo irá se reunir com representantes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para definir as ações que irão tomadas. A rodovia Fernão Dias, palco principal dos protestos na zona norte, é interestadual (Com Estadão Conteúdo).

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