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Dois anos após sumiço, família ainda sonha enterrar corpo de Amarildo

Desde o desaparecimento, a vida de Bete e dos seis filhos deu uma reviravolta. De dona de casa, ela passou a representante das vítimas da violência policial em favelas - Zulmair Rocha/UOL
Desde o desaparecimento, a vida de Bete e dos seis filhos deu uma reviravolta. De dona de casa, ela passou a representante das vítimas da violência policial em favelas Imagem: Zulmair Rocha/UOL

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

14/07/2015 06h00

Dois anos após a morte do marido, Elizabete Gomes da Silva, 50, e os filhos ainda se perguntam “onde está Amarildo”. O ajudante de pedreiro Amarildo de Souza desapareceu depois de ter sido levado algemado por PMs da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, no dia 14 de julho de 2013. Apesar dos policiais estarem presos, a localização do corpo permanece um mistério.

De lá para cá, a vida de Bete e dos seis filhos deu uma reviravolta. De dona de casa, ela passou a representante das vítimas da violência policial em favelas. No começo de julho, foi à Alemanha falar sobre o tema –antes, viajou a Brasília, Belo Horizonte e São Paulo para participar de encontros organizados por ONGs de direitos humanos. ”Aprendi que você gritar pelos seus direitos não é crime. Quantos Amarildos não desapareceram? O medo faz você calar a boca.”

Bete Amarildo - Zulmair Rocha/UOL - Zulmair Rocha/UOL
"Aprendi que você gritar pelos seus direitos não é crime. O medo faz você calar a boca", diz Bete, viúva de Amarildo
Imagem: Zulmair Rocha/UOL
A família, que dividia um quarto e sala construído por Amarildo e, depois da morte, chegou a morar com outras dez pessoas na casa da irmã do ajudante de pedreiro, hoje vive uma pequena casa de dois quartos em uma viela vizinha à cunhada, também na Rocinha. A casa foi comprada por R$ 60 mil, fruto de um leilão organizado por Caetano Veloso e Paula Lavigne.

Bete divide um quarto com os três filhos mais novos, de oito, 12 e 15 anos, enquanto os dois filhos mais velhos, de 22 e 23 anos, dividem outro. Amarildo, 20, dorme na lavanderia, sem janelas, transformada em dormitório. A sala é decorada com um pôster de cerca de dois metros com o desenho do ajudante de pedreiro, presente de um artista plástico.

Ela sustenta a família com o salário mínimo que recebe mensalmente de pensão do governo do Estado mais os R$ 174 do Bolsa Família por ter três filhos em idade escolar. Volta e meia, faz alguns serviços de faxina e passa roupas para complementar a renda, mas diz que o desaparecimento de Amarildo ainda toma muito de seu tempo. “Tem sempre alguma coisa para resolver. É uma entrevista, uma audiência na Justiça, e ainda preciso levar as crianças para escola, fazer comida, limpar a casa.”

Ao contrário da época em que o ajudante de pedreiro desapareceu, Bete já caminha sozinha pela favela, mas segue com medo da polícia. “Qualquer barulho eu acordo. Não confio nesses homens, eles são muito covardes.” Ela conta que em junho, quando ocorreu uma megaoperação policial na Rocinha em que um adolescente foi atingido no rosto por uma bala perdida, cruzou com um grupo de PMs perto de sua casa. Ao vê-la, diz, eles baixaram a voz e comentaram que nada podia acontecer com a “viúva de Amarildo”.

Família Amarildo - Marco Antonio Teixeira/UOL - Marco Antonio Teixeira/UOL
Em 2013, Bete e os filhos foram morar com a irmã de Amarildo em uma casa com outras dez pessoas
Imagem: Marco Antonio Teixeira/UOL
Perto do aniversário de um ano da morte do marido, no ano passado, Bete chegou a desaparecer por dez dias. Preocupados, os filhos procuraram a polícia, que a encontrou em uma casa alugada em Cabo Frio, na Região dos Lagos. “Fui para lá esfriar a cabeça. Estava em tempo de cavar um buraco e me enterrar, queria fugir. Agora, se vou até Macaé, aviso todo mundo.”

A suspeita de que o corpo do marido possa ter sido retirado da favela pelo Bope (Batalhão de Operações Especiais), levantada pelo Ministério Público, é, em parte um alívio, já que aponta para uma solução do caso, e em parte uma dor. Bete acredita que, caso isso tenha mesma acontecido, jamais encontrarão os restos mortais do ajudante de pedreiro.

Em novembro, no último Dia de Finados, ela e a família fizeram uma pequena cerimônia ao lado da UPP, no local em que Amarildo foi visto pela última vez. Acenderam velas, rezaram uma missa e jogaram um boneco com o rosto coberto por um saco plástico preto na mata. “A gente não tinha como ir no cemitério”, diz. “Jogamos o boneco onde achamos que ele podia ter sido enterrado.”

Além da resposta à pergunta que ecoa pela Rocinha desde o dia 14 de julho de 2013, Bete ainda espera receber uma indenização do Estado pela morte –apesar de a Justiça ter determinado no processo que o desaparecimento de Amarildo “se deu por ação de policiais militares”, o governo do Rio segue recorrendo da decisão. Com o dinheiro, planeja fazer uma janela no quarto do filho Amarildo, ir para a cidade em que nasceu, Natal, que não visita há 35 anos, e abrir um negócio de marmitas com os filhos.

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