Doria visita zonas em que teve pior votação, joga bola e ouve cobranças

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

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    O prefeito eleito de SP, João Doria Júnior, durante visita a Parelheiros

    O prefeito eleito de SP, João Doria Júnior, durante visita a Parelheiros

Calçando mocassim de couro marrom, João Doria Júnior (PSDB) pisou pela primeira vez o chão, ora de asfalto, ora de terra, de uma área da periferia da capital paulista após ser eleito, em primeiro turno, prefeito de São Paulo. Durante a campanha, disse que até então não conhecia a região, onde falta infraestrutura de toda sorte, e falou ter sido tocado com o que viu, ao anunciar que faria um governo voltado para os mais pobres.

Nesta terça-feira (18), ele visitou bairros do extremo sul da periferia paulistana. Primeiro foi a Parelheiros, depois a Vargem Grande e, por último, ao Grajaú, distantes até 50 km do centro da cidade, para "agradecer", como disse, pelo apoio que recebeu. Voltou a repetir que a periferia estará no centro das suas preocupações e projetos, com especial atenção para a saúde.

As áreas escolhidas para a primeira visita como prefeito eleito foram as únicas duas zonas eleitorais, de um total de 58, em que Doria foi derrotado. Em ambas (Parelheiros inclui Vargem Grande), quem ficou à frente foi Marta Suplicy (PMDB).

O trajeto percorrido rendeu um corpo a corpo a pé com a população pelas ruas principais de comércio dos bairros. Visitou estabelecimentos, como padarias, bares, mercados, lojas de aviamentos e de roupas. Abraçou, beijou; foi abraçado e beijado. Ouviu elogios ("sou sua fã", disse a moça sorridente), mas também teve de ouvir cobranças das promessas feitas e ainda outras demandas, agora como prefeito eleito, não mais como candidato.

Eduardo Knapp/Folhapress
Doria joga bola com crianças em Vargem Grande
"Lança uma pista de skate pra gente. Aqui não tem nenhuma", ouviu de um jovem de boné e skate debaixo do braço. "Vai dar uma atenção pra Parelheiros? Foi eleito e agora tem que trabalhar", cobrou outra moradora.

Doria tentou ser simpático, dizendo que vai "trabalhar" e repetindo o mote da campanha de "João trabalhador". Cumprimenta muita gente e até elogia uma moça.

"Não decepciona a gente, Doria. Em casa todo mundo votou em você", diz outra moradora. "Ajuda 'nóis'", grita um rapaz, na rua.

No Grajaú, ao abraçar um homem já idoso, teve de ouvir uma irreverência: "Mas você não é bonito como dizem, não, viu?". Doria desconversou, apenas dizendo "Vamos trabalhar, vamos trabalhar".

Numa das saídas de uma loja de roupas em Parelheiros, uma mulher cobrou, em voz alta, criticando o séquito majoritariamente masculino que o acompanhava, entre eles, ao menos três vereadores, Ricardo Nunes (PMDB), Milton Leite (DEM) e José Turin (PHS). "Gente, cadê a mulherada? Tá faltando mulher."

Josefa Dionisa Barbosa, que disse que toda a família tinha votado no Doria ("aqui ninguém é do PT"), explicou o que de fato espera dele: "Queremos melhoras na escola e na saúde. Tem mais de ano que não consigo passar num médico".

Ao lado dela, Ebeneval Nascimento Andrade, afastado do trabalho por motivo de saúde, faz ressalvas quanto às chances da população pobre com o futuro prefeito: "Prometer é uma coisa, fazer é outra".

Mais à frente no trajeto, outra mulher se queixa da baixa qualidade da saúde: "A gente espera que o senhor trate bem essa região. O Hospital Municipal de Parelheiros está sem médico", aponta.

Guilherme Azevedo/UOL
Jair Rodrigues Souto e Everton da Silva Oliveira com Doria: 'É nóis'

Jair Rodrigues Souto e Everton da Silva Oliveira, já embalados pela cachaça farta, comemoram terem abraçado o prefeito eleito como se amigos fossem. Agora se abraçam e gargalham: "É isso o que vale, maluco! É nóis com o Doria, 'carai'", diz Jair.

Depois de passar por Vargem Grande, onde bateu bola com a molecada e fez algumas embaixadinhas, Doria chegou ao Grajaú já no fim da tarde. Começou a visita por um comércio de salgadinhos do bairro e fez pose com uma coxinha de galinha, mote já tratado na campanha de assumir com bom humor a qualificação pejorativa dada a ele.

Foi recebido no Grajaú por uma militância ruidosa, que cantava e bradava em seu apoio. "Doria! Doria! Doria! Aqui é Grajaú! Tamo junto!"

Parte dessa militância era feminina, de gente que apoia o PSDB há mais de 20 anos. Como as irmãs Selma Mariana Gonçalves e Neusa Maria de Araújo. Selma reconhece problemas das gestões do PSDB, mas disse que não abandona o partido. Ela afirma que, com Doria, "a hora da periferia chegou". "Mas espero que ele fique os quatro anos e não faça como o Serra [o tucano José Serra, ex-prefeito da capital paulista e hoje ministro, que deixou o cargo de prefeito em 2006 depois de dois anos, apesar de ter prometido que cumpriria o mandato por inteiro]".

Guilherme Azevedo/UOL
Selma Mariana Gonçalves e o sobrinho Bruno Felipe Barreto: apoio a Doria

Neusa Araújo, que é presidente do diretório regional do PSDB no Grajaú, disse acreditar "no projeto de Doria". "Ele fala olhando nos olhos da gente e eu acredito em gente assim. Os olhos falam muito."

A professora Sônia Lins, que trabalha numa creche municipal do bairro, pede para melhorar os baixos salários pagos aos professores. "Um camelô ganha mais do que um professor, pode? A gente trabalha mesmo é só por amor."

Maria Reis e Maria Luisa foram tentar levar sua demanda ao prefeito eleito, mas não chegaram muito próximas, não. Moradoras de uma área ocupada há mais de 30 anos, reclamam do problema que nunca se resolve, quando chega a estação das chuvas: a enchente, motivada pelo córrego que vaza e invade as casas. "Dois filhos meus já pegaram meningite por causa do córrego", reclama Maria Reis.

"Não adianta vir aqui e ficar só tirando fotos, tem que falar do que é preciso, tratar dos problemas da gente. Tem que canalizar o córrego", complementa Maria Luisa. 

João Doria se estira para fora do automóvel negro que o trouxe até aqui. Acena, sorri. Promete voltar. Promete fazer. O carro acelera e parte.

As Marias voltam a pé para as suas casas de blocos vermelhos aparentes, uma bem do lado do córrego escuro, poluído e fedido, outra na rua de cima. Temem pela chuva, que já logo vem. O tempo é hoje.

Guilherme Azevedo/UOL
Maria Reis e Maria Luisa cobram a canalização do córrego, que inunda todo ano

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