Sob onda de violência, cidade do ES parecia "Walking Dead", diz comerciante

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

  • Gilson Borba/Futura Press/Estadão Conteúdo

    Comércio fechado na Vila Rubim, em Vitória

    Comércio fechado na Vila Rubim, em Vitória

Sem polícia nas ruas, o Espírito Santo foi palco nos últimos três dias de uma onda de violência que deixou dezenas de mortos, prejuízos para comerciantes cujas lojas foram saqueadas e uma população acuada dentro de casa. Na principal região comercial da cidade de Serra, na grande Vitória, o cenário de ruas vazias e depredação deixou um clima apocalíptico no ar.

"Comparado a uma segunda-feira normal, parecia 'The Walking Dead'", disse ao UOL o comerciante Josmar Balista, citando a série de TV em que os zumbis dominam o mundo.

Balista é dono de uma franquia, e pela primeira vez em dois anos não abriu as portas em um dia útil. A preocupação com o risco de saques e vandalismo o fez ir rapidamente à loja pela manhã para retirar alguns objetos de valor. Passou o resto do dia em casa.

"Fui com minha irmã, um ficava vigiando enquanto o outro buscava as coisas. Não levei aliança, celular, documentos, nada", disse.

"Eles querem mostrar que dominam"

Segundo o comerciante, os assaltantes que aproveitaram a ausência de policiais no Estado tiveram como principais alvos lojas de eletrodomésticos e celulares, além das que vendem roupas e acessórios de marcas famosas. Carros roubados e depois abandonados completam o cenário na cidade.

"O clima é de muita tensão. Eles [os bandidos] querem mostrar para a população que eles dominam", afirmou Balista.

O comerciante contou que a cidade foi pega de surpresa pela onda de violência. No fim de semana, Balista visitou amigos, sem indicativo da gravidade da situação.

"A ficha só foi cair ontem (domingo) à noite, quando começaram a pipocar os vídeos", disse. "Quase não dormi."

Apesar de o governo federal ter enviado homens das Forças Armadas e da Força Nacional para o Espírito Santo, o comerciante não pretende reabrir sua loja já nesta terça (7).

"É um momento de muita incerteza", afirmou.

Aulas e serviço de saúde são suspensos em Vitória

Entenda a crise no Espírito Santo

No sábado (4), parentes de policiais militares do Espírito Santo montaram acampamento em frente a batalhões da corporação em todo o Estado. Eles reivindicam melhores salários e condições de trabalho para os profissionais. Desde então, sem patrulhamento nas ruas, uma onda de violência tomou diversas cidades. 

A Justiça do Espírito Santo declarou ilegal o movimento dos familiares dos PMs. Segundo o desembargador Robson Luiz Albanez, a proibição de saída dos policiais caracteriza uma tentativa de greve por parte deles. A Constituição não permite que militares façam greve. As associações que representam os policiais deverão pagar multa de R$ 100 mil caso a decisão seja descumprida.

A ACS-ES (Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiro Militar do Espírito Santo) afirma não ter relação com o movimento. De acordo com o cabo Thiago Bicalho, do 7º Batalhão da Polícia Militar do Estado e diretor Social e de Relações Públicas da associação, os policiais capixabas estão há sete anos sem aumento, e há três anos não se repõe no salário a perda pela inflação.

Segundo o secretário estadual de Segurança Pública, André Garcia, as negociações sobre salários e condições de trabalho de policiais serão feitas apenas quando o patrulhamento na rua for retomado e a situação estiver controlada.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse nesta segunda (6) em Vitória que militares das Forças Armadas ficarão no Espírito Santo durante o "tempo necessário" para que a ordem no Estado seja restabelecida. O governo capixaba anunciou que, até terça, 1.200 militares das Forças Armadas farão o patrulhamento em todo o Estado. O Ministério da Justiça anunciou o envio de 200 homens da Força Nacional.

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