"Perdi o emprego, ia fazer o quê?", diz homem que encara a crise com venda de lanches

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

  • Reinaldo Canato/UOL

    O casal Marlei Nascimento Leitão, 28, e Leidiane Inácia Soares, 25, no Jardim Pantanal

    O casal Marlei Nascimento Leitão, 28, e Leidiane Inácia Soares, 25, no Jardim Pantanal

O desemprego e a gravidez foram o estímulo para que o casal Marlei Nascimento Leitão, 28, e Leidiane Inácia Soares, 25, empreendesse sua volta por cima, rejeitando a crise. "Aconteceu, fiquei desempregado, ia fazer o quê? Pensei: sou pai de família, tenho mulher e a minha filha está para nascer. Comprei o carrinho de lanches e meti o pé", conta Marlei, um migrante que veio da Bahia ainda criança, cresceu e vive no Jardim Pantanal, bairro pobre no extremo leste da cidade de São Paulo, situado na várzea do rio Tietê e que todos os anos, na época da chuva, sofre com as inundações. A filha, Laura Sophia, completa um ano no dia em que recebe a reportagem. Bochechuda, se movimenta no colo da mãe, que acabou de buscá-la na creche.

Os dois trabalham juntos fazendo e vendendo lanches e bolos nas feiras livres da região do Jardim Pantanal, sobretudo no Itaim Paulista, bairro vizinho, e também na porta de casa. Marlei cuida dos lanches, do churrasco e do caldo de mocotó; Leidiane prepara os bolos, de variados tipos. Vão para a rua às terças, quartas e quintas-feiras e aos sábados e domingos. Laura Sophia vai junto e fica estirada no chão sobre o lençol, porque eles saem de madrugada de casa e a creche onde ela passa o dia ainda não abriu.

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O avental personalizado botou Ys nos nomes
Dizem estar indo muito bem: "Se tudo vai bem, dá para tirar até R$ 5.000 por mês", sorri Marlei, os olhos verdes brilhando na porta da casa. Ele já adquiriu um automóvel Gol, onde carrega a tralha da barraca da Lanches Marley e Leidyane (os Ys foram por conta do autor do logotipo, inscrito no avental azul que trajam com orgulho). "Quando a gente chega à feira, encontra a nossa família."

O caminho, claro, tem pedras: "Teve um dia, quando ainda a gente estava começando, que o carrinho tombou com tudo dentro e quebrou tudo, as garrafas. A gente voltou chorando", lembra o rapaz. "O Diabo quer me parar, mas não vou desistir."

"A criançada da periferia cresce vendo tudo de ruim"

Por causa do início do relacionamento com Leidiane, de olhos grandes, negros e redondos, ele diz que sua vida ganhou outro foco. "Diziam que eu ia estragar ela, mas ela apostou em mim e me consertou. Sou um sujeito bom, agora tenho que passar algo de bom para alguém."

Marlei diz que faltou pouco para não se perder, como tantos outros de sua idade, tantos deles seus amigos, que viu se desencaminharem pelo bairro. Foi usuário de maconha e cocaína, assediado para entrar para o "corre", a vida no crime, mas persistiu e hoje não usa drogas, apegado à palavra de Deus, na igreja Ministério da Chegada de Cristo.

"A criançada da periferia cresce sabendo e vendo tudo de ruim", ressalta, lembrando a infância, quando trabalhava com carrinho catando papel e papelão e vira e mexe alguém do crime o obrigava a transportar algum cadáver de gente do bairro, morta em decorrência de violência, para a desova. "Eu largava o carrinho e tudo, não ia pôr a mão em gente morta, não."

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As garrafas térmicas na cozinha do casal: logo mais serão preenchidas com café

Marlei estudou até o sétimo ano do ensino fundamental, Leidiane foi mais longe: concluiu o ensino médio. "Queria fazer pedagogia, virar professora e ajudar as pessoas. Com esse trabalho agora, quero fazer faculdade de gastronomia. Vou prestar o Enem [Exame Nacional do Ensino Médio] e tentar o Fies [Fundo de Financiamento Estudantil]", projeta. "A gente quer fazer cursos para melhorar."

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O Jardim Pantanal, visto da janela da cozinha de Marlei e Leidiane: esgoto sem tratamento é despejado ali

Os dois se consideram um ponto fora da curva da população do bairro, que dizem não ter "a mesma atitude": muitos dali, contam, só ficam na porta de casa, não buscam alternativas para mudar de vida, num desalento que não tem fim. Mas não são exclusivamente culpados pela situação em que se encontram, avalia Leidiane.

"Tudo começa da escola, do estudo. Mas a escola está ruim, e os professores estão desestimulados. E assim se vai perpetuando a mesma história: as adolescentes logo engravidam, abandonam a escola, não trabalham e deixam os filhos com os pais. Ficam por aí, nas ruas."

Embora ela também tenha engravidado cedo (sua outra filha está com 9 anos e hoje vive com a mãe em Minas Gerais), a família se fez presente e severa, quando preciso. "Eu cresci dentro de casa, com meu pai me cobrando. Não podia ficar na rua, como as mães das outras meninas faziam."

A dificuldade com a crise econômica, o mau exemplo que vem dos políticos, envolvidos em corrupção, encontram pouco espaço no andar de cima da casa de número 56, situada de frente para um banhado verde na várzea do rio Tietê, onde o esgoto sem tratamento é despejado e crianças e bois se misturam, descalços. É trabalhar, amar e orar, com sinceridade.

Marlei olha para a caixa d'água no quintal, onde montou um aquário de peixes dourados e oxigenador motorizado. Ele gosta de ficar ali, distraído, e não vê o tempo passar. "Vem trabalhar, ó, homem!", chama da cozinha a mulher. É perto da meia-noite, hora de começar o preparo da comida, que precisa chegar fresquinha ainda de madrugada. O povo da feira espera por eles.

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Marlei e o automóvel para carregar a barraca de lanches: evolução

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