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Violência no Rio: "Assalto era com faca, hoje é com fuzil", diz criador do Disque Denúncia

Taís Vilela

Do UOL, no Rio

28/09/2017 04h00

"Antes era com faca, caco de vidro, hoje se assalta com fuzil." É assim que o engenheiro civil Zeca Borges descreve como a piora na segurança pública se reflete no cotidiano dos cariocas. Ele acompanha de perto os relatos tanto de vítimas como das testemunhas: ele é idealizador do Disque Denúncia, central especializada no recebimento de relatos de casos de violência do Estado do Rio de Janeiro.

Borges conta que, hoje, o projeto que criou recebe menos denúncias do que quando começou, mas que elas "são bem mais perigosas". Os atendentes, diz, às vezes se emocionam com as ocorrências: "Quando isso acontece, eles pedem para o atendente ao lado dar prosseguimento com o registro".

Este é segundo vídeo da série sobre a recente explosão de violência no Rio. No primeiro vídeo do projeto, a médica Flávia L. Rocha, que trabalha há nove meses na emergência da UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Cidade de Deus, na zona oeste da capital, afirmou que chegam cada vez mais casos de baleados e amputados no local. "De janeiro a julho deste ano, houve um aumento de 120% no número de feridos por bala se comparado a todo o ano passado."

A série reúne conversas com profissionais que lidam diretamente com vítimas dessa dolorosa realidade para mostrar como isso afeta a rotina de muitas pessoas. Médicos, psicólogos e coordenadores de projetos de combate ao crime falam das consequências de estar na linha de tiro e dão voz ao sentimento que ecoa em toda a sociedade. Nesta sexta, será a vez de dar voz a Reginaldo Franklin, diretor do Instituto Médico Legal Afrânio Peixoto, para onde vão alguns dos corpos de vítimas desta violência.

"Causou um trauma muito grande em todos aqui"

Alguns casos recebidos por eles ficaram famosos nos noticiários, como o do jornalista Tim Lopes, que foi morto na madrugada de 2 de junho de 2002, quando realizava uma reportagem sobre tráfico de drogas e abuso sexual em um baile funk na favela da Vila Cruzeiro, bairro da Penha: "Nós recebemos a descrição do crime antes da informação da morte dele".

Rememora também o caso do menino João Hélio, de seis anos, que morreu após ser arrastado por sete quilômetros enquanto estava preso a um cinto de segurança por ruas da zona norte do Rio: "Causou um trauma muito grande em todas as pessoas aqui".

O projeto existe há 22 anos e recebe mais de 10 mil denúncias por mês. As ligações são mantidas sob anonimato e repassadas às autoridades competentes. "Nós sabemos mais do que deveríamos saber sobre a situação do Rio de Janeiro. Todo dia há uma forma nova de violência inesperada. Como todos, ficamos com vontade de jogar a toalha", relata. Mas ele afirma que, "por trás de um resultado do Disque Denúncia, há sempre uma operação policial de sucesso".

Zeca Borges - Tais Vilela/UOL - Tais Vilela/UOL
O engenheiro civil Zeca Borges (de terno), idealizador do Disque Denúncia, acompanha o trabalho da equipe
Imagem: Tais Vilela/UOL

Violência

O medo no Rio de Janeiro se intensificou por conta de uma sangrenta disputa pelo controle do tráfico entre Antônio Bonfim Lopes, no Nem da Rocinha, e Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, que têm métodos diferentes para atuar na Rocinha.

Enquanto Nem era conhecido por seu perfil assistencialista, de ajuda à comunidade, Rogério 157 cobra "taxas de serviço", com tributos para quem atua com mototáxis, distribui botijões de gás ou vende água, fornecimentos importantes numa comunidade em que esses produtos têm dificuldade de serem entregues.

Os dois eram da mesma facção criminosa, mas romperam por conta das divergências.

Rogério 157 teve prisão preventiva decretada nesta quarta-feira (27), enquanto Nem continua preso na penitenciária federal de Porto Velho (RO), de onde, segunda a polícia, segue dando ordens a seus subordinados.