Violência no Rio

Rogério 157 anuncia rompimento com Nem em áudio obtido pela polícia: 'Quem fala agora é o Paizão'

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Divulgação

    Recompensa que leve à prisão de Rogério 157 foi ampliada para R$ 50 mil

    Recompensa que leve à prisão de Rogério 157 foi ampliada para R$ 50 mil

Rogério 157: "Mandou dar tiro na gente. Então não é mais nosso amigo. Não é mais nosso patrão. Papo é reto. Quem fala agora é o Paizão".

Traficante 2: "Nosso patrão é 157. Quem for contra vai entrar na vala".

O diálogo entre o traficante Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, um dos pivôs dos confrontos armados na Rocinha, e outro criminoso é um dos áudios obtidos pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, que investiga o racha entre ele e o ex-chefe do tráfico da Rocinha, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem. Capturado em frequência de rádio, o áudio indica, segundo investigadores, que Rogério trocou de facção criminosa após o rompimento com Nem, da ADA (Amigos dos Amigos).

De acordo com a investigação, neste e em outros áudios, Rogério deixa claro para seu grupo que rompeu de vez com o antigo aliado. Ex-segurança de Nem, Rogério 157, cuja recompensa por pistas que levem à sua prisão aumentou para R$ 50 mil, tornou-se seu inimigo ao se recusar a cumprir determinação de lhe devolver o controle das bocas de fumo. Mesmo preso, Nem segue dando ordens de dentro da penitenciária federal de Porto Velho (RO).

No último dia 17, Nem teria mandado invadir a Rocinha para retomar o controle do tráfico no local, o que provocou confrontos na região, ocupada por 950 militares das Forças Armadas na última sexta-feira (22). Familiares de Rogério 157 chegaram a negociar sua rendição com a Polícia Federal, mas o traficante teria desistido após o cerco militar por medo de ser morto em confronto.

Marcelo Sayo/EFE
Nem foi preso no porta-malas de um carro na Lagoa em 2011

A polícia diz que Rogério chegou a deixar a Rocinha, mas voltou à favela na madrugada de sábado (23). Um grupo de criminosos rendeu um taxista que relatou ter ido buscar o traficante no Horto, no Jardim Botânico, para levá-lo de volta à favela da zona sul. O motorista disse à polícia que, durante o trajeto, ouviu os suspeitos chamarem Rogério de "pai", mesma forma como o traficante se intitula no áudio.

O táxi se deparou com o cerco das forças de segurança. Houve confronto, mas os criminosos conseguiram fugir. Além de Rogério 157, a polícia diz que seu braço direito, o traficante Jaílson Barbosa Marinho, o Jabá, estava no carro. Cerca de duas horas depois do incidente com o táxi, criminosos do mesmo bando, que estavam na mata do Horto, renderam um motorista na rua Pacheco Leão, também no Jardim Botânico, com a mesma ordem de seguir para a Rocinha. Três bandidos foram presos.

A polícia achou a casa de Rogério 157 na Rocinha --ninguém foi encontrado no local. A residência de alto padrão, com equipamentos de última geração, contrasta com as casas da favela

Polícia encontra casa de luxo de Rogério 157 na Rocinha

O principal motivo da briga entre os traficantes, segundo informou ao UOL o chefe da DRE (Delegacia de Repressão a Entorpecentes), delegado Carlos Eduardo Thome, foi a criação de "taxas de serviço" para moradores e comerciantes. Os tributos instituídos pelo comando de Rogério 157 que, além da taxa que permite a operação dos mototaxistas, aplicam-se à distribuição do gás de botijão, à venda de água, entre outros serviços, causaram a fúria de Nem, que era conhecido pelo perfil assistencialista.

"O Rogério 157 estava implantando uma verdadeira milícia na favela da Rocinha. E isso, a facção, o chefe do tráfico, que é o Nem, não concordava. A partir daí, começou o desentendimento entre os criminosos", disse Thome. Apenas a cobrança dos mototaxistas rendia R$ 100 mil por mês a Rogério 157.

Agora, a polícia investiga se o grupo do traficante passou a integrar o CV (Comando Vermelho) --maior facção do Rio de Janeiro.

Desde o início do cerco militar, bandidos têm usado a região de mata, que circunda a comunidade e leva à floresta da Tijuca, para deixar a Rocinha e se deslocar para comunidades ligadas à nova facção, como no caso dos morros do Borel, da Formiga, do Salgueiro, localizados no bairro da Tijuca, zona norte da cidade.

Floresta da Tijuca é usada como rota fuga

O articulador cultural Júlio Barroso estava a caminho do Rock in Rio no início da tarde do último sábado (23) quando se deparou com pelo menos cem homens com armas de calibres variados. Ele resolveu ir para a Cidade do Rock, em Jacarepaguá, pela estrada do Sumaré, que corta área de mata e integra o maciço do Parque Nacional da Tijuca, também dá acesso ao Cristo Redentor.

Barroso relatou ter visto "um comboio de carros, picapes e caminhonetes, todos cheios de caras armados. Parecia o [filme] Mad Max: Estrada da Fúria. Fiquei surpreso que eram 14h de sábado e pela forma ostensiva".

Após a ocupação da Rocinha por homens do Exército, os confrontos se estenderam à floresta da Tijuca --a quarta maior área verde urbana do país. Pela mata, traficantes têm acesso a pelo menos 14 bairros da cidade.

Ainda no sábado, criminosos que escapavam do cerco da Rocinha trocaram tiros com policiais na Tijuca e no Alto da Boa Vista, na zona norte carioca. Nesta ação, quatro criminosos foram detidos e três suspeitos morreram. Um adolescente foi baleado em meio ao confronto.

Rogério 157 x Nem

Antonio Francisco Bonfim Lopes começou a frequentar a favela em 2000 quando precisou de R$ 20 mil para bancar o tratamento de uma doença rara da filha de um ano.

Durante quatro anos, se envolveu na segurança dos bandidos. Em 2004, assumiu o controle do tráfico, quando Lulu da Rocinha, então chefe, foi morto pela polícia.
Em 2010, o criminoso tentou forjar a própria morte. Queria começar uma vida nova longe do crime, mas o plano foi descoberto pela polícia.

No mesmo ano, no mês de agosto, comparsas de Nem foram surpreendidos na saída de um baile funk, no Morro do São Carlos, na zona norte. Na troca de tiros, uma mulher morreu. Durante a fuga, o bando invadiu o Hotel Intercontinental, em São Conrado, perto da Rocinha. Trinta e cinco pessoas foram feitas reféns, mas, por ordem de Nem, o grupo se entregou.

No bando estavam Ítalo Jesus, conhecido como Perninha e o então segurança de Nem, Rogério 157 que preso em flagrante, mas beneficiado por um habeas corpus em 2012. Rogério, que respondeu ao processo em liberdade, foi condenado e considerado foragido. Hoje, há 12 mandados de prisão contra ele.

Em 2011, Nem foi preso escondido no porta malas de um carro enquanto tentava deixar a Rocinha. Neste momento, Rogério assumiu o controle do tráfico. O estopim do conflito entre ambos se deu após Perninha, homem da confiança de Nem, aparecer morto --o grupo do traficante rival é suspeito do crime.

Tanques do Exército desembarcaram na sexta (22) na Rocinha

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