Os irmãos, o operário, o 1º: conheça vítimas enterradas em vala clandestina durante a ditadura

Aiuri Rebelllo

Do UOL, em São Paulo

  • Amanda Perobelli/UOL

    "Trago em meu corpo as marcas do meu tempo", diz a placa em homenagem às vítimas da ditadura militar no cemitério Dom Bosco, em Perus (SP)

    "Trago em meu corpo as marcas do meu tempo", diz a placa em homenagem às vítimas da ditadura militar no cemitério Dom Bosco, em Perus (SP)

O totem de concreto solitário foi erguido com aproximadamente um metro e meio de altura. No topo, traz uma placa de metal onde estão gravados 31 dos literalmente milhares de nomes que pretende homenagear. É cercado por mudas ainda raquíticas e secas, colocadas ali para um dia virarem um pequeno bosque de ipês amarelos.

O tributo é discreto e pode tranquilamente passar despercebido por quem não souber de antemão que está ali, no gramado ao lado do prédio da administração e dos velórios no Cemitério Municipal Dom Bosco, em Perus, em uma área remota da zona norte da capital paulista. 

O memorial foi inaugurado no início deste mês pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente e pelo Serviço Funerário do Município de São Paulo. Homenageia vítimas da ditadura na capital paulista que desapareceram e foram jogadas ali, a cerca de 300 metros do totem, na vala clandestina onde foram descobertos mais de mil corpos. A placa traz o seguinte texto:

"Neste cemitério foram sepultadas vítimas da repressão numa época em que as forças do Estado reservavam-se o direito de torturar e matar quem ousasse defender a democracia. Enterrados às pressas, quase sempre como desconhecidos, sob o manto de um esquema perverso de ocultação de cadáveres implantado com a colaboração da prefeitura e seus servidores".

"Essa é uma homenagem da Prefeitura de São Paulo aos mortos e desaparecidos da ditadura militar cujos corpos, identificados ou não, foram acolhidos por este solo em sua trajetória de resistência e esperança", segue o texto da placa.

Além de Perus, receberão o memorial até o final de outubro os cemitérios de Campo Grande (zona sul da cidade) e Vila Formosa (zona leste). Em comum, os três locais abrigavam valas coletivas clandestinas, usadas por agentes da repressão para sumir com os corpos de presos políticos assassinados, invariavelmente sem chance de defesa após sessões de tortura ou emboscadas.

Todos os homenageados eram militantes de partidos, sindicatos ou organizações de esquerda. Muitos entraram para a luta armada, outros apenas exerciam o direito negado de discordar do governo militar. A maioria era jovem, com menos de 30 anos. Todos foram assassinados sem chance de defesa. Em todos os casos, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do governo federal, instaurada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), reconheceu a culpa do Estado brasileiro nas mortes.

Cenário de holocausto: mil corpos na vala comum

L.C Leite/Folhapress
4.set.1990 - Uma das mais de mil ossadas achadas na vala comum de Perus

Em Perus, a vala clandestina foi oficialmente aberta em 1990 --embora já houvesse sido descoberta em 1989-- na gestão de Luiza Erundina (então PT, hoje PSOL). Há muitos anos sabia-se que várias vítimas tinham sido jogadas lá. Foram encontradas 1.049 ossadas sem identificação. Além dos presos políticos, eram desovados ali vítimas dos esquadrões da morte e indigentes em geral.

Na época, a prefeitura fez um convênio com a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) para estudo das ossadas. Foram identificadas apenas 12 pessoas. Em 2002, as ossadas foram levadas para o Cemitério do Araçá, em São Paulo, sob responsabilidade da USP (Universidade de São Paulo).

Em 2014, uma parceria da então Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, da SMDHC (Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo) e da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) retomou o trabalho de identificação.

A maior parte dos restos mortais da vala jamais foi identificada. Documentos encontrados no próprio cemitério ou registros achados pelos familiares ou pelas comissões de mortos e desaparecidos, assim como documentos do regime militar, atestam que eles foram sepultados nesses locais.

Abaixo, conheça algumas dentre milhares de vidas anônimas que encontraram o fim de suas histórias na vala clandestina de Perus.

Arte/UOL
Montagem mostra retratos de vítimas da ditadura
 

A primeira vítima

Reprodução/Comissão da Verdade
Joaquim Alencar Seixas (1922 - 1971)
Pai de quatro filhos, o operário Joaquim Alencar Seixas foi a primeira vítima da ditadura a ser enterrada em São Paulo sem identificação na vala comum clandestina do então recém-inaugurado Cemitério Municipal Dom Bosco, em Perus, em 1971.

Militante de organizações e partidos de esquerda desde antes do golpe militar, em 1964, foi assassinado no porão do DOI-Codi, órgão de repressão ligado ao Exército, em São Paulo, aos 49 anos. Seixas foi perseguido desde o primeiro dia do golpe, na fábrica onde trabalhava e exercia liderança sindical.

Conseguiu escapar, aprofundou sua militância e envolveu-se na luta armada junto ao MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes) --a ele são atribuídos roubos e o assassinato de um empresário amigo do regime. O operário foi preso junto com o filho, Ivan, na época com 16 anos e também militante do MRT, a mulher e as filhas, que não tinham atuação política. Pai e filho foram torturados juntos, um em frente ao outro. A mulher e as filhas de Seixas ficavam em uma cela ao lado, onde podiam ouvir os gritos dos homens.

Os jornais publicaram a versão oficial sobre sua morte --um confronto com as forças de segurança-- um dia antes de ele ir parar na vala comum de Perus, enquanto ainda estava vivo e sofrendo tortura.

Dois irmãos

Reprodução/Comissão da Verdade
Dimas Antônio Casemiro (1946 - 1971)
Reprodução/Comissão da Verdade
Dênis Casemiro (1942 - 1971)
Os irmãos Dimas e Dênis Casemiro eram de uma tradicional família de militantes políticos de esquerda e sindicalistas. Assim, para eles era uma questão natural se engajar na luta contra o regime militar. Ambos pegaram em armas contra a ditadura, mas tomaram rumos distintos. Os dois começaram na Ala Vermelha, dissidência marxista do Partido Comunista.

Depois, separaram-se, e o trabalhador rural Dênis entrou na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), enquanto Dimas, vendedor, foi militar na VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares) e depois no MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes). Os dois desapareceram na sequência. Primeiro Dimas, e um mês depois Dênis. Por conta da clandestinidade, os dois não se encontravam já havia tempo e voltaram a ficar juntos apenas depois da morte, na vala clandestina de Perus.

Segundo laudo do IML (Instituto Médico Legal), o corpo de Dimas foi enterrado no dia 20 de abril de 1971, no cemitério de Perus, mas jamais localizado e identificado. É provável que esteja entre as ossadas encontradas na vala clandestina. Já Dênis foi enterrado no cemitério de Perus, seus restos mortais foram resgatados da vala clandestina em setembro de 1990 e identificados no ano seguinte. O corpo foi trasladado em agosto de 1991 para Votuporanga (SP) pela família.

Os dois Dário Marcondes

Reprodução/Comissão da Verdade
Antônio Sérgio de Mattos (1948 - 1971)
Reprodução/Comissão da Verdade
Francisco José Oliveira (1943 - 1971)
O Dario Marcondes enterrado na vala comum em Perus na verdade eram dois, e foi essa confusão com o nome falso usado pelos torturadores para sumir com os corpos que ajudou na localização de Antônio Sérgio de Mattos e Francisco José Oliveira. Ambos eram militantes políticos presos, torturados e assassinados no cárcere pelos agentes da repressão.

O carioca Mattos era filho de Maria Lourdes Pereira e Armando Mattos. Estudante de direito na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), iniciou sua militância no MAR (Movimento da Ação Revolucionária). Entrou para a clandestinidade em 1969, após ajudar na fuga de presos políticos na Penitenciária Lemos Brito, em Salvador. Virou dirigente da ALN (Ação Libertadora Nacional) e mudou-se para São Paulo. Aos 23 anos, foi emboscado e morto pelas forças de segurança nacional na zona oeste de São Paulo.

Já Oliveira, conhecido como Chico Dialético, cursou ciências sociais na USP (Universidade de São Paulo) e entrou para a ALN em 1969. Foi mandado a Cuba para aprender a arte da guerrilha e voltou clandestinamente ao Brasil em 1971, já como militante do Molipo (Movimento de Libertação Popular). Morreu aos 28 anos após ser capturado na zona oeste da capital. Foi baleado e surrado no meio da rua até ser jogado dentro do camburão, não se sabe se com vida ou não. Seus restos mortais nunca foram localizados, mas documentos do regime indicam que ele foi enterrado na vala de Perus.

Sob uma pá de cal

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Alexandre Vannucchi Leme (1950 - 1973)
Leme era estudante do quarto ano de geologia da USP (Universidade de São Paulo) quando foi assassinado em 1973, aos 23 anos, sob tortura no DOI-Codi. Conhecido como Minhoca, era representante dos estudantes na Congregação do Instituto de Geociências e militava na ALN (Ação Libertadora Nacional) à época de sua prisão.

Vannucchi foi enterrado como indigente sem caixão, em cova coberta com cal virgem, para acelerar a decomposição do corpo. Seu assassinato dentro do aparelho repressor foi considerado um erro e tentaram esconder o crime. Seus restos mortais só foram recuperados pela família em 1983, dez anos depois.

Desde 1976, seu nome batiza o DCE (Diretório Central dos Estudantes) da USP, escolas infantis e centros culturais por todo o Estado de São Paulo.

Hierarquia e ordem

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José Milton Barbosa (1939 -1971)
Barbosa era militar, sargento radiotelegrafista do Exército e vítima de um expurgo que dominou as Forças Armadas após o golpe de 1964. Naquele momento, assim como a sociedade brasileira, as Forças Armadas encontravam-se divididas entre integrantes de esquerda, centro e direita (estes dois últimos setores responsáveis pelo golpe).

Imediatamente após a derrubada do presidente João Goulart, os golpistas voltaram-se para dentro das Forças Armadas a fim de identificar e eliminar elementos que pudessem minar o poder e a orientação do regime militar por dentro. Barbosa teve a patente cassada e foi expulso do Exército logo após o golpe, em 1964.

Entrou para a ALN (Ação Libertadora Nacional) e, em 1971, foi preso com a mulher e também integrante da organização clandestina em São Paulo. Ela estava grávida, mas sobreviveu ao cárcere, foi libertada e deu à luz. A criança não chegou a conhecer o pai, que passou por várias organizações clandestinas antes da ALN e morreu após ser ferido e preso com a mulher no Sumaré, zona oeste da capital.

Era acusado pelos órgãos de segurança de envolvimento no sequestro do embaixador alemão Von Holleben, em junho de 1970, e na execução do industrial Albert Henning Boilesen, em 15 de abril de 1970. Foi sepultado com nome falso em Perus e seus restos mortais não foram identificados até hoje.

Na vida e na morte

Reprodução/Comissão da Verdade
Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones (1946 - 1973)
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Antônio Carlos Bicalho Lana (1949 - 1973)
A professora e fotógrafa Sônia Maria já havia perdido o primeiro marido, o também guerrilheiro Stuart Angel Jones (filho da célebre estilista Zuzu Angel), anos antes. Os dois conheceram-se em 1966, quando estudavam na UFRJ (Universidade Federal do Rio de janeiro) e entraram para o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) juntos.

Em 1969, ela ficou presa por três meses e foi expulsa da universidade por conta de suas atividades políticas. Caiu na clandestinidade, foi viver em Paris e viu-se separada de Stuart. Quando ele foi preso e desapareceu em 1971, ela decidiu voltar ao Brasil e assumir a luta armada contra a ditadura. Depois de um período no Chile, entrou na ALN (Ação Libertadora Nacional).

Conheceu Antônio Carlos, que já era caçado pelos agentes da repressão desde que escapou ferido de uma emboscada cerca de um ano antes, quando morreram três militantes. Em 1973, estavam casados e foram presos, torturados, mortos e enterrados juntos.

 A família de Sônia passou uma década tentando encontrar seus restos mortais, finalmente identificados em 1991 e trasladados para o Rio de Janeiro. A versão oficial era de suicídio e ela foi enterrada sob um nome falso. 

Antônio Carlos foi identificado em 1991 na Unicamp (após sua ossada ser retirada da vala clandestina). Seus restos mortais foram levados para Ouro Preto (MG) pela família.

Gringo

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Miguel Sabat Nuet (1923 - 1973)
Nascido em Barcelona, na Espanha, Nuet vivia na Venezuela havia mais de 30 anos quando fugiu para o Brasil devido à perseguição por causa de sua atuação política de esquerda.

Pouco se sabe da história de Nuet no Brasil. Ele era monitorado pelas forças de segurança, provavelmente depois de um aviso do governo venezuelano de sua presença no país. Não militava em nenhuma organização clandestina e nunca ficou claro por que decidiram prendê-lo, em 1973. Foi levado para o Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e torturado por cerca de um mês antes de morrer. A polícia, na época, disse que ele cometeu suicídio na cela.

Foi assassinado aos 50 anos e deixou três filhos. A família foi localizada apenas em 2008, na Venezuela e na Espanha, quando sua ossada foi exumada da vala comum e identificada.

O metalúrgico

Reprodução/Comissão da Verdade
Ângelo Arroyo (1928 - 1976)
O metalúrgico Ângelo Arroyo lutava pelos direitos dos trabalhadores desde muito antes da ditadura militar. Casado e pai de dois filhos, entrou para o PCB (Partido Comunista Brasileiro) em 1945. Dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos nos anos 1950, liderou inúmeras greves e manifestações, tendo sido preso várias vezes em função de sua atuação. Em 1962, trocou o PCB pela dissidência PCdoB (Partido Comunista do Brasil).

Arroyo foi um dos poucos guerrilheiros que escapou com vida do cerco do Exército à guerrilha do Araguaia, quando o Exército resolveu debelar focos de insurgentes nos Estados de Goiás e Pará, às margens do rio Araguaia, entre 1972 e 1974. Foi morto em 1976, naquela que ficou conhecida como a chacina da Lapa. A polícia e o Exército invadiram uma reunião de militantes do PCdoB na zona oeste de São Paulo e fuzilaram os participantes. Além de Arroyo, foram mortos outros dois militantes.

T vermelho

Reprodução/Comissão da Verdade
Gerardo Magela Fernandes Torres da Costa (1950 - 1973)
Quando os torturadores da ditadura queriam encobrir e justificar um assassinato após sessões de tortura, era comum marcarem a ficha do preso executado com uma letra "T" vermelha, o que indicaria que o morto seria um terrorista. Com isso, "justificavam" o crime e indicavam para o IML (Instituto Médico Legal), por exemplo, que o caso deveria contar com a "compreensão" dos médicos legistas e de toda a cadeia hierárquica do regime --não raro, laudos necroscópicos e atestados de óbito eram forjados para tentar encobrir as torturas.

Foi isso o que fizeram com Gerardo Magela Fernandes Torres da Costa em 1973. Estudante de medicina de Sorocaba, no interior paulista, morreu aos 23 anos depois de preso e torturado no DOI-Codi, em São Paulo, apesar da versão oficial falsa de suicídio.

Em entrevista ao jornal "Diário Popular" em 1991, o irmão de Gerardo conta que a família ficou quieta na época do crime ao ser pressionada pelo Exército. Os militares, em troca do silêncio, teriam ficado de devolver o corpo do estudante para a família enterrar, o que nunca aconteceu.

Direitos iguais

Reprodução/Comissão da Verdade
Gastone Lúcia de Carvalho Beltrão (1950 - 1972)
Além de Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones, Gastone é a única mulher vítima da ditadura homenageada do memorial instalado no Cemitério Municipal de Perus. Para as mulheres o tormento ia além da tortura normalmente aplicada  nos homens: estupros coletivos integravam o cardápio de sevícias mais frequentes.

Gastone foi presa, torturada e assassinada aos 22 anos de idade, em 1971. Natural de Maceió, estudava economia na Ufal (Universidade Federal de Alagoas). Desde a adolescência, preocupou-se com causas sociais. Costumava realizar ações de ajuda humanitária, visitando presos e fazendo doações.

Em 1969, entrou para a ALN (Ação Libertadora Nacional) e foi mandada para ser treinada em Cuba. Voltou clandestinamente ao Brasil. Foi presa escondida no Cambuci, na zona sul de São Paulo. À família, o delegado Sérgio Fleury teria dito que Gastone era muita corajosa e forte e teria resistido até o último momento. Na versão oficial, ela morreu em um tiroteio com a polícia.

Um mês no inferno

Reprodução/Comissão da Verdade
Luiz Hirata (1944 - 1971)
O estudante de agronomia Luiz Hirata foi torturado por quase um mês antes de ser morto pelos torturadores do Exército e da polícia paulista, em 1971. Ele começou militando na JUC (Juventude Universitária Católica) e foi parar na AP (Ação Popular).

Expulso da faculdade em 1969 por causa da perseguição política, foi trabalhar como operário em São Paulo e acabou se envolvendo com o movimento sindical, onde continuou sua militância política. Morreu aos 27 anos, nas dependências do Dops, em decorrência de ação perpetrada por agentes do Estado.

Seus restos mortais, assim como os de tantos outros, nunca foram identificados e devolvidos à família.

O jornalista

Reprodução/Comissão da Verdade
Rui Osvaldo Aguiar Pfützenreuter (1942 - 1972)
Pfützenreuter era trotskista e militava no Port (Partido Operário Revolucionário Trotskista) quando foi assassinado pelo regime militar em 1972, aos 29 anos. Ele sempre associou o seu trabalho à sua atividade política, organizando debates e dando palestras sobre os caminhos para a revolução socialista brasileira.

Nascido em Santa Catarina, formou-se em jornalismo em 1964 pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), mesmo ano em que foi preso pela primeira vez na ditadura então recém-instaurada. Quando foi preso de novo, já vivendo em São Paulo, saiu da cadeia direto para a vala clandestina de Perus. Foi torturado e morto no cárcere. Rui era um pacifista e posicionava-se contra a luta armada. Sua batalha era no campo das ideias.

Após sua morte, uma carta escrita por seu pai, Osvaldo Pfützenreuter, ao então ditador Emílio Garrastazu Médici, ganhou repercussão internacional e foi lida na ONU (Organização das Nações Unidas) e na OEA (Organização dos Estados Americanos) para denunciar a brutalidade do governo brasileiro. Leia um trecho abaixo:

Se tomo a iniciativa de denunciar e usar todos os canais para castigar os responsáveis e conseguir dar a meu filho um enterro digno em sua terra natal é para que amanhã outros pais não tenham que, amargurados e silenciosamente, enterrar seus filhos, com se fosse possível enterrar junto a seus corpos, suas ideias, suas lembranças e a força renovadora de sua juventude. Uma grande lição a vida me ensinou, e meu filho mais do que ninguém, a lição da solidariedade humana

Correio Popular
Ossadas foram primeiro enviadas para a Unicamp, depois para a USP e hoje estão em uma sala-cofre na sede do MPF-SP: a maioria não foi identificada (11.mai.2000)

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