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Como saber se tenho perfil para trabalho voluntário? Especialistas dão as dicas

Projeto Iris desenvolve projetos para acelerar a inclusão de deficientes visuais, como a difusão do uso de cães-guia  - Divulgação
Projeto Iris desenvolve projetos para acelerar a inclusão de deficientes visuais, como a difusão do uso de cães-guia Imagem: Divulgação

Paula Pacheco

Colaboração para o UOL

02/12/2017 04h01

O brasileiro costuma se definir como solidário, mas não é o que os números mostram. A cada cinco brasileiros, apenas um dedica parte do seu tempo a algum tipo de trabalho voluntário (20%), contra média global de 32%. E como saber se há um perfil ideal para se tornar voluntário? Qualquer um pode ajudar? Abaixo, especialistas dão algumas dicas de como saber se você pode colaborar.

Os dados sobre voluntariado são de 2016 e aparecem no WHI 2017 (Índice Global de Solidariedade), levantamento feito pela CAF (fundação de ajuda às instituições de caridade), sediada no Reino Unido e representada no Brasil pelo Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social). Apesar de ficar abaixo da média mundial, o índice mais recente do Brasil é também o maior registrado desde que a pesquisa começou a ser feita, em 2009.

Ter vontade de mudar o mundo

Quem faz parte de algum projeto garante: todo mundo pode encontrar uma forma de ajudar.

Para Thays Martinez, presidente e fundadora do Instituto Iris, com ações voltadas aos deficientes visuais, o principal é ter um incômodo, ser inconformado. “Sabe aquela vontade de mudar o rumo das coisas; de colaborar para construir um mundo melhor? É exatamente isso”, explica.

O principal é acreditar que todos temos a responsabilidade para essa construção da sociedade que queremos, saber que somos parte da solução
Thays Martinez, fundadora do Instituto Iris 

Thays Martinez, do projeto Iris - Divulgação  - Divulgação
Thays Martinez, do projeto Iris: erro clássico é querer doar mais tempo do que tem
Imagem: Divulgação

Identificar-se com a causa

Outra dica é levar em consideração o tempo disponível e os talentos. “Pergunte a si mesmo ‘como posso colocar um talento que tenho a serviço da coletividade?’. Pense antes de agir. Reflita qual causa toca você de maneira especial”, sugere Thays.

Ficar atento ao fogo de palha

À frente do Instituto Iris, Thays já recebeu muitas pessoas comprometidas com a causa, mas também viu outras tantas largarem o trabalho no meio do caminho.

“Muitos chegam com grande energia e querendo doar mais tempo do que têm. Esse é um erro clássico. O abandono vem dessa falta de planejamento do tempo e dos recursos necessários. Por isso é tão importante começar de maneira assertiva e tratar o projeto com a mesma responsabilidade que temos ao conduzir um projeto profissional. Entregas, prazos e entusiasmo”, ensina.

Sua idade não importa

Thays conta que até um passado recente era muito comum sugerir a quem se aposentava que procurasse um projeto para colaborar como voluntário, como se isso só fosse possível para quem não tem outras atividades. Mas isso tem mudado.

No Iris, por exemplo, há um presidente-mirim, João Nicastro, 12, considerado um dos voluntários mais ativos. O garoto ajuda nas campanhas de arrecadação de fundos para doação de cães-guia e dá palestras em escolas para difundir a causa. Toda a família acabou se tornando voluntária.

Ir além da zona de conforto

Apesar de o Brasil não ter uma posição relevante no ranking do WHI, sustenta o título de ser o berço da maior rede de voluntariado especializado do mundo, com 17 mil dentistas atuando em 14 países.

O projeto Dentista do Bem, da Turma do Bem, é dedicado ao atendimento odontológico gratuito aos jovens entre 11 e 18 anos, de baixa renda, em condição de vulnerabilidade social e com problemas graves bucais. Já o Apolônias, parte deste mesmo grupo de voluntários, atende mulheres que estampam na boca e nos dentes as marcas da violência doméstica.

Para Angemerli Teodoro, vice-presidente da Turma do Bem, a observação de situações cotidianas pode ser uma forma de encontrar algo com que se identifique.

A maior motivação que alguém pode ter é saber que vai doar o seu melhor para quem precisa e que, no final, você é quem vai se sentir recompensado
Angemerli Teodoro, vice-presidente da Turma do Bem

Mas ela alerta que nem sempre é fácil encarar o voluntariado. “Você vai sair da sua zona de conforto, vai ter contato com uma realidade da qual normalmente queremos fugir. Além do tempo físico, o voluntário precisa saber que existe uma demanda de energia, de emoção, porque não tem como não se envolver”, explica.

Exercer o papel de cidadão

Mais do que sentir-se bem ao ajudar um projeto ou colaborar com uma demanda, Angemerli acredita que o voluntariado seja uma forma de se engajar mais como cidadão. É muito comum, lembra, que as pessoas reclamem demais, mas não se mexam para mudar o que incomoda.

“Ao se tornar voluntárias, elas se tornam cidadãs, questionam outras coisas que não funcionam como deveriam e passam a olhar para a sociedade e para os políticos de outra forma”, diz a integrante da Turma do Bem. 

Wilma Dal Col, da Right Management: ''Voluntariado ajuda empresas no envolvimento com seu entorno'' - Divulgação  - Divulgação
Wilma Dal Col, da Right Management: ''Voluntariado ajuda empresas no envolvimento com seu entorno''
Imagem: Divulgação

Ações no mundo corporativo

Cada vez mais empresas levam em consideração no processo de seleção a participação dos candidatos em projetos de voluntariado. Em muitos casos, é uma forma de a corporação selecionar um profissional que tenha mais afinidade com as suas crenças.

Mas é claro que há também aquelas companhias que usam o voluntariado apenas como uma forma de parecer “boazinha” para funcionários, clientes e fornecedores, mas que na prática adota práticas bem longe do que é ético.

Segundo Wilma Dal Col, diretora da empresa de recrutamento e seleção Right Management, do Grupo Manpower, o apoio ao voluntariado ajuda as empresas no envolvimento com o seu entorno e a olhar menos apenas para si. Para os funcionários, afirma, os ganhos são enormes: “Com o passar do tempo, esses profissionais se sentirão mais confiantes e mais capazes ao verem que podem fazer a diferença”.

Ajudar os outros pode ser profissão

Lilian de Jesus conta que desde pequena sonha em ser voluntária da Cruz Vermelha. Mesmo sem saber muito, queria viajar para África e ajudar as pessoas. O tempo passou, ela se formou em administração e começou seu envolvimento com o voluntariado de forma profissional.

Primeiro como assessora no projeto Pastoral da Criança. Hoje, é analista de envolvimento com a comunidade e sustentabilidade corporativa da multinacional Mondelez. 

Lilian de Jesus trabalha como analista de envolvimento com a comunidade e sustentabilidade corporativa  - Arquivo Pessoal  - Arquivo Pessoal
Lilian de Jesus é analista de envolvimento com a comunidade e sustentabilidade
Imagem: Arquivo Pessoal

Na empresa, os funcionários podem dedicar uma hora do expediente a um projeto de voluntariado. Cabe a Lilian estimulá-los. Faz parte de sua rotina, por exemplo, arregimentar colegas para confeccionar brinquedos de papel que serão doados a crianças de comunidades carentes. No ano passado foram 552 horas de voluntariado em toda a companhia. Neste ano a Mondelez chegou a 2.098 horas.

“Voluntariado nada mais é do que se colocar no lugar do outro, é saber que deixar de ser indiferente pode ter um impacto na vida de muita gente”, afirma Lilian, que além das atividades no trabalho, dedica-se nos fins de semana a um programa da Vara da Família como “madrinha afetiva”, convivendo com crianças de abrigos.

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