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"Ainda tinha tiros rolando, mas nem pensei", diz morador que socorreu cão baleado na Rocinha

Ricardo Moraes/Reuters
25.jan.2018 - Juan Dias se desespera ao socorrer seu cachorro baleado em tiroteio Imagem: Ricardo Moraes/Reuters

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

26/01/2018 19h02

Morador da rua 2, no alto da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, Juan Gabriel Ribeiro Dias, 19, passou parte da quinta-feira (26) escondido embaixo de sua cama esperando que o forte tiroteio que ocorria a poucos metros da sua casa passasse. Ao deixar o esconderijo, descobriu por um vizinho que seu cachorro, Taz, havia sido baleado.

“Ainda tinha tiros rolando, mas nem pensei. Subi na laje e saí correndo com ele no colo atrás de ajuda”, contou nesta sexta-feira (26) ao UOL, ao lembrar uma das imagens mais marcantes dos conflitos da favela nesta quinta, em que aparece desesperado com o cachorro nos braços.

“Chegaram a me falar para esperar [para ir no veterinário], que ainda tava tendo tiro... Mas, quando eu vi o sangue do meu cachorro pingando no meu pé, eu não aguentei.”

Desempregado, Juan, que vive de bicos, fez uma consulta de emergência em uma veterinária do bairro e agora tenta arrecadar com amigos e vizinhos o dinheiro necessário para um exame de raio-x.

Mauro Pimentel/AFP
26.jan.2018 - PM participa nesta sexta do 2ª dia de operação na Rocinha Imagem: Mauro Pimentel/AFP

“Não tem como a gente saber se a bala segue lá dentro ou não, só com o exame. Ele tem dois buracos de bala na coxa. Como é algo mais complexo tem que ser em uma clínica na Barra da Tijuca.” Taz tem três anos e, diz Juan, está muito fraco. Mal caminha e comeu muito pouco de ontem para hoje.

Além dele e de outro cachorro, baleado no olho, os confrontos entre policiais e criminosos na Rocinha, que começaram ainda na madrugada, deixaram um PM morto e outras sete pessoas feridas. Um ônibus também foi incendiado por criminosos em frente à favela do Vidigal, vizinha à comunidade.

"Foi uma guerra mesmo, todas as caixas de água da rua estouraram”, diz o jovem, que mora com os pais, as duas irmãs e outros três cachorros.

“Hoje [sexta, 26] ainda aconteceram outros tiroteios”, diz. “A gente tem que se acostumar com tiro, mas não dá.”

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Os tiroteios começaram logo cedo, por volta das 8h, quando PMs subiram a Rocinha em uma ação para reprimir criminosos leais a Rogério 157. Após ter sido capturado, em dezembro, e transferido para o presídio federal de Porto Velho (RO), o traficante ordenou que comparsas assumissem o comando.

Em setembro do ano passado, 157 protagonizou uma disputa sangrenta com o ex-chefe, Antônio Bonfim Lopes, o Nem, que tentou derrubar o sucessor e retomar o controle da favela. A briga resultou em dias seguidos de intensos confrontos, e o Estado reagiu com uma ação militar que mobilizou mais de 1.000 pessoas.