Violência no Rio

Exército cerca Rocinha para conter guerra de traficantes no Rio

Hanrrikson de Andrade e Luciana Amaral

Do UOL, no Rio e em Brasília

Após anúncio do ministro da Defesa, Raul Jungmann, militares das Forças Armadas e blindados entraram nesta sexta-feira (22) nos principais acessos da favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, para reforçar a segurança na comunidade e apoiar a ação da Polícia Militar. Ao todo, 950 militares, além de blindados, são deslocados para a região. A comunidade vive hoje seu sexto dia violento após sofrer tentativa de invasão por traficantes rivais, no domingo (17).

Nesta sexta, a Rocinha voltou a ter confrontos e ataques a policiais. Ao menos uma pessoa foi baleada na comunidade. Após o início da disputa entre os bandos dos traficantes Nem e Rogério 157, a Rocinha tem registrado tiroteios com operações policiais diárias desde a última segunda-feira (18). Hoje pela manhã, o tráfico voltou os ataques contra as forças de segurança na parte baixa, a mais movimentada da favela, o que levou pânico a moradores e provocou o fechamento por quase quatro horas de uma das principais ligações entre as zonas sul e oeste da capital, a autoestrada Lagoa-Barra.

A violência atingiu nesta sexta não apenas a Rocinha, mas outras seis favelas do Rio de Janeiro. Ao menos 27 mil estudantes ficaram sem aula.

Até por volta das 17h20, a reportagem do UOL verificou que ao menos oito blindados do Exército subiram para a Rocinha pela estrada da Gávea. Antes, três tinham subido. Jungmann anunciou que dez veículos do tipo seriam destacados para a operação.

Hanrrikson de Andrade/UOL
22.set.2017 - Militares chegam à Rocinha para reforçar segurança após 6º dia de violência

Com gradil e veículos da PM, as forças de segurança montaram um bloqueio logo na subida da Rocinha, no acesso pela estrada da Gávea, onde todos os veículos são parados para identificação. Os carros não estão sendo impedidos de subir, inclusive táxis. A orientação, no entanto, é que os motoristas evitem a região por conta da possibilidade de tiroteios.

Ao menos dois tiros isolados, aparentemente disparados na parte alta da Rocinha, foram ouvidos pela reportagem. Não há informação sobre o motivo dos disparos.

Muitos moradores só subiram para suas casas --a comunidade da Rocinha é situada num morro-- após a entrada dos blindados e de grande efetivo do Exército. O medo da violência não impede a circulação dos moradores. Eles estão, contudo, apreensivos.

O comércio na Rocinha funciona parcialmente. Na Gávea, bairro vizinho, parte dos comerciantes baixaram as portas mais cedo, por volta das 16h. 

Militares desembarcam de helicópteros na Rocinha

"Exército não substitui a polícia", diz Jungmann

Embora 950 homens das Forças Armadas tenham sido mobilizados, o total de militares pode aumentar mais, segundo o ministro, conforme a demanda do governo do Rio. De acordo com Jungmann, o efetivo a ser mobilizado pelas Forças Armadas pode chegar a 10 mil homens. "Exército não substitui polícia", ponderou, contudo, o ministro. "Não liberamos antes porque não houve demanda", afirmou.

A declaração foi dada após reunião com o presidente da República, Michel Temer (PMDB), no Palácio do Planalto, para tratar do assunto entre outras pautas da pasta. Mais cedo, Jungmann se encontrou com a nova procuradora-geral da República, Raquel Dodge, na sede da Procuradoria, em Brasília, após chegar do Rio de Janeiro.

Ele solicitou a criação de uma força-tarefa voltada ao Rio de Janeiro, composta pelo Ministério Público Federal, Justiça Federal e Polícia Federal. Dodge pediu a Jungmann que formalize uma proposta, indicando qual seria o papel de cada instituição no eventual grupo de trabalho, para que seja analisada por sua equipe.

"Que eles sejam policiais, juízes e procuradores dedicados ao Rio de Janeiro durante o tempo que for necessário para combater não só o crime organizado, mas o Estado paralelo que hoje existe no Rio, que é exatamente aquelas instituições do Estado que foram capturadas pelo crime organizado", declarou Jungmann

O ministro afirmou que a procuradora-geral o recebeu "muitíssimo bem", ficou de analisar essa situação e "com brevidade" dar uma resposta.

O Centro de Operações Rio informou que os corredores expressos do BRT operam sem alterações e diz que essa é a melhor opção para chegar ao Rock in Rio, na zona oeste. Para acessar o serviço, o público que sai da zona sul deve pegar o metrô até a estação Jardim Oceânico.

A autorização ao cerco é uma resposta ao pedido do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e do secretário de Segurança Pública, Roberto Sá, ao CML (Comando Militar do Leste) para a atuação das forças militares na Rocinha.

De acordo com Jungmann, o cerco feito pelo Exército possibilitará aos policiais subirem na favela e continuar o enfrentamento aos criminosos. Segundo ele, todos os militares necessários já se encontram no Rio de Janeiro e não será preciso realizar deslocamentos físicos de tropas.

"Inicialmente, como se trata de algo que não teve um planejamento antecedente, nós estamos deslocando [para a Rocinha] 700 homens da polícia do Exército. Mas isso é o deslocamento inicial", declarou. Ao todo, o CML (Comando Militar do Leste), sob a qual as tropas utilizadas estão subordinadas, conta com 30 mil militares.

Em entrevista na manhã desta sexta, Pezão disse que o reforço militar deve atuar na parte de baixo da comunidade --no acesso às vias expressas-- para "dar tranquilidade às pessoas". "Não vamos recuar", disse ele. Segundo o governador, na operação policial de ontem, um paiol com muito armamento e drogas foi encontrado. Pezão disse que há indícios fortes de que mais armas serão achadas.

Jungmann afirmou que Temer demonstrou disposição em manter o apoio das forças federais no Estado, como a Polícia Rodoviária Federal e a Força Nacional. Segundo o ministro, não houve nem haverá falta de recursos orçamentários para as atividades das tropas.

Questionado pelo UOL se a resposta do governo foi em tempo hábil, Jungmann afirmou não ter atuado antes porque a Defesa só "atende à demanda". Ele ressaltou que não houve outros pedidos anteriormente, pois os órgãos de segurança julgavam que as operações já praticadas eram suficientes.

"Isso aí cabe ao governo avaliar. Nós respondemos, como sempre, à demanda. Uma coisa que a gente diz sempre aqui é que o Exército não substitui polícia. Quem tem informação exatamente, quem está na ponta, digamos assim, desse trabalho de segurança não pode ser diferente: são as polícias", argumentou.

Ataque a UPP, ônibus e granada

Segundo a Polícia Militar, criminosos atiraram contra policiais próximo ao túnel Zuzu Angel. Por volta das 10h, a base da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), na rua 2, foi atacada. Houve confronto e um morador foi ferido. Ele foi levado para o hospital Miguel Couto, na Gávea. Não há informações sobre o seu estado de saúde.

Gabriel Paiva/Agência O Globo
22.set.2017 - Moradores se refugiaram em passarela durante tiroteio na Rocinha

Em outro ponto, um grupo de menores de idade, segundo a PM, ateou fogo em um ônibus na subida da avenida Niemeyer, em São Conrado. As chamas foram controladas sem ser necessário o acionamento dos bombeiros, segundo a corporação. Policiais militares fazem buscas para localizar os responsáveis pelo incêndio.

Ainda na manhã de hoje, uma granada foi lançada em direção a uma viatura da UPP Rocinha na passarela que dá acesso à comunidade. O artefato não explodiu e o Esquadrão Antibomba foi acionado.

Após os tiroteios, por volta das 11h, policiais do Bope (Batalhão de Operações Especiais) iniciaram atuação na Rocinha e agentes do BAC (Batalhão de Ações com Cães), no Vidigal, comunidade vizinha à Rocinha. A Polícia Militar reforçou o cerco à comunidade em todos os seus acessos. Policiais de outras Unidades de Polícia Pacificadora e do Batalhão de Policiamento em Grande Eventos atuam na região. Um veículo blindado dá apoio aos policiais.

Jornalistas que acompanhavam o quinto dia de operação militar foram orientados a se refugiar na 11ª DP durante o tiroteio na manhã desta sexta. Moradores se manifestaram nas redes sociais.

 

Governo do RJ nega erro de estratégia

O secretário de Segurança Pública do Estado, Roberto Sá, negou erro no planejamento estratégico. Ele também afastou a existência de uma "rixa" entre os governos federal e estadual acerca das decisões na área de segurança no Rio.

Sá afirmou ainda que a situação, segundo autoridades, era de estabilidade até o início da manhã, por isso não acionou as Forças Armadas antes. Ele não quis adiantar a estratégia que será usada no combater ao crime organizado. A cúpula da Segurança e das Forças Armadas está reunida no Centro de Comando e Controle Integrado, na região central, para definir a atuação.

"Informações operacionais são sigilosas. É importante que a população saiba que Estado e União estão juntos no combate à violência. Não se coloca todos os recursos de uma vez. Conforme se der a escalada, vamos empenhando mais recursos", disse o secretário.

RJ teve 27 mil estudantes sem aula

A troca de tiros em comunidades do Rio deixou hoje cerca de 7.000 alunos de escolas municipais sem aulas na cidade. A Secretaria Municipal de Educação informou que unidades escolares na Rocinha, comunidade Vila Canoas, Vidigal, Gávea, Chapéu Mangueira, Copacabana, Complexo do Alemão, Tomás Coelho, Morro do Queto, em Sampaio, Juramento, Acari e Pavuna não funcionaram.

No total, são 11 escolas, sete creches e oito espaços de desenvolvimento infantil fechados. Algumas escolas e universidades particulares também não abriram hoje. A Pontifícia Universidade Católica, a PUC-Rio, na Gávea, liberou seus 20 mil alunos e todos os funcionários.

Em outra comunidade com UPP, a Dona Marta, em Botafogo, na zona sul carioca, também houve registro de violência. Criminosos atiraram contra policiais durante patrulhamento na manhã de hoje. Segundo a UPP, não houve revide por parte dos agentes, que realizam buscam para prender os suspeitos.

Um aluno da rede pública do estado foi atingido por uma bala perdida na manhã desta sexta no pátio do Centro de Atenção Integral à Criança Theóphilo de Souza Pinto. A unidade fica no Complexo do Alemão, no bairro da Penha, na zona norte do Rio. Lenilson Santos, 18, foi baleado na coxa direita. Levado para UPA (Unidade de Pronto Atendimento) da região, ele já recebeu alta. Outra estudante foi atingida por estilhaços de bala quando ia para a escola no Complexo da Maré.

Moradores registraram o intenso tiroteio na manhã desta sexta na Rocinha:

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