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"Falaram que me entregariam para milícia", diz homem agredido por militares

Reprodução do vídeo que mostra militares agredindo homem na Cidade de Deus - Reprodução/YouTube
Reprodução do vídeo que mostra militares agredindo homem na Cidade de Deus Imagem: Reprodução/YouTube

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

03/07/2018 08h33

Glauber do Rosário da Silva é o homem que aparece nas imagens compartilhadas no Facebook na última quarta-feira (27) sofrendo agressões de militares do Exército na comunidade da Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro. No vídeo, o jovem de 28 anos, que trabalha como camelô na Uruguaiana, no Centro, aparece recebendo uma “gravata” e levando chutes, cercado de pelo menos quatro agentes de segurança. Ele contou ao UOL que depois de sofrer as agressões foi levado para o bairro de Curicica, onde foi ameaçado.

“Me tiraram da Cidade de Deus e falaram que iam me entregar para os milícias sumirem comigo. Depois acabamos na Junta Militar, fiquei gritando lá e apareceu um tenente que me encaminhou para um ambulatório. Depois me levaram para a Delegacia da Taquara, passei pela sede do Exército em Benfica. Em nenhum lugar me levaram para fazer exame de corpo de delito. Nem prestei depoimento. Fui liberado só no dia seguinte. Eles disseram que eu ia responder por crime militar”, contou o morador da Cidade de Deus.

De acordo com Glauber, a confusão começou depois de os militares o impedirem de acessar a Rua Israel, na Cidade de Deus, onde ocorria uma festa. O morador, que contou que estava a caminho da casa da namorada, teria desobedecido a ordem, o que deu início a uma discussão.

Na gravação, não é possível observar o início da confusão, apenas o momento em que quatro militares do Exército aparecem imobilizando o morador. É possível ouvir um militar dizer que Glauber seria preso por desacato e por ter agredido um militar, o que ele nega. Alguns moradores tentaram intervir na ação, mas acabam afastados. Um deles chega a dizer que os soldados iriam matá-lo.

O vídeo foi compartilhado nas redes sociais por moradores com o objetivo de localizar Glauber, que ficou quase 24 horas desaparecido. A família não sabia para onde ele tinha sido levado e, segundo parentes, a mãe do ambulante percorreu inúmeras delegacias atrás do filho.

Procurado, o Comando Militar do Leste determinou a abertura de um inquérito policial militar para apurar as circunstâncias da agressão e informou que não vai se pronunciar sobre o caso. Em nota divulgada no domingo (1º), o CML disse que o vídeo foi analisado e considerado autêntico.

Nos comentários sobre o vídeo, moradores criticaram a apoiaram a postura do Exército. “Galera tem que ficar ligada que eles são a ‘lei’ agora, principalmente à noite, dentro das comunidades”, diz um dos comentários. “E vai ficar por isso mesmo?”, questionou outro. “Só começam a filmar quando os militares batem”, observou mais um morador.

Nascido na Cidade de Deus, Glauber disse que foi a primeira vez que se envolveu em uma em uma briga com agentes do Exército na Cidade de Deus. Desde o episódio, ocorrido na semana passada, o morador diz que não sai de casa com medo.

“Estou com dor nas costas, nas costelas. Não tenho saído de casa nem para trabalhar. Estou com vergonha e com medo. Os caras vêm para nos proteger estão agredindo? Estou indignado. Eles vêm de tal forma achando que todo mundo é bandido. Nem todo mundo escolhe onde morar. Cada um mora de acordo com o seu bolso. Se tivesse mais, moraria em Copacabana”, disse o morador que será pai daqui a dois meses.

A Polícia Civil do Rio também foi questionada pelo UOL sobre a ausência de depoimento e de exame de corpo de delito e informou que o caso é atribuição da justiça militar. 

Desde o início de junho, militares das Forças Armadas têm atuado em operações na Cidade de Deus em apoio a policiais. Os solados atuam no patrulhamento, cerco e retirando barricadas do tráfico. A segurança do estado do Rio de Janeiro segue sob intervenção federal desde o mês de fevereiro.

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