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Marielle: Anistia vê "labirinto de caminhos inexplorados" em apuração e propõe grupo técnico

Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada no Rio de Janeiro - Divulgação/PSOL
Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada no Rio de Janeiro Imagem: Divulgação/PSOL

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

14/11/2018 16h49

A Anistia Internacional divulgou nesta quarta-feira (14) um levantamento com informações públicas sobre as investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, crime que completa oito meses hoje. A entidade afirma existir um “labirinto de caminhos inexplorados” nos trabalhos da polícia, com o que classifica como contradições e inconsistências, e sugere a criação de um grupo externo, formado por quadros técnicos (peritos, juristas e especialistas em investigação criminal), para acompanhar as investigações.

O levantamento reúne informações veiculadas sobre o caso e aponta questões ainda não respondidas pelas autoridades. No início deste mês, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, anunciou que a Polícia Federal investigaria suspeitas de que uma organização criminosa estaria atuando com o objetivo de atrapalhar as investigações do assassinato. A investigação havia sido um pedido da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, com base em dois novos depoimentos de testemunhas do caso. A posição de Jungmann despertou antipatia de delegados da Polícia Civil do Rio, que viram nas declarações do ministro tentativa de aproveitamento político.

“A avaliação da Anistia é que, ao olhar em conjunto todas essas informações divulgadas sobre as investigações, esse caso parece se encontrar dento de um labirinto, e com caminhos ainda inexplorados”, apontou a coordenadora de pesquisas da entidade, Renata Neder.

Entre os aspectos ainda não explorados ou considerados contraditórios, o levantamento elenca o tipo de arma e de munição que teriam sido usadas no crime. Inicialmente, as investigações apontaram uso de pistola 9 mm, de uso restrito no Brasil, mas isso acabou desmentido em seguida. Posteriormente, divulgou-se que a arma utilizada seria uma submetralhadora HK-MP5, de origem alemã, que também é de uso restrito, mesmo tipo da que teria tido cinco unidades desaparecidas do arsenal da Polícia Civil do Rio.

“Não houve qualquer resposta das autoridades sobre esse extravio. Como pode armas desaparecerem e nenhuma explicação ser dada sobre como isso aconteceu? E qual a relação disso com o assassinato de Marielle?”, indagou a pesquisadora.

Também a divulgação ainda parcial do trajeto dos carros dos suspeitos e a não resposta ao porquê de câmeras de vigilância desse trajeto terem sido desligadas na véspera do assassinato foram questionadas pela Anistia, bem como sobre a perícia, sem a realização de raio-x, nos corpos das vítimas.

Indagada sobre o organismo “independente e externo” que a Anistia sugere para acompanhar as investigações, Neder justifica que isso ajudaria a mostrar “se está havendo algum tipo de negligência”. “Precisa ficar claro se todas as linhas de investigação estão sendo seguidas e se há ou não interferência externa e indevida”, destacou.

Procurada para comentar as posições da Anistia Internacional, a Secretaria de Segurança Pública do Rio informou, por meio de sua assessoria, que "não vai divulgar informações sobre a investigação, que está sob sigilo".

Sobre eventuais impactos nas investigações com as iminentes mudanças de governo nos planos federal e estadual, a ativista resumiu: “Há um risco de interrupção dos processos de investigação em situações assim. É algo que nos preocupa. Mas esse é um caso que continuará sendo relevante --e é papel da sociedade, como um todo, fazer pressão sobre as autoridades eleitas, caso ainda não se tenha elucidado”, ponderou. “É inadmissível chegarmos a oito meses sem respostas”, concluiu.

Marielle foi assassinada no Rio quando voltava de uma reunião política na noite de 14 de março. Ela estava acompanhada de uma assessora, que sobreviveu, e do motorista Anderson Gomes, também morto a tiros.

Antonio Francisco e Marinete da Silva, pais de Marielle Franco, durante coletiva da Anistia Internacional para divulgar um levantamento reunindo informações veiculadas publicamente sobre o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, no Rio de Janeiro, na manhã desta quarta-feira (14) - José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo - José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo
Antonio Francisco e Marinete da Silva, pais de Marielle Franco, durante coletiva da Anistia
Imagem: José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo

“Estamos enxugando gelo”, diz pai de Marielle

A apresentação do documento da Anistia contou com a presença dos pais de Marielle, Marinete e Antonio Silva. A mãe da ex-vereadora disse ter a expectativa de que a troca de governo e possíveis mudanças nas polícias, já a partir de janeiro, não afetem as apurações sobre o crime.

"Já deram várias versões, disseram que o caso estava caminhando. Tanto o [ministro] Raul Jungmann quanto o [secretário de Segurança, general Richard Nunes] disseram que estava praticamente resolvido, e não estamos vendo isso. Cada vez que sai uma notícia que tem um avanço e está chegando perto, a gente não tem nada de concreto. Temos que aguardar mesmo e ver o que acontece até o fim do ano", afirmou Marinete.

"A impressão que tenho é que estamos enxugando gelo. Todo mês são as mesmas perguntas sem respostas", definiu o pai da vereadora.

Ex-assessora homenageia Marielle

Em seu perfil no Facebook, a deputada estadual eleita Dani Monteiro (PSOL-RJ), ex-assessora de Marielle, homenageou a amiga e lamentou a demora na elucidação do crime.

Sob o título “Marielle vive em nós!”, o texto fala do “baque” que foi a perda da parlamentar e destaca que as perguntas sobre o caso “seguem sem resposta”.

“O genocídio da população negra e das favelas acontece todos os dias, sempre tirando um dos nossos: Marcos Vinicius, Amarildo, Cláudia e tantos outros que são brutalmente assassinados diariamente. Marielle sempre lutou pela vida na favela, contra qualquer tipo de violência, inclusive a policial”, escreveu Dani Monteiro.

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