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24 horas após Brumadinho, capitão fez buscas no RJ: 'trabalhos de bombeiro'

Gabriel Sabóia e Taís Vilela

Do UOL, no Rio

2019-02-08T04:00:00

08/02/2019 04h00

Em meio aos bombeiros que participaram dos trabalhos de buscas por vítimas e resgate de desalojados pela chuva que atingiu a cidade do Rio de Janeiro nesta quinta-feira (7), o capitão Rodrigo Barbosa carregava uma história peculiar: menos de 24 horas antes, ele era um dos 80 homenageados com a Medalha do Mérito, Força e Coragem, dada pelo governador Wilson Witzel (PSC), pelo trabalho feito em Brumadinho (MG), onde o rompimento de uma barragem da Vale matou ao menos 150 pessoas no último dia 25.

Participante da força-tarefa fluminense que foi enviada a Minas Gerais, Barbosa --que é instrutor do Grupamento de Buscas e Salvamento-- foi acionado para atuar no resgate do coletivo soterrado.

"Saí da cerimônia e iniciei o meu turno. Quando fui ver, estava acompanhando o noticiário e a evolução das chuvas. De repente, estava aqui", relata o capitão, que participou das buscas por duas vítimas que estavam em um ônibus soterrado por um deslizamento de terra na avenida Niemeyer, na zona sul da capital fluminense. No total, seis pessoas morreram em decorrência das chuvas.

Apesar do trabalho árduo, ele afasta qualquer comparação entre os trabalhos nos dois municípios. "Operacionalmente são ações diferentes pelo tipo de solo, proporção da tragédia e pela saturação do terreno. Nós, que somos treinados, sabemos disso. Mas, para nós, os dois são 'trabalhos de bombeiro', não fazemos distinções. Nós trabalhamos sempre pelas vidas alheias, pelos desconhecidos", afirmou.

Dos cinco dias de resgates em meio à lama de Brumadinho, Barbosa lembra de ter lido um texto com uma mensagem que explica o porquê da sua escolha profissional. "A mensagem motivacional dizia que a nossa única certeza é a de que vamos embora. É isso o que move a mim e aos meus companheiros: tentar fazer o melhor sempre, profissional e profissionalmente".

Apesar das imagens de resgates que não saem das cabeças e de eventuais frustrações por não conseguir realizar todos os resgates de pessoas com vida, o capitão revela um episódio pessoal no qual se apóia nesses momentos em que não tem alternativa e vê de frente para famílias destruídas.

"Tenho um companheiro de turma que sumiu no RJ. Ele morreu e nunca teve o corpo encontrado. A mãe dele até hoje passa a roupa do filho e põe a comida, como se ele estivesse vivo e fosse chegar a qualquer instante. Se ele tivesse sido encontrado, se houvesse um corpo atestando a morte, talvez a realidade dela fosse outra. Talvez ela tivesse prosseguido com a sua vida. O que me sinto fazendo é isso: devolvendo a dignidade a essas famílias", resume.

A maioria dos bombeiros fluminenses que participaram dos trabalhos de resgate em Brumadinho e no Rio já era experiente. O Grupamento de Buscas e Salvamento trabalhou na tragédia de 2011 na Região Serrana do Rio de Janeiro e no deslizamento do Morro do Bumba, em Niterói, por exemplo.

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