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Brumadinho: com lama fechando estrada, protesto cobra transporte da Vale

Bernardo Barbosa

Do UOL, em Brumadinho (MG)

13/02/2019 14h07

Moradores dos bairros da zona rural de Brumadinho (MG) protestaram na manhã desta quarta-feira (13) em frente à portaria de uma mina da Vale reivindicando melhores condições de transporte após o rompimento de uma barragem da empresa, em tragédia que matou ao menos 165 pessoas e praticamente isolou a ligação da região com o centro da cidade.

Por volta das 8h, um grupo de cerca de 20 moradores dos bairros de Casa Branca e Aranha fechou a única estrada que, no momento, liga o centro da cidade a vários bairros da zona rural do município, entre eles, o de Córrego do Feijão --onde ficava a barragem da Vale que desabou. Pneus de caminhão foram incendiados.

Perto das 13h houve negociação com representantes da Vale. Segundo o agricultor José Antônio Gontijo, que estava no local, a empresa se comprometeu a disponibilizar mais ônibus e vans para o transporte até o centro de Brumadinho; instalar um caixa eletrônico em Aranha e manter uma ambulância 24 horas no bairro de Piedade de Paraopeba. O compromisso é de que tudo isso seja feito em até 48 horas.

Se não cumprirem, vamos fechar de novo (...) Nós temos que brigar para tirar o mínimo

José Antônio Gontijo, agricultor de Brumadinho

Segundo o agricultor, o intuito não é prejudicar a população, mas conseguir que a Vale atenda os moradores.

Vídeo que circula entre moradores de Brumadinho também mostra o vereador Ivam Egg (PR), que é do bairro, fazendo uma convocação para o protesto. "Todos nós estamos sofrendo com o problema dessa estrada", diz Egg diante do que parece ser uma pilha de pneus incendiados.

O UOL tentou contato com o vereador Ivam Egg por telefone, mas ainda não conseguiu.

Protesto fecha estrada em Brumadinho e cobra transporte da Vale

UOL Notícias

O que diz a Vale

Segundo a Vale, os manifestantes pedem acesso a "uma via que neste momento está sob a gestão da Defesa Civil e que, por medida de segurança, é restrita a veículos previamente autorizados."

A empresa afirma "que está aberta ao diálogo com as comunidades e que irá avaliar as reivindicações com a Defesa Civil". 

A Defesa Civil informou que a via em questão está restrita por causa do trânsito dos veículos usados nos trabalhos de buscas e por questões de segurança, já que se trata de uma área de mineração. Segundo o órgão, não há previsão para que a estrada seja liberada para o trânsito em geral. As autorizações para trafegar no local estão sendo concedidas após deliberação entre a Defesa Civil, a Polícia Militar e a Vale, relatou o órgão.

A Polícia Militar não deu detalhes sobre o horário da manifestação, seus organizadores ou quantas pessoas participam do protesto. Outras imagens gravadas por pessoas que tentam passar pelo local mostram uma fila de veículos na estrada interditada, além da movimentação de policiais no local.

Vale controla acesso a estrada

Além de deixar centenas de mortos e desaparecidos, a lama da Vale interditou a estrada que normalmente liga o centro de Brumadinho à zona rural. Segundo moradores, o percurso entre o centro e Córrego do Feijão costumava levar, de carro, de 20 minutos a meia hora. 

Agora, a alternativa é passar por dentro da mina da Vale --e só veículos autorizados pela mineradora podem fazê-lo. Carros de passeio, por exemplo, estão vetados. De ônibus, segundo moradores, o trajeto leva de 40 minutos a uma hora, sendo boa parte em estrada de terra.

"Isso tira o direito de ir e vir das pessoas", disse Gontijo. "A Vale causou tudo isso, como ela pode decidir o que as pessoas querem?".

Quem não tem autorização da mineradora tem que fazer um caminho bem mais longo para chegar aos bairros rurais de Brumadinho. Os acessos são pela cidade de Ibirité ou pelo bairro Jardim Canadá, em Nova Lima. De carro, o percurso pode levar cerca de duas horas.

Moradores ficam sem transporte

O protesto também teria inviabilizado o transporte providenciado pela Vale entre Córrego do Feijão e o centro de Brumadinho, que estava sendo feito por vans a cada duas horas. Na rodoviária da cidade, ponto de partida dos veículos, moradores aguardaram a manhã toda sem receber qualquer explicação da empresa.

A reportagem do UOL chegou ao local pouco antes das 8h, quando já havia moradores de Brumadinho à espera dos veículos. Segundo informe divulgado pela Vale em seu site, os embarques ocorrem a partir deste horário, de duas em duas horas, até 20h.

Não foi o que aconteceu hoje. A primeira surpresa dos moradores veio quando um micro-ônibus da empresa Rio Negro, que está fazendo o transporte de passageiros para Córrego do Feijão, chegou a parar na rodoviária pontualmente às 8h. No entanto, o motorista disse que não estava indo para o bairro e contou que o ônibus para lá só chegaria às 9h30.

A espera que seria de uma hora e meia tornou-se indefinida. Pelo menos até o meio-dia, o horário em que a reportagem deixou o local, ninguém deu qualquer satisfação a quem estava na rodoviária.

O UOL também questionou a Vale sobre a falta de informações sobre o transporte e aguarda resposta.

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