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Mãe fala da perda de 2 filhos em ação da PM do Rio: "foram executados"

Pilar Olivares/Reuters
8.fev.2019 - Polícia forense inspeciona lugar onde suspeitos foram mortos pela polícia no Fallet, Rio Imagem: Pilar Olivares/Reuters

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

2019-02-19T04:00:00

19/02/2019 04h00

"Dona, todo mundo que veio do Fallet tá morto." Foi o que a assistente de vendas Maria ouviu de um policial ao procurar pelo filho Pedro, de 18 anos, no hospital Souza Aguiar, no centro do Rio de Janeiro, após ser avisada que ele fora baleado em uma operação policial naquela comunidade.

Momentos depois, chegou a informação de que João, de 16 anos, também filho de Maria, morreu na mesma operação que envolveu batalhões de elite da Polícia Militar no Fallet e no Morro dos Prazeres, terminando com 15 mortos. "Meu mundo acabou", disse ela ao UOL sob condição de não ter o nome revelado por questão de segurança --os nomes dela e dos filhos foram trocados pela reportagem.

Exatamente dois meses antes da operação --ocorrida no dia 8 de fevereiro--, Maria, que criou sozinha os dois rapazes e outros dois filhos, deixou a casa no Fallet --favela onde morou 34 anos-- em busca de um ambiente saudável para os filhos. Ela relata que nessa comunidade vivia entre a opressão do tráfico de drogas e das forças policiais.

"Comecei a me planejar em 2017, quando entrei nesse emprego que estou até hoje. Com quatro filhos para criar, é difícil fazer pé de meia, mas consegui vender a casa do Fallet, que eu e meu irmão herdamos, e financiei um apartamento novo. Peguei as chaves em outubro. Em dezembro, saí com os quatro de lá. Tudo que eu fazia era para buscar mais dignidade para os meus filhos. Meu sonho era nunca mais colocar o pé no Fallet."

Ela conta que os filhos voltaram à comunidade uma semana antes da operação para participar de um torneio de futebol.

"Os meninos foram para a casa de parentes. O mais velho foi acompanhar o irmão. Dias antes [da operação], fui lá para trazê-los de volta, mas só achei o Pedro e falei: 'vamos embora. Tô com pouco dinheiro, não tenho como ficar voltando aqui'". Ele disse: 'mãe, não dá! Tenho que achar primeiro o meu irmão. Depois que encontrar com ele, a gente volta pra casa'. Mas não voltaram e não voltam mais. Agora, eu fico aqui sem lavar a roupa dos meninos para não perder o cheiro deles."

Veja seguir o relato de Maria sobre o momento em que recebeu a notícia sobre a morte dos dois filhos, o medo de viver em uma comunidade pobre no Rio de Janeiro e a dificuldade de criar quatro filhos sozinha.

"Dona, todo mundo tá morto"

No dia que aconteceu, acordei mal, não queria ir trabalhar, mas fui. Pedi dispensa pra ir embora mais cedo e estava indo para Santa Teresa quando, no meio do caminho, recebi mensagem da minha prima me falando que Pedro foi baleado e foi pro [hospital] Souza Aguiar. Naquela hora entrei em desespero. Desci do ônibus, peguei um moto-táxi e fui para o hospital. 

Aquele dia já tinha acordado angustiada. Tinha muita gente da comunidade no hospital. Fiquei procurando notícias. Até aquele momento, só sabia que Pedro estava ferido no hospital. Me dirigi a um guarda e perguntei pelo meu filho. 

O policial disse: "dona, todo mundo que veio do Fallet tá morto". Entrei em desespero. Comecei a pensar onde estava o meu outro filho. O telefone toca e a tia da minha bebê fala que o meu segundo filho, o João, estava morto e queria saber do Pedro. Naquele momento, eu soube que os meus dois meninos tinham morrido. Meu mundo acabou. 

Pilar Olivares/Reuters
12.fev.2018 - Casa onde Maria crê que os filhos foram baleados Imagem: Pilar Olivares/Reuters

"Meus filhos foram executados"

Se eles tinham envolvimento com bandidos, por que não prenderam eles? Os policiais não deram direito de defesa. Tiraram o direito básico da vida. Meus filhos foram executados. Que país é esse? Eles não tiveram direito a um julgamento digno.

Meu mais velho tinha se alistado [no Exército]. Tava esperando a convocação, mas essa pátria que ele queria servir, tirou a vida dele.

Eu não quero imaginar o sofrimento deles naquele dia. Moradores contaram que teve uma correria e vários se abrigaram juntos naquela casa.

Os vizinhos ouviram o pedido de clemência para não morrer, pedido de socorro, mas, mesmo assim, eles foram executados.

Já vi essa dor. Não queria passar por ela

Quando você é negro e favelado, quer dizer que você é bandido. Você é o que veste, você é o lugar que você mora. Se eu fosse homem, depois de 34 anos vivendo no Fallet, tenho dúvidas se estaria viva.

A vida lá é muito difícil. Principalmente se você tem filho homem. O tráfico fica aliciando. Começa pedindo pequenos favores para os meninos, e aí você faz o que? Bate na porta deles para tirar satisfação? Eu sabia que numa dessas eu podia perder meus filhos. Esse era o meu maior medo.

Lá é muita violência. Por inúmeras vezes, vi meninos que cresceram com meus filhos serem mortos por policial ou por facção rival. Filhos de amigas minhas. Cinco dos meninos que morreram era amigos, começaram juntos na escola.

Já vi essa dor e não queria passar por ela. É duro uma mãe ter que sair para trabalhar e deixar seus filhos. Não podia carregar todos eles comigo, eles tinham a vida deles, escola... E mesmo dentro de casa é um risco na favela. Eu briguei para essa realidade não acontecer, mas aconteceu. Não queria que outras mães passassem por isso.

Além de conviver com o tráfico, você ainda tem a polícia. Já tive a casa invadida por PMs, fuzil apontado pra gente e ainda tive que provar para os policiais que os garotos eram meus filhos.

Sou negra e os dois tinham a pele mais clara. São morenos. Neste dia, no meio da noite, precisei catar identidade, certidão de nascimento para provar que éramos uma família. Não respeitam ninguém. Eles entram aqui e até a geladeira abrem, debocham dizendo que vão ver se tem bandido nela.

"Na certidão deles, só o meu nome"

Não sei ao certo se os garotos tinham envolvimento [com o tráfico de drogas]. Desconfiei pelas companhias, quando vi que estavam com outros meninos que tinham envolvimento. Fiquei questionando porque não queria tapar o sol com a peneira, mas eles sempre negavam. Eu precisava trabalhar. Os pais do meu ex-marido ajudavam a tomar conta deles, mas eles morreram no meio do ano.

Eu chegava do trabalho, tinha comida pronta, louça lavada, casa arrumada. Eles me ajudavam muito. Conheci o pai dos meninos na comunidade. Tenho três filhos com ele e a caçula é de um segundo relacionamento. Vivi 13 anos com o pai dos meninos. Ele não trabalhava nem registrou os filhos. Cheguei a arrastar o homem para a Defensoria Pública, mas não deu em nada. Na certidão de nascimento deles, só tem o meu nome. Nunca deu nada para as crianças, nem quando morávamos juntos. Criei todos sozinha. Os meninos deram graças a Deus quando me separei.

O que dizem a PM e o governador do Rio

A operação ocorreu na mesma semana em que o CV (Comando Vermelho) e TCP (Terceiro Comando Puro) se enfrentavam na região. Segundo a PM, o Disque Denúncia informou que, no dia 8 deste mês, cerca de 20 homens fortemente armados ocupavam uma casa no alto do Fallet.

Na parte baixa da comunidade, policiais cercaram uma residência e ao menos nove homens morreram. A corporação disse que os agentes reagiram a disparos.

Apesar de a PM informar que o grupo reagiu à chegada da polícia, moradores e parentes das vítimas afirmam que o grupo já estava rendido quando foi morto. Alguns corpos, segundo parentes, tinham marcas similares ao uso de faca

O governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), considerou na semana passada que a operação da PM no Fallet foi legítima

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