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O que se sabe sobre as 15 mortes em operação policial no Rio

Pilar Olivares/Reuters
8.fev.2019 - Casa onde ao menos dez homens foram baleados durante operação da PM no morro do Fallet, no Rio Imagem: Pilar Olivares/Reuters

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

12/02/2019 17h15

A operação da Polícia Militar na última sexta-feira (8) nos morros do Fallet-Fogueteiro, Coroa e Prazeres, na região central do Rio de Janeiro, que terminou com ao menos 15 mortos, ocorreu dois dias após confrontos intensos entre as facções Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro, conhecidas pelas siglas CV e TCP.

De acordo com a polícia, a região vive uma disputa de traficantes por territórios. No início da semana passada, integrantes do CV, grupo que domina as comunidades do Fallet-Fogueteiro e Prazeres, invadiram o Morro da Coroa. A região, até então, era dominada pelo TCP. Houve tiroteio e o trânsito próximo aos acessos às comunidades chegou a sofre interdições.

A Polícia Militar informou, por meio de nota, que a ação foi planejada para intervir na guerra entre facções, "tendo como principal preocupação a preservação de vidas".

No dia da operação, a PM informou que dez suspeitos, que segundo a corporação teriam ligação com o tráfico, morreram em confronto após os policiais cercarem uma casa onde os traficantes estavam, no Fallet. Também segundo a polícia, outras três morreram no Morro dos Prazeres, no Catumbi, onde também ocorreu uma ação policial.

No entanto, moradores da comunidade relataram que outros dois corpos foram encontrados no Morro dos Prazeres, totalizando 15 vítimas nas duas ações policiais. A informação foi confirmada pelo 5º BPM.

Os corpos foram levados para o hospital Souza Aguiar, no centro --a Secretaria de Saúde informou que 13 vítimas chegaram mortas à unidade. Na sexta, a pasta informou que um homem ferido internado no hospital havia morrido, mas a informação foi retificada.

Vídeo mostra corpos em viatura

O Ministério Público do Rio teve acesso a um vídeo que mostra um carro do Batalhão de Choque da PM em frente à casa do Morro do Fallet, em Santa Teresa, onde foram localizados os mortos. Nas imagens, é possível ver os suspeitos sendo colocados na caçamba da viatura que seguiu para o hospital. 

"Eles foram jogados no carro de qualquer jeito. Isso é socorro?", questionou a mãe de um deles que não terá o nome revelado. 

Familiares reconheceram que o grupo tinha ligação com o tráfico, mas dizem que os jovens, entre 15 e 22 anos, foram rendidos e mortos pelos policiais. A comunidade diz que a PM promoveu uma chacina na favela. Imagens do local mostram o chão da residência totalmente ensanguentado e marcas de tiros nas paredes.

A mãe de um deles disse que, após as mortes, policiais ameaçaram outros moradores no local. "Falaram pra quem tava [sic] aqui escutar. Dez, 15, 20, vão morrendo todos."

Pilar Olivares/Reuters
8.fev.2019 - Polícia forense inspeciona lugar onde suspeitos foram mortos pela polícia no Fallet Imagem: Pilar Olivares/Reuters

O que diz a PM

Segundo a corporação, a ação do Batalhão de Choque e do Bope (Batalhão de Operações Especiais) foi desencadeada a partir de uma informação do Disque Denúncia que relatava a presença de 20 homens fortemente armados em um imóvel no Morro do Fallet.

A PM alegou que a casa na comunidade foi cercada e que as guarnições foram atacadas pelos criminosos. Os policiais reagiram e o grupo acabou baleado em confronto. Onze homens foram presos ao tentar fugir dando cobertura a um dos chefes do tráfico da região Gilmar Quintanilha, 32, que estava no imóvel quando a polícia chegou ao local.

A PM informou ainda que o grupo tentou subornar os policiais oferecendo R$ 100 mil para que o número dois na hierarquia do tráfico da favela tivesse a fuga facilitada.

Questionada sobre o local onde os suspeitos foram baleados, a PM não soube informar a finalidade do imóvel para o tráfico tampouco a quem pertence. Durante a operação, os policiais apreenderam quatro fuzis, 14 pistolas, seis granadas, três radiocomunicadores, além de carregadores e drogas.

O governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), ainda não se manifestou sobre a operação policial. 

Mãe diz que filho foi morto por PMs no Rio

UOL Notícias

Famílias relatam facadas em corpos

Segundo o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Álvaro Quintão, parentes relataram na segunda (11) marcas de facadas em vítimas do confronto.

"A informação que chega contradiz as informações da PM. Há informações de parentes de marca de facadas nos corpos, o que provaria que não ocorreu somente troca de tiros. Estamos aguardando os laudos finais. As informações são de que eles [suspeitos] estavam se entregando e que a polícia não teve interesse em prender. A intenção era matar as pessoas."

A mãe de um dos mortos a dona de casa Tatiana Carvalho foi ao Ministério Público do Rio dizer que o filho foi morto esfaqueado. "Enfiaram faca no meu filho, quebraram o pescoço do meu filho. Não foi tiro."

Questionado sobre essas denúncias, o porta-voz da PM, coronel Mauro Fliess, disse que o caso é investigado por inquérito Policial Militar e também pela Delegacia de Homicídios. 

"É preciso calma para apurar os fatos. Qualquer ilação neste sentido é desrespeito com os policiais militares. Há um inquérito da PM apurando os fatos e a investigação da Delegacia de Homicídios." Fliess negou irregularidades na ação. 

A Polícia Civil informou que os policiais envolvidos começaram a ser ouvidos na sexta e que as armas foram recolhidas para realização de perícia. Peritos também estiveram no imóvel onde os corpos foram encontrados.

A Comissão de Direitos Humanos da OAB, a Defensoria Pública e o Ministério Público acompanham o caso.

Nesta terça-feira (12), representantes da Defensoria Pública participam de um encontro na Associação de Moradores do Fallet com parentes das vítimas e testemunhas da ação policial para reunir detalhes sobre as circunstâncias das mortes e avaliar as medidas de assistência que podem ser tomadas.

O defensor Pedro Strozenberg disse que, por enquanto, ao menos nove dos suspeitos estavam em condição de rendição. "Onze jovens saíram da casa e foram presos, outros nove morreram em condições cruéis, tinham desejado se entregar e a polícia não aceitou. São os relatos de diversos moradores", afirmou.