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RJ investiga policiais suspeitos de atuar como agentes duplos para milícias

Rafael Moraes/Agência O Globo
Anel com imagem do Batman é apreendido pela polícia do Rio com integrante da milícia Liga da Justiça Imagem: Rafael Moraes/Agência O Globo

Sérgio Ramalho

Colaboração para o UOL, no Rio

2019-02-27T04:01:00

2019-03-12T15:19:03

27/02/2019 04h01Atualizada em 12/03/2019 15h19

Resumo da notícia

  • Operações no Rio são sistematicamente frustradas por informantes
  • Levantamento do UOL detalha 5 ações afetadas por agentes duplos
  • Principais alvos das operações são criminosos ligados a milícias

Levantamento do UOL revela que nos últimos 15 meses houve suspeita de vazamentos de informações sigilosas em ao menos cinco operações de enfrentamento a grupos paramilitares no Rio. Uma destas operações envolve o principal suspeito de ter executado a tiros a vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista, Anderson Gomes, na noite de 14 de março passado: o ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar) Adriano da Nóbrega, que segue foragido da Justiça há cerca de um mês.

Um dos alvos da operação "Os Intocáveis", o ex-oficial caveira - como são chamados os policiais que passam pelo curso do Bope - contaria com uma rede de proteção formada por agentes da lei infiltrados em batalhões e delegacias do Rio para se manter longe da prisão.

O episódio mais recente de infiltração aconteceu no último dia 14, quando dois policiais militares foram presos por suspeita de terem antecipado à milícia chefiada por Wellington da Silva Braga, o Ecko, informações sobre uma operação "Volante" desencadeada pela Polícia Civil na Zona Oeste do Rio. As equipes foram às ruas para tentar cumprir 20 mandados de prisão, sendo que dez deles em nome de suspeitos que já estavam presos. Apesar disso, apenas um homem foi detido na ação policial.

Interceptações telefônicas mostraram que o trabalho acabou prejudicado pelo PM Marcelo Tinoco Petuquio, que teve uma conversa telefônica captada pelas escutas autorizadas pela Justiça. No diálogo, ele dava detalhes sobre a operação a um interlocutor ligado ao grupo paramilitar. Além dele, também foi detido o sargento Marcelo Costa Brito, lotado no Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE), apontado como chefe da milícia de Rio da Prata, em Campo Grande. O grupo do PM tem ligação com a "Liga da Justiça", milícia chefiada por Ecko. 

Antonio Scorza/Agência O Globo
7.abr.2018 - Operação apreende armas e munição em sítio em Santa Cruz, sob suspeita de pertencer a milicianos da Liga da Justiça Imagem: Antonio Scorza/Agência O Globo

Em 22 de janeiro, durante a operação "Os Intocáveis", apenas cinco dos 13 mandados de prisão foram cumpridos pelos policiais civis envolvidos na ação, sendo que dois dos presos são oficiais da PM, o major Ronald Paulo Alves Pereira e o tenente aposentado Maurício Silva da Costa. Caso permanecessem foragidos, ambos perderiam prerrogativas, dentre elas, salário e aposentadoria. No dia seguinte, dois outros suspeitos foram detidos, elevando para sete o número de mandados cumpridos.

Além do ex-capitão Adriano, outro que conseguiu escapar da operação foi o presidente da Associação de Moradores de Rio das Pedras, Jorge Alberto Moreth, o Beto Bomba. Em um trecho da denúncia encaminhada pelo Ministério Público à Justiça consta a informação de que Beto Bomba tinha acesso a dados privilegiados sobre operações policiais realizadas nas localidades sob influência de milicianos e, com isso, alertava seus aliados com antecedência.

Exército teve operação frustrada

A presença de infiltrados das milícias nas polícias não surpreende o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL). O político que presidiu a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio, em 2008, já havia relacionado no relatório final da comissão informações sobre o envolvimento de agentes da lei e políticos com os grupos paramilitares.

Milícia é máfia. Esses grupos são compostos em parte por agentes da lei, que atuam como agentes duplos, servindo ao crime organizado enquanto recebem salários para proteger o cidadão"

Marcelo Freixo (PSOL-RJ), deputado federal

A divulgação do relatório final da CPI completou dez anos em dezembro passado. Nele, estão listados os nomes de 78 policiais militares suspeitos de envolvimento com grupos paramilitares.

97 mandados, menos de dez presos

O envolvimento de agentes públicos em vazamentos de informações privilegiadas às milícias também foi abordado pelos generais que participaram da intervenção federal na área de Segurança Pública.

Em 20 de dezembro passado, após a frustrada megaoperação do Exército, o general Richard Nunes, então à frente da Secretaria de Segurança, levantou suspeitas sobre o vazamento de informações. Na ocasião, os militares tinham em mãos 97 mandados de prisão, mas cumpriram menos de uma dezena deles.

O vazamento, segundo investigações, teria partido de um PM do Regimento de Polícia Montada (RPMonte), de Campo Grande, na zona oeste da cidade - uma das áreas dominadas pela organização criminosa alvo da operação. O objetivo da ação, que mobilizou mais de 1.700 militares, era enfraquecer a organização criminosa conhecida como "Liga da Justiça".

Um delegado ligado a cúpula da Secretaria de Polícia Civil confirma que os vazamentos recorrentes levaram o secretário Marcus Vinícius Braga a determinar a adoção de medidas de contra-inteligência para identificar, prender e levar à Justiça os agentes da lei que se valem da função para privilegiar grupos criminosos.

Outro lado

A Secretaria de Estado de Polícia Civil (SEPOL) informa que todos os casos de vazamento de informação são investigados pela Corregedoria Geral da Polícia Civil.

A reportagem não conseguiu contato com as defesas de Adriano da Nóbrega; Wellington da Silva Braga, o Ecko; Marcelo Tinoco Petuquio; Marcelo Costa Brito; Ronald Paulo Alves Pereira; Maurício Silva da Costa; e Jorge Alberto Moreth, o Beto Bomba. Quando elas se manifestarem, as respostas serão incluídas nesta reportagem.

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